A Casa Mairu Solariana: Amazônica · Capítulo 12 de 44
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A Casa Mairu

Amália acordou antes do tablet. Guardou o caderno de Gilberto, a cópia tarjada, o relato com margem e os cartões em lugares diferentes da bolsa.

O código 417-M abriu um painