A Lei do Jogo Real
Marina continuava na varanda quando Lúcia Doural chegou com um Dorme-Dedo enrolado num guardanapo. A criatura bege esticava o corpo e tornava a recolhê-lo, inquieta diante da mulher que pedira ar.
O tremor das mãos de Marina não vinha de frio. A noite permanecia quente, com cheiro de pedra molhada e folhas. Atrás do vidro, a música retornara. Garçons recolhiam os copos que Amália marcara na própria grade, apagando da sala a sequência ainda visível no bloco.
Marina consultou a anotação feita na varanda e autorizou que Amália mantivesse seu nome apenas no registro de trabalho. Publicação dependeria de nova confirmação fora do salão. A condição devolveu à jovem uma escolha pequena e verificável.
— Eu não sei quem daqui pode ajudar sem querer decidir por mim — disse Marina.
— Então a primeira pergunta para cada pessoa será o que pretende fazer.
Amália anotou a regra no alto da página. Serviria para Marina e para ela.
— Posso acompanhá-la ao ambiente de repouso.
— Prefiro ficar aqui — respondeu Marina.
Lúcia recuou meio passo. Jonas Doural surgiu atrás dela e não imitou o gesto.
— Seu esposo solicitou uma sala privada até a avaliação médica.
— Eu não quero sala privada.
— É por pouco tempo.
— Eu não quero.
Amália abriu o bloco. A frase estava inteira, sem dúvida e sem necessidade de tradução.
Jonas olhou para a página.
— A senhora Torres não integra a equipe.
— Marina acabou de recusar.
— Ela está sob efeito de adaptação.
— Então não use o efeito para apagar uma frase limpa.
Turi saiu da bolsa de Amália e ficou junto ao fecho. Caetano entrou pela passagem externa. Ao ver o companheiro longe dele, conteve a mão e ocupou apenas a linha entre Jonas e Marina.
— A senhora Magalhães pediu distância — disse Caetano.
— Estamos oferecendo cuidado.
— Oferecer termina quando a resposta chega.
Jonas sustentou o sorriso.
— Ninguém impede saída.
— Insistência depois de recusa entra no registro.
— Registro de quê? — perguntou Amália.
— Vazão interrompida.
Teobaldo apareceu com Noemi Silar. A médica trazia um estojo rígido. Dentro havia uma pulseira de leitura, três frascos e um Vidrinho mergulhado em água clara.
— A senhora Magalhães teve desconforto após estímulo social — disse Teobaldo. — Silar fará a avaliação.
— Eu fico aqui — afirmou Marina.
Noemi perguntou se podia examiná-la na varanda. Marina autorizou pulso e temperatura, sem mudança de sala. Amália e Caetano não responderam por ela.
Noemi também pediu autorização para usar o Vidrinho. Explicou que a criatura reagia a resíduos na pele, tecido, água e variação térmica; não lia memória, intenção ou sinceridade. Marina permitiu aproximação da mão, recusou contato com o rosto e pediu que cada resultado fosse falado antes de entrar no laudo.
O pulso estava acelerado. A temperatura começava a baixar. No guardanapo trazido por Lúcia havia vestígio da preparação servida no salão. Noemi separou o guardanapo numa capa, identificou o horário e pediu assinatura de Lúcia. A Doural hesitou. Marina esperou até que ela assinasse.
O Vidrinho foi colocado perto da mão de Marina. Seu corpo transparente tocou o guardanapo de Lúcia e ficou leitoso. Noemi anotou desconforto de adaptação. A criatura atravessou a prancheta, parou sobre a expressão e ganhou uma faixa branca no centro.
— Reação de ambiente — explicou a médica.
— Ele fez isso diante do guardanapo e da frase — disse Amália.
Marina relatou a sequência: euforia depois da bebida, vontade de concordar, orgulho de Raul, enjoo, medo e pedido para Jonas parar de falar com ela.
Amália comparou o relato à grade do salão. Os horários coincidiam com a troca de cadeira, o segundo copo e a aproximação de Jonas. A comparação não provava qual estímulo causara cada sensação. Impedia que a mesa reduzisse tudo a um instante de nervosismo.
— Eu apenas acompanhei o casal — disse Jonas.
— Eu pedi para você parar.
O Vidrinho tornou-se opaco sobre o registro de Noemi.
Caetano olhou para a médica.
— O termo está inadequado.
