A Casa Mairu
Amália acordou antes do tablet. Guardou o caderno de Gilberto, a cópia tarjada, o relato com margem e os cartões em lugares diferentes da bolsa.
O código 417-M abriu um painel de serviço ao lado do elevador. A escada desceu meio andar, cruzou um corredor estreito e subiu para uma biblioteca identificada como apoio cultural.
Amália marcou o trajeto no bloco: dezenove degraus, corredor para leste, rampa curta, nova subida. O tablet continuava exibindo a rota oficial dos jardins. Nenhum alerta registrou o desvio. A passagem existia fora do mapa de visitantes e dentro da arquitetura usada todos os dias.
Gavetas rasas ocupavam as paredes. Fichas pendiam de cordões verdes. Nenhuma tela orientava o visitante.
As etiquetas separavam entrada, margem, permanência, retorno e nome protegido. Em vez de sobrenomes completos, usavam data, trecho de rio e pessoa que recebera o relato. Algumas fichas traziam dois carimbos incompatíveis: encerrada na via principal, ativa na margem.
Amália fotografou a organização geral antes de se aproximar da mesa. Um arquivo manual podia sofrer alteração. Também podia sobreviver a uma ordem digital de apagamento.
Uma mulher lia sob uma luminária. Tinha cabelos pretos atravessados por mechas brancas e uma Conta-Verde presa ao pulso.
— A consulta começa às dez.
— Vim pela sala 417-M.
— Quem entregou o código?
— Alguém que pediu nomes na ordem certa.
A mulher tocou um sino de madeira. Uma Folha-Mansa saiu detrás das fichas, atravessou a mesa e subiu na alça da bolsa de Amália. Quando a mulher tentou retirá-la, a criatura afinou o corpo e prendeu-se à costura.
— Ela escolheu — disse Amália.
— Escolha também exige cuidado.
— Cuidado de qual Casa?
— Lídia Mairu.
O sobrenome ocupou o lugar de uma resposta antiga. Amália conhecia Mairu nos mapas das Casas e em duas anotações incompletas de Gilberto.
— O que Mairu guarda?
— Nomes que não cabem na mesa principal.
— Quem decide que ficam fora?
— Valcárcel encerra a via principal. Aramã fecha passagem. Mairu recebe o que sobra.
— Receber sem contestar também mantém o sistema.
Lídia apoiou as mãos na mesa.
— Manteve por muito tempo.
Ela não ofereceu resistência secreta como absolvição. A Casa preservara pessoas do apagamento completo e aceitara que continuassem invisíveis.
Lídia abriu uma gaveta baixa. A ficha bege tinha número de passagem, uma data anterior ao lançamento de Solariana e um nome escrito sem sobrenome: Celina.
Amália não tocou no papel.
— Celina Torres?
— A via principal não registra sobrenome.
— Entrada?
— Visitante de margem.
— Saída?
— Não consta.
Lídia mostrou o verso. Três campos haviam sido preenchidos em momentos distintos. O primeiro registrava chegada pela margem. O segundo dizia encaminhada para avaliação. O terceiro fora raspado até ferir o papel. Restava apenas parte de uma palavra: vaz...
Amália fotografou frente e verso com uma régua de arquivo ao lado. Pediu o livro de movimentação da gaveta. A ficha fora consultada duas vezes: por uma pessoa identificada apenas como G. Torres e, anos depois, pela presidência Valcárcel.
— Gilberto e Teobaldo.
— O primeiro nome pode ser sustentado pelo caderno — disse Lídia. — O segundo, pelo selo de consulta.
Era a primeira vez que alguém no arquivo distinguia hipótese de prova sem tentar diminuir a pergunta.
A data coincidia com um desenho do caderno de Gilberto: margem de rio, três riscos de água e um ano solto no canto. Amália abriu a página e colocou o caderno ao lado da ficha.
A Folha-Mansa deixou a bolsa e parou diante do nome. Sua cor mudou para um verde quase negro.
Lídia registrou a mudança de cor como reação a papel antigo, umidade e objetos trazidos por Amália. Não atribuiu parentesco ou verdade à criatura. O nome de Celina era confirmado pela ficha, pela data e pelo desenho de Gilberto.
— Meu pai veio atrás dela.
— Gilberto chegou depois.
Lídia retirou outra ficha. Nela, o nome dele surgia ligado a consulta de passagem, negativa de permanência, material não devolvido.
— Que material?
— Um caderno de campo e uma cópia de planta.
