Cheia e Vazão Solariana: Amazônica · Capítulo 6 de 44
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Cheia e Vazão

Turi acordou na mão de Amália e subiu até a manga. Marta registrou aproximação voluntária antes que outra Casa escolhesse palavras maiores.

Uma passagem lateral levou Amália e Caetano a um jardim de água. Flores fechadas cercavam uma fonte rasa.

— Flor de Cheia? — perguntou Amália.

— Orquídea de ambientação, na versão pública.

Turi se moveu. Uma flor abriu.

O perfume lembrava chuva em roupa limpa. Logo ganhou peso na garganta. Amália passou a notar detalhes inúteis: a marca junto à sobrancelha de Caetano, os tendões da mão dele, a distância entre os dois.

Ela abriu o bloco, decidida a registrar a alteração antes que o corpo produzisse uma explicação conveniente. Escreveu temperatura, perfume, flores abertas, posição da saída. A letra saiu maior que a habitual.

Conferiu o relógio: 10h16. Contou o próprio pulso durante trinta segundos e registrou quarenta e oito batidas. Leu em voz alta a última frase escrita. As palavras estavam corretas; a voz saía baixa, com uma intimidade que ela não escolhera.

Amália caminhou até a porta, atravessou o limite do jardim e respirou no corredor. O perfume perdeu força. O pulso caiu. Ao retornar apenas até o primeiro vaso, a garganta aqueceu outra vez. A alteração tinha área, intensidade e tempo. Sob aquelas condições, ela já não podia tratar o desejo como decisão limpa.

Outras flores se abriram.

— Ela reage a Turi?

— Reage à proximidade.

— De quem?

Caetano retirou a mão do corrimão.

Amália percebeu que os quatro passos entre eles tinham virado dois.

— O que acontece se eu tocar em você?

— Eu ficaria melhor.

— E eu?

— Talvez mais corajosa. Talvez presa ao momento. Talvez convencida de que deseja ficar antes de confirmar fora daqui.

Ele deu dois passos para trás e deixou a porta livre.

— Isto se chama Cheia.

— Acontece comigo ou com você?

— Com os dois. Em formas diferentes.

O corpo dela queria atravessar a distância. A cabeça reconheceu território, perfume e alteração.

Caetano apoiou uma mão no batente da porta, metade do corpo fora do jardim. O gesto não era serenidade. O punho estava rígido. Uma gota formou-se na pele dele e caiu antes de alcançar o chão.

— Isso alimenta você? — perguntou Amália.

— Estabiliza.

— O quê?

— Água interna, força, orientação. Aramã chama de necessidade. Valcárcel prefere privilégio biológico.

— E quem fica perto?

— Pode desejar ficar além da própria decisão.

— Então é fome.

Caetano não corrigiu.

— Se eu pedir para você ficar?

— Pergunto novamente depois da distância.

— E se eu ficar com raiva?

— A raiva é saída melhor que assinatura.

Amália sentou no banco e escreveu: Cheia. Flor abre. Vontade rápida. Confirmar depois.

— Quantas pessoas sabem distinguir vontade de Cheia? — perguntou.

— Poucas, quando acontece. Mais tarde, quase todas reconhecem alguma diferença.

— E a cidade espera até mais tarde?

— A cidade prefere a decisão tomada enquanto pode chamá-la de espontânea.

— Quantas permanências começaram aqui?

Caetano olhou para as flores abertas.

— Não tenho o número.

— Tem nomes?

— Alguns.

— Pessoas que conseguiram sair?

— Algumas.

Amália escreveu também: Caetano conhece nomes. O dado era mais grave que a botânica. Transformava risco previsto em história repetida.

Turi voltou-se para Caetano.

— Ele está vigiando você?

— Está avisando que demorei para recuar.

Amália ficou até a fonte voltar a ser apenas água.

Às 10h41, repetiu a contagem. O pulso voltara ao ritmo de chegada. Pediu que Caetano permanecesse fora do jardim e leu as anotações novamente. A vontade de tocá-lo ainda existia, agora sem urgência e acompanhada de raiva. Ela registrou as duas coisas em linhas diferentes.