Teobaldo fechou o estojo que ainda estava aberto.
— Aramã não preside Silar.
— Aramã responde pela fronteira de visitantes. Houve recusa, insistência de anfitrião e resposta do leitor. O protocolo é mesa.
Amália entendeu a diferença entre o jogo oferecido aos convidados e o jogo real. O primeiro distribuía pulseiras, bebidas e promessas. O segundo decidia qual Casa perdia acesso quando uma pessoa conseguia provar que dissera não.
Teobaldo tentou reduzir a ocorrência a falha de condução. Marina autorizou Amália a manter o relato. Noemi rasgou a folha ao tentar afastar o Vidrinho, preso à palavra errada.
— Ninguém sai com esse documento — determinou Teobaldo.
— A folha fica com Silar — respondeu Caetano. — O registro vai à mesa.
Helena entrou carregando a caneta do contrato de Raul dentro de uma caixa transparente. O Grão Claro permanecia agarrado ao metal e havia perdido a cor branca.
— Valcárcel aceita mesa — ela disse.
— Você fala pela Casa? — perguntou Teobaldo.
— Falo pelo registro iniciado pelo nosso mensageiro diante dos convidados.
Raul chegou à porta. Tentou entrar na varanda.
— Mari, eu não sabia.
Marina não soltou a grade.
Caetano abriu a mão diante dele.
— Distância.
— Ela é minha esposa.
— Agora é visitante em Vazão.
Raul parou. Noemi corrigiu o laudo: Vazão ativa, recusa limpa, insistência de anfitrião após pedido de distância. O Vidrinho recuperou parte da transparência.
Marina leu a nova linha. Pediu que Noemi acrescentasse: avaliação mantida na varanda por escolha da visitante. A médica escreveu sem consultar Teobaldo.
— Quero uma cópia.
— O laudo ainda está em curso — disse Teobaldo.
— Então quero o número, o horário e a versão que existe agora.
Noemi destacou um comprovante estreito. Marina guardou-o no vestido. Pela segunda vez naquela noite, um documento deixou de existir apenas sob custódia das Casas.
Jonas perdeu o sorriso.
— Segui orientação.
— Diga qual foi na mesa — respondeu Helena.
Dois funcionários Aramã apareceram no corredor. Não tocaram em Jonas. Mantiveram aberta apenas a rota que o afastava dos visitantes.
Teobaldo voltou-se para Amália.
— A senhora será conduzida ao alojamento.
— Não.
— Não foi convite.
— Ela ouviu o relato inicial e presenciou a leitura Silar — disse Caetano. — É testemunha afetada.
A expressão dava a Amália um lugar na ocorrência e tentava enquadrar sua participação. Ela aceitou apenas a parte que podia controlar.
— Sou testemunha do que vi. Não aceito obrigação além disso.
Uma funcionária Valcárcel apresentou uma pulseira provisória de testemunha. Amália leu a tela antes de oferecer o punho. O dispositivo permitiria acesso à mesa e registraria deslocamento adicional.
— Minha pulseira atual já registra.
— A categoria precisa ser atualizada.
— Atualize o cadastro, não o meu corpo.
Caetano confirmou que a categoria podia ser inserida no sistema existente. A nova pulseira voltou para a caixa. Amália aceitou o lugar jurídico sem aceitar outro objeto de controle.
Marina pediu que Amália a acompanhasse até o quarto. A porta permaneceu aberta. Lúcia caminhou três passos atrás, perguntando antes de cada aproximação.
Antes de entrar, Marina segurou a maçaneta.
— Se amanhã eu disser que exagerei, lembre que pedi para sair.
— Está anotado. Seu nome sai da matéria se você pedir. A ocorrência fica.
Marina concordou e fechou a porta até a fresta que escolhera.
Lúcia perguntou onde deveria esperar. Marina indicou uma cadeira no corredor e proibiu entrada sem chamado. Raul ficaria em outra ala até novo consentimento. As condições foram repetidas diante de Noemi e registradas no comprovante.
Um funcionário chamou Amália para a mesa reservada. Turi continuava junto à bolsa, longe de Caetano. A cidade tinha lei para impedir uma mão de avançar. Também tinha salões inteiros dedicados a enfraquecer a recusa antes que a lei precisasse acordar.
Ao entrar, Amália colocou o comprovante de Marina sobre a pasta Valcárcel.