A Galeria Baixa
O sinal desapareceu no terceiro degrau. Fotos de Gilberto e da autorização de Augusto ficaram presas nos aparelhos, sem envio. Jana retirou um cartão de memória escondido na roupa e continuou a duplicação física.
Amália anotou o último horário de rede e iniciou uma contagem manual de imagens. Jana registrou cada troca de cartão. A ausência de sinal impedia envio; não invalidava arquivos mantidos em suportes separados.
Acima deles, Doural transferia os visitantes para uma degustação no jardim. Teobaldo preparava um comunicado que chamava Amália de invasora emocionalmente influenciada por um anfitrião Aramã.
— Ele tentará transformar prova em sintoma — escreveu Helena numa mensagem incompleta.
Amália manteve a investigação no registro. Impôs a Caetano distância, aviso imediato de qualquer reação da fome e nenhuma negociação em nome dela. Jana recebeu autorização para interrompê-lo.
Uma porta oculta atrás de material de limpeza levava à Galeria Baixa. O mapa público mostrava parede. A chave M-P, combinada à liberação lateral Aramã, abriu o acesso.
Dentro, placas novas aguardavam num carrinho: Avenida Nascente, Passarela Botânica, Ala de Experiência. Na pedra permanecia o nome anterior:
Rua Baixa do Cais
Mais adiante, cal recente cobria parte de Mairu de Baixo. Marcas de botas provavam circulação naquela semana. Depois de renomear a cidade, as Casas removiam as palavras capazes de contradizer a inauguração.
Jana fotografou sola, escala e direção sem atribuir a marca a uma pessoa. Uma ordem presa ao carrinho trazia quantidade de placas, locais e prazo anterior à próxima visita de imprensa.
O corredor conservava ganchos de rede, números de casas e marcas de altura riscadas na pedra. Uma porta selada trazia quatro nomes infantis e datas sucessivas. A galeria fora lugar de vida antes de virar depósito de placas.
Amália registrou o conjunto sem abrir as casas fechadas. Provar apagamento urbano não autorizava invadir vestígios domésticos.
A galeria terminava numa sala de fichas. As gavetas separavam Mairu suspensos, Visitantes sem retorno e Torres de Baixo.
A chave doméstica entregue por Celina entrou no terceiro furo da gaveta Torres. O mecanismo também exigia selecionar o nome registrado numa roda de letras. Amália não chamou a resposta de herança: metal e cadastro formavam uma trava antiga.
Jana girou a roda até Celina Mairu Torres, copiando a grafia da ficha fotografada.
A gaveta abriu.
O mecanismo não ouvira voz, reconhecera corpo ou confirmara parentesco. Aceitara dois elementos de acesso preservados por Celina.
A ficha de Gilberto confirmava a consulta baixa e a rota recomendada caso a passagem superior fosse fechada. Uma sigla anotada ao lado da saída dizia B.C.. Amália preservou as interpretações possíveis até encontrar outra fonte.
O horário da consulta terminava nove minutos antes da ordem de Augusto. Depois disso, o campo de circulação ficava vazio. Jana marcou a lacuna e evitou chamar a galeria de local do desaparecimento.
O envelope de Celina era mais direto:
saída externa autorizada; filha nascida fora de Solariana: acompanhar sem chamar; proibir aproximação Doural; Aramã designado se houver convocação pública
Na última linha, um carimbo dizia adiar.
— Fui acompanhada antes de receber o convite — disse Amália.
Jana separou três possibilidades: vigilância contínua, acompanhamento ativado pela abertura ou plano arquivado sem execução. A palavra adiar não permitia escolher entre elas.
Caetano recuou. O registro Aramã não provava que ele conhecesse o plano; provava que sua Casa preparara uma aproximação.
Atrás das fichas havia uma divisória aberta recentemente. Um envelope branco, sem poeira, trazia Amália Torres e um ponto de Grão Claro preso por resina.
O ponto trazia número de circuito e data de instalação. Não era selo antigo; pertencia ao sistema implantado para a abertura pública.
Jana fotografou o envelope dentro do vão, abriu-o pela lateral e preservou o marcador. O papel não continha uma ficha de Amália. Continha o nome de Nair Aramã, encerrada por queda e anotada como viva sem subida.
Um ruído de grade chegou pelo canal. A pessoa que se aproximava conhecia o piso e evitava o musgo. Amália fechou a gaveta Torres, guardou as cópias em três lugares e manteve a câmera voltada para a água.
Uma mulher surgiu atrás da grade, usando o anel Aramã virado para dentro.
— Quem abriu Torres?
Caetano reconheceu o rosto descrito como morto na família.
— Nair?
— Aramã de cima aprende nomes depois do crime.
Nair não autorizou aproximação. Pediu que Caetano retirasse o anel, que Amália mantivesse a ficha visível e que Jana desligasse a luz direta sobre seu rosto.
— Minha morte já foi usada para organizar esta Casa. Minha volta não será organizada por vocês.
Amália repetiu as condições antes de continuar.
Amália mostrou a ficha sem entregá-la.
— Tenho seu registro.
Nair indicou o canal.
— Então pegue a Conta. O grão avisou Augusto quando vocês abriram o envelope.
Ela apontou o condutor fino preso à resina e a luz apagada no canto da divisória. O alerta era elétrico, ligado ao circuito Aramã, não percepção do Grão.