— O caderno voltou com ele.
— A planta, não.
O livro de retirada informava que a cópia da planta fora transferida para obra e regularização. Não havia recibo de devolução. Amália anotou setor, data e assinatura parcial. A pista não exigia que a Folha-Mansa apontasse caminho; existia numa decisão administrativa.
Amália pensou nos desenhos incompletos e na pedra sob tinta branca. Além de registrar a existência da cidade, o pai procurara a rota usada por Celina.
— Minha mãe saiu?
— Está viva fora daqui.
— Isso não responde.
— A mesa reconhece entradas. Mairu registra também o que escapa sem autorização.
Uma porta abriu no corredor. Lídia recolheu as fichas. Caetano apareceu sozinho, com o punho vazio. Viu a Folha-Mansa, o caderno aberto e o rosto de Amália.
— Valcárcel detectou a sala — disse.
— Você sabia de Celina.
O silêncio dele não tinha surpresa.
— Conhecia o nome.
— Desde quando?
— Antes de conhecer você.
— E decidiu me levar a jardins, salões e contratos antes de dizer que minha mãe esteve aqui.
— Eu não tinha acesso à ficha.
— Tinha acesso ao medo.
Caetano aceitou a frase.
Lídia recolocou a ficha de Celina na mesa.
— O registro Aramã chama a saída de violação de fronteira — disse. — Valcárcel chama de perda documental. Mairu chama de sobrevivência sem baixa.
— Quem ajudou?
— O nome foi retirado.
— Por quê?
— Para que a punição ficasse sem corpo certo.
Amália fotografou apenas data, número e nome, depois pediu autorização para registrar a mão de Lídia junto à ficha. Lídia permitiu.
— O que aconteceu com as outras pessoas sem saída?
— Algumas vivem fora. Algumas foram trazidas de volta. Algumas continuam dentro com outro nome.
— Quantas?
— Mais do que uma Casa consegue esconder sozinha.
— E quantas Mairu deixou sem sobrenome para protegê-las?
— Cento e sete fichas nesta ala.
— Quantas recuperaram o nome depois?
Lídia abriu um índice menor. Vinte e três. O número transformava proteção temporária em dívida prolongada.
— Preservar não basta quando ninguém devolve — disse Amália.
— Eu sei.
— Saber entrou em qual ata?
Lídia retirou uma cópia de pedido de reintegração recusado por Valcárcel. Mairu contestara três vezes e aceitara a negativa por décadas. Amália fotografou protocolo e resultado. A Casa tinha resistido no papel e continuado funcionando dentro da mesma ordem.
A Folha-Mansa entrou entre a cópia do contrato e o caderno. Uma marca verde apareceu na página onde Amália escrevera Celina.
Caetano olhou para a porta.
— Precisamos sair.
— Você sai primeiro — respondeu Amália. — Eu escolho a rota.
Ele obedeceu.
Lídia abriu uma passagem baixa para outra biblioteca. Contas-Verdes descansavam sob vidro fosco, cada uma diante de uma ficha sem nome completo.
— Não telefone para Celina daqui — avisou.
— Porque a cidade escuta?
— Algumas Casas escutam melhor quando alguém fala com a mãe.
Amália guardou o celular. Antes de atravessar a passagem, voltou-se para Lídia.
— Por que mostrar agora?
— Helena abriu a sala. Turi abriu seu registro. Você preservou a frase de Marina. Três sistemas cometeram erros diferentes na mesma noite.
— E Mairu aproveitou.
— Mairu esperou demais. Aproveitar seria outra palavra limpa.
Lídia fez uma cópia manual das fichas de Celina e Gilberto, cobriu apenas nomes de pessoas ainda protegidas e escreveu a justificativa de acesso: filha da registrada, portadora do caderno citado. Assinou com o próprio nome.
— Valcárcel pode invalidar a cópia — disse.
— Pode negar. Invalidar exige mostrar o original.
Lídia entregou as folhas. Amália saiu daquela sala de arquivo levando algo além de fotografia obtida sob disputa.
No corredor externo, Caetano mantinha distância. Turi aguardava sobre o corrimão entre os dois. O companheiro caminhou até Amália e entrou na bolsa por escolha própria.
Ela não ligou para Celina. Fotografou o caderno, duplicou as anotações e escreveu uma pergunta para fazer fora do alcance da cidade: Qual foi a passagem que Solariana se recusou a chamar de saída?
Ao lado da pergunta, copiou os números das fichas de Celina e Gilberto.