— Isto não apaga o que eu senti — disse.

— Não.

— Também não autoriza você a usar.

— Não.

— O relatório de vocês separa efeito, desejo e decisão?

— Deveria separar.

— Quero ver um que separe.

Caetano prometeu acesso a um formulário vazio. Amália anotou a promessa com horário. Não lhe concedeu o valor de prova antes de receber o documento.

Na manhã seguinte, acordou com aversão à lembrança da voz de Caetano. Turi dormia longe, no braço da poltrona.

O quarto oferecia beleza em todas as direções: madeira clara, lençóis brancos, flores fechadas, uma jarra sem rótulo. Na véspera, ela teria fotografado tudo. Naquela manhã, cada objeto orientava seu humor com precisão excessiva. Amália virou o cartão de Cheia para baixo e lavou o rosto contando vinte segundos.

Turi abriu uma antena quando ela perguntou se ele viria ao café. Permaneceu na poltrona.

— Pelo menos alguém sabe recusar sem cerimônia.

Ela reconstruiu o dia anterior: cais, pedra, salão, jardim, Cheia. Ao chegar em Caetano, a memória virava calor e urgência. A distância de Turi ajudava a separar afeto de efeito.

Amália comparou a letra produzida no jardim com as notas do cais. No período de Cheia, as palavras cresciam, a margem diminuía e o nome de Caetano aparecia quatro vezes em meia página. Depois da distância, os registros recuperavam horário, objeto e verbo de ação.

Fotografou as duas páginas lado a lado. A mudança de escrita não provava causa. Preservava o estado em que ela precisaria avaliar qualquer decisão tomada ali.

No café, escolheu uma cadeira fora da marca dourada. Um funcionário trouxe água de adaptação com cheiro verde e metálico.

Uma criatura semelhante a folha dobrada saiu do arranjo e se contraiu perto do copo.

— Retire a bebida — ordenou Amália.

— Ela ajuda no desconforto.

— Eu não pedi ajuda.

— É só água de adaptação.

— Então será fácil explicar para Benvira.

Caetano chegou ao salão. Viu o copo, a Folha-Mansa e Amália fora da marca. Não se aproximou. Mandou retirar a bebida e fornecer uma jarra lacrada.

O funcionário obedeceu depois de olhar para Isadora. A hierarquia passou pela sala em silêncio. Amália abriu a garrafa sozinha. A água comum não resolveu o enjoo. Resolveu a dúvida sobre quem tinha autorizado a primeira bebida: Doural, não Benvira.

A distância dele trouxe alívio. Também trouxe uma decepção que Amália recusou examinar.

Ela tomou uma rota secundária. Atrás da terceira porta, uma mulher pedia passagem.

— Quero voltar ao quarto. Abra, por favor.

Duas funcionárias bloqueavam o corredor. Beatriz segurava a bolsa contra o peito. Uma Silar oferecia um copo com folha cinza esmagada.

— O procedimento recomenda repouso — disse a Doural.

— Eu pedi saída — respondeu Beatriz.

Amália entrou.

— Ela recusou.

— Este setor não pertence à sua orientação.

— A porta estava aberta.

A Folha-Mansa subiu pela mochila de Amália e ficou castanha diante da bebida.

Beatriz viu a criatura.

— Ela ficou assim quando me trouxeram o primeiro copo.

— Primeiro? — perguntou Amália.

— Disseram que eu precisava desejar a programação de hoje antes de cancelar.

A Doural avançou meio passo.

— A visitante está confusa.

— Estou assustada — corrigiu Beatriz. — Não é a mesma coisa.

— Ela não gostou do copo — disse Amália.

— Folha-Mansa não é indicador de prescrição.

— Eu não perguntei o que ela não é.

Caetano apareceu no corredor e permaneceu longe das duas mulheres.

— Abram a passagem.

— Existe procedimento Silar ativo.

