A Porta de Serviço
Jana esperou o último fotógrafo deixar o salão. Levava os sapatos de festa numa das mãos e uma lanterna curta na outra. A barra do vestido roçava o piso molhado pela equipe de limpeza.
— A maquete mostrou a curva. Agora vamos procurar a rua.
Amália olhou para Caetano. Ele permanecia junto à porta do salão, ainda pálido. Turi havia pousado perto de seus pés, atento ao tremor que começava nos dedos e subia até o punho.
— Você vai? — ela perguntou.
— Até onde você quiser minha presença.
Era uma resposta melhor que a oferecida no jardim. Também era uma resposta treinada. Amália ergueu a câmera e acompanhou Jana.
O corredor de serviço começava atrás da parede usada para projetar o brasão Doural. Carrinhos de louça ocupavam metade da passagem. Tubos de refrigeração corriam pelo teto, cobertos por uma tinta recente, da mesma cor bege das áreas técnicas do cais. Jana avançou até uma caixa presa à parede e apontou a luz.
RVN-09 — CONTROLE DE EMISSÃO
O telefone de Amália perdeu o sinal. A gravação continuou na tela, sem indicar destino de cópia ou transmissão.
— Ravena — disse Jana. — Aqui dentro nada sai ao vivo.
— Isso existe em todas as rotas de serviço?
— Nas que importam.
Amália encerrou a gravação, iniciou outra e comparou os horários. O relógio do aparelho avançava; o envio automático permanecia suspenso. Jana fotografou a tela com a câmera sem rede e anotou o número do painel.
— Ravena bloqueia transmissão ou também altera arquivo?
— A versão declarada só bloqueia. A versão real depende de quem administra o corredor.
Amália guardou o telefone no modo local. O painel não provava adulteração. Provava que a cidade podia interromper testemunho externo sem avisar quem atravessava a porta.
Turi saltou para um cano baixo. Suas unhas rasparam a parede. Um pedaço de tinta caiu. Sob o bege surgiu uma letra preta. Jana usou a ponta de uma chave para ampliar a falha.
PORTA BAIXA
Abaixo do nome havia um ano anterior ao lançamento de Solariana e o sinal de Itá que Amália já vira nas margens do caderno de Gilberto.
— Registre — pediu Amália.
Jana ligou uma câmera própria, sem rede, e disse a data, o horário, o corredor e a identificação do painel Ravena. Caetano observava da entrada. Não atravessara a faixa entre o piso branco e o cimento antigo.
— Você conhecia essa porta? — perguntou Amália.
— Conhecia a existência de rotas de manutenção. Nunca entrei nesta.
— Quer entrar agora?
Ele olhou para a faixa no chão.
— Só se você pedir.
Amália não pediu.
A fechadura não tinha teclado. Turi raspou o sinal de Itá e soltou outra lasca de tinta. Um acionador mecânico apareceu sob a placa. Jana girou a peça com a chave curta. Um ruído de água correu dentro da parede, seguido por um estalo. A porta cedeu para dentro.
Do outro lado havia uma rua.
Não uma passagem técnica nem um cenário preservado. Casas estreitas se apoiavam umas nas outras. Roupas secavam sobre um canal aberto. Uma mulher cortava cupuaçu numa mesa junto à janela. Duas crianças recolhiam caroços caídos no chão. O ar trazia cheiro de peixe assado, sabão e barro quente. Acima dos telhados, tubulações brancas sustentavam a cidade apresentada aos visitantes.
Alguns moradores olharam para Amália. Nenhum demonstrou surpresa.
— Rua Baixa — disse Jana. — Já estava aqui quando construíram o cais branco.
Amália manteve a câmera baixa.
— Posso registrar a rua?
A mulher do cupuaçu apontou para os telhados e para o canal. Casas e tubulações podiam aparecer. Rostos, roupas nas janelas e crianças, não. Jana repetiu as condições diante da lente antes de Amália fotografar.
Na base de um tubo branco havia uma chapa Itá com data de instalação. O metal entrava por uma parede de madeira remendada. A data precedia em onze anos a fotografia de fundação exibida no baile.
Um medidor preso ao canal separava consumo técnico e consumo residencial. A coluna técnica tinha prioridade automática. Quando o salão ligava refrigeração ou fontes, a vazão das casas diminuía.
— Isso acontece durante todas as festas? — perguntou Amália.
— Durante visitas também — respondeu a mulher. — A cidade de cima precisa parecer abundante.
Ela se apresentou como Eulina somente depois de Amália explicar onde guardaria o nome. Autorizou identificação no caderno e recusou publicação até conversar com outros moradores. A recusa entrou ao lado da chapa, da data e do medidor.
A curva seguia o desenho da maquete. No fim dela, uma casa de madeira mantinha a porta aberta. Canais rasos atravessavam o piso e levavam água a uma mesa coberta por copos marcados com os nomes das Casas.
Irene Silar estava ajoelhada junto a uma comporta. Não usava jaleco. Tinha os braços molhados até os cotovelos.
— Visitante em Vazão declarada — informou Jana. — Entrada pela Porta Baixa. Eu testemunho.
Irene se levantou.
— Registre a hora.
Jana consultou o relógio.
— Vinte e três e quarenta e um.
Irene pediu que Eulina confirmasse a queda de vazão daquela noite. Eulina marcou o livro da rua com um sinal próprio e entregou a Jana uma tira do medidor. O papel trazia dois picos: abertura do baile e segunda apresentação.
— Uma festa lá em cima vira falta aqui embaixo — disse Amália.
— A mesma tubulação conta duas histórias — respondeu Eulina.
Turi correu de volta à porta. Caetano segurava a moldura com uma das mãos. O rosto perdera a pouca cor que restava depois do baile.
— Ele precisa entrar — disse Amália.
Irene negou com a cabeça.
— Precisa pedir.
Caetano respirou fundo.
— Solicito água interna. Piso de limite. Sem avanço sobre a visitante.
— Casa?
— Aramã.
— Motivo?
— Cheia prolongada, contenção, proximidade de água baixa sem preparo.
Irene abriu uma linha no piso. A água alcançou a soleira e parou nos tornozelos de Caetano. Ela pegou o copo Aramã, acrescentou duas gotas de um frasco verde e o entregou a Jana, que o levou até ele.
— Três goles pequenos — ordenou Irene.
Caetano bebeu. No terceiro gole, o tremor diminuiu.
Amália olhou os canais. Cada um seguia uma direção própria antes de desaparecer sob as casas.
— O que é água interna?
— Manutenção do corpo solar — respondeu Irene. — Não é água de torneira. Cada Casa regula composição, medida e acesso.
— E a mistura entre Casas?
— Pode sustentar. Pode ferir. Pode mudar um corpo sem retorno.
— O corpo de um visitante?
Irene fechou o frasco.
— Sobretudo.
Irene abriu o livro de manutenção. Cada copo tinha composição, lote, quantidade e pessoa responsável. O de Caetano recebera solução de contenção Silar, não água de vínculo. Jana fotografou o rótulo do frasco, a medida aplicada e a assinatura de Irene.
— Se alguém alterar a mistura?
— O corpo reage antes do arquivo. O arquivo deveria permitir descobrir quem alterou.
— Deveria?
Irene mostrou três páginas arrancadas. Os cortes coincidiam com noites de visitação privada.
Amália registrou bordas, sequência e costura do livro. Não atribuiu as retiradas a uma Casa. A falta de páginas era evidência de supressão, não autoria.
Caetano permanecia na soleira, obedecendo ao limite que pedira. Turi voltou e se acomodou ao lado dele.
— A Cheia aumenta a necessidade? — perguntou Amália.
— Aumenta tudo o que o corpo tenta fazer — disse Irene. — Aproximação, defesa, fome, criação de vínculo. A água impede que impulso vire colapso. Não transforma impulso em direito.
A palavra fome ficou entre os canais.
Amália recordou a pressão da mão de Caetano durante a dança, o recuo no jardim, a flor usada nas salas de assinatura. Recordou Marina depois da dosagem e Beatriz diante do quarto sem janela.
— Por que esconderam esta rua?
Irene tocou uma das comportas.
— Porque a cidade pública vende permanência sem mostrar o trabalho necessário para manter um solar vivo.
Eulina fechou a janela quando uma bomba começou a vibrar. As crianças recolheram a bacia do canal sem que ninguém precisasse avisar. A rotina ensinara o horário das perdas.
Amália pensou em Manaus, nas casas onde caixas d'água guardavam o que a rede prometia e não entregava. Solariana repetia a desigualdade do mundo sob mármore, cerimônia e segredo.
— E um mortal perto dele?
Irene não respondeu.
Caetano ergueu os olhos. O pedido estava inteiro em seu rosto: não ali, não sem registro, não depois de tudo o que cercara os dois naquela noite.
Amália caminhou até a linha onde a água terminava. Não a atravessou.
— Então eu sou alimento, Caetano?