Boca Própria
Caetano permaneceu entre Augusto e a sala da fundação. Nair exigiu que ele descrevesse a fome sem usar Amália como medida.
Jana registrou sala, instrumentos desligados e posição de cada pessoa. Mara iniciou uma leitura corporal de repouso. Caetano autorizou voz e medidas; recusou uso da imagem em divulgação.
— Meu nome é Caetano Aramã. Carrego uma fome de guarda preparada antes do meu nascimento e ativada durante a abertura pública. Fui educado para chamá-la de proteção.
Ele reconheceu que o corpo respondera a Amália antes de sua vontade e que isso aumentava sua responsabilidade.
Também enumerou atos escolhidos depois do condicionamento: omitira suspeitas sobre Celina, controlara horários de informação e usara autoridade Aramã para abrir e fechar acessos. A fome explicava risco; não assinava por ele.
Nair perguntou por três momentos concretos. Caetano admitiu que acompanhara a preparação do convite de Amália sem revelar a nota familiar; soubera que autorizações Aramã mantinham quase solares na área baixa; e demorara a entregar o vínculo entre o jardim Mairu e o caderno.
— Qual desses atos foi comando corporal? — perguntou Nair.
— Nenhum que eu possa demonstrar. Foram decisões minhas dentro de uma formação que me favorecia.
— Registre assim — disse Amália.
A ficha de Lídia permitia usar a presença de Amália como atalho para devolver a fome ao circuito Mairu. Caetano recusou:
— Nenhum procedimento usará corpo mortal, vínculo de margem, ficha de visitante ou marca de Celina sem consentimento.
Turi ficou diante da cavidade central. Não decidiu por eles; impediu uma aproximação durante a pressão de Augusto.
Mara marcou o comando do anel e a reação de Caetano. Turi respondeu ao movimento corporal, não ao conteúdo da discussão.
Caetano nomeou o autor atual do comando:
— Augusto Aramã manteve a fome de guarda em herdeiro vivo durante a abertura. Eu não falo pela assinatura dele.
Augusto chamou a declaração de traição produzida pela proximidade de Amália. Mara mostrou a leitura de repouso e o canal seco. A sala não apresentava Cheia ativa dirigida a Caetano naquele instante.
— Medição limpa não torna a fala verdadeira — disse Amália. — Permite atribuir a fala a ele sem usar o ambiente como desculpa automática.
Também separou desejo de direito.
— Quero Amália. Não peço toque, perdão, proteção ou futuro como pagamento por esta recusa.
A cópia da ficha foi colocada ao lado do mecanismo. Nair inseriu no registro interno a anotação entrada recusada como devolução. A Conta-Verde permaneceu fora do contato metálico, e o canal destinado ao cadastro de Amália permaneceu seco.
Caetano assumiu apenas o que podia:
— Respondo por meus atos e pelo nome que uso. A cobrança institucional retorna à Casa e às assinaturas que mantiveram a ordem.
Nair perguntou se ele aceitaria afastamento provisório das rotas Aramã. Caetano aceitou perder comando sobre visitantes, guardas e registros de fome até julgamento. Não entregou o sobrenome como gesto de pureza; entregou funções que poderiam interferir na prova.
Nair selecionou no painel A. Aramã: manutenção indevida e anexou a assinatura de Augusto já documentada. Mara e Jana testemunharam a operação. Nair preservou o copo de registro. Amália filmou objeto, texto, posição e recusa, sem usar o sofrimento de Caetano como centro da prova.
Nair suspendeu no painel o comando de guarda associado à assinatura de Augusto. Salma Itá, na Galeria Baixa, liberou manualmente as travas que dependiam daquele comando. Primeiro vieram fichas: Nair Aramã, Marina Salles, Pino Benvira e Gilberto Torres. Depois surgiram pessoas mantidas fora do registro alto.
Davi Benvira mostrava uma pulseira de presença renovada. Salma Itá carregava etiquetas das fechaduras que fora obrigada a manter. Teresa Doural baixa tinha um contrato arquivado sem voto.
— Digam nome, estado administrativo e prova — orientou Nair.
Cada pessoa escolheu se falaria na praça ou permaneceria na galeria. Três recusaram subir naquela noite. Seus nomes ficaram protegidos e suas fichas não foram levadas.
Davi autorizou mostrar a pulseira, sem expor a pele marcada. Salma autorizou etiquetas e voz, sem rosto. Teresa pediu que seu contrato fosse lido por Helena. As condições seguiram junto dos documentos.
Salma abriu o desvio de serviço que conduzia caixas lacradas até as bicas ornamentais da praça. A água movia as bandejas pelo canal; pessoas escolhiam quais documentos entravam. A degustação Doural perdeu a música quando os primeiros papéis apareceram diante dos visitantes.
Nair, Davi, Salma e Teresa saíram por respiros escondidos sob a arquitetura nova. Cada um falou o próprio nome. Caetano impediu um guarda de recolher os documentos.
Helena chegou com uma regra anterior às mesas altas: presença viva contradiz encerramento administrativo e suspende deliberação enquanto a prova for examinada.
Ela exibiu número da ata, data e duas aplicações anteriores. Teobaldo recebeu cópia e tempo para contestar autenticidade. A suspensão nasceu de regra arquivada, não da surpresa da praça.
Teobaldo tentou chamar tudo de violação técnica.
— É presença viva em praça pública — respondeu Helena.
Objetos e fichas foram levantados por testemunhas. A praça não virou espetáculo coletivo; tornou-se um arquivo de mãos, nomes e consequências.
Teobaldo ameaçou abrir a ala usada para assustar quem exigisse o cálculo completo.
— Qual ala? — perguntou Amália.
— A dos nomes sem corpo — disse Helena.
Na fonte, a última ficha mostrava Iracema.