— A porta aberta faz parte do cuidado.

— Sem repouso, ela pode piorar.

Caetano olhou para Beatriz.

— Pediu saída?

— Pedi.

— Então ninguém toca em você sem novo pedido.

As funcionárias se afastaram. Beatriz hesitou diante do corredor livre.

— Posso ir sozinha?

— Pode. Se quiser companhia, escolha quem acompanha.

Ela pediu que Amália permanecesse no corredor. Caetano ficou do outro lado, sem transformar a abertura em escolta.

Beatriz caminhou devagar, esperando que alguma pulseira, ordem ou mão a puxasse de volta. Nada aconteceu. Quando alcançou a luz do jardim, começou a chorar sem ruído. Uma Benvira se ajoelhou a dois passos e perguntou antes de aproximar-se.

Beatriz alcançou o jardim externo.

— Isso será registrado — disse a Doural.

— Registre primeiro o pedido de saída — respondeu Caetano.

Amália seguiu por uma rota que não a obrigava a passar perto dele.

Uma placa discreta indicava:

VAZÃO: jardins abertos e saída assistida.

Ela escreveu: direito de distância. Bebida cinza. Beatriz. Porta bloqueada. Testemunha.

Marta apareceu carregando o copo recolhido dentro de uma caixa.

— Como vai registrar?

— Pedido de saída com contenção indevida.

— Dá problema?

— Dá trabalho.

— Melhor que silêncio.

Marta ergueu a caixa. A folha cinza esmagada estava visível contra o fundo transparente.

Ela chamou uma técnica Benvira e lacrou o copo diante de Amália e Beatriz. Cada uma declarou o que vira sem ouvir a versão da outra. Horário, posição da bandeja, pedido de saída e pessoas presentes receberam campos separados. A cor da Folha-Mansa entrou apenas como reação ambiental, sem servir de diagnóstico para Beatriz.

— Posso receber cópia? — perguntou Beatriz.

— Do seu relato, agora. Da análise, quando sair — respondeu Marta.

— E se decidirem que eu estava confusa?

— Sua confusão não elimina a frase que falou.

Beatriz leu o próprio depoimento, retirou uma expressão que não usara e assinou apenas depois da correção. Amália guardou o número da ocorrência com autorização dela.

— Isto não pertence à fórmula declarada para visitantes em Vazão.

— De quem é?

— Silar prepara. Doural solicita. Valcárcel decide se a ocorrência sobe.

— E Aramã?

— Abre ou fecha passagem.

Amália olhou para o corredor onde Caetano já não estava. Uma função simples podia salvar alguém e continuar fazendo parte da máquina que a prendera.

Beatriz chamou Amália antes que ela partisse. A Benvira permanecia a dois passos, respeitando o espaço.

— Eu pedi para ir embora ontem — contou. — Disseram que era cansaço de viagem. Depois me deram uma pulseira azul e disseram que eu tinha sido escolhida para a programação ampliada.

— Você aceitou?

— Lembro de dizer sim. Não lembro de querer dizer.

Amália pediu autorização para registrar a frase. Beatriz permitiu o texto e recusou fotografia.

— Se eu mudar de ideia depois, você apaga meu nome?

— Apago o nome. Não apago o que fizeram.

Beatriz concordou. Era a primeira negociação do dia em que recusa, prazo e consequência cabiam na mesma conversa.

Ela decidiu permanecer no jardim até conseguir falar com a irmã fora de Solariana. Não voltou ao quarto indicado por Doural e não deixou a cidade naquela hora. Vazão também protegia o direito de adiar uma escolha sem ser devolvida ao ambiente que produzira a urgência.

Ao chegar ao quarto, Amália encontrou Turi na maçaneta. Ele não procurou sua manga. Desceu para o rodapé e respeitou a distância.

No bloco, ela escreveu as duas palavras em páginas separadas: Cheia, junto das alterações medidas no jardim; Vazão, junto do pedido de Beatriz e da rota mantida aberta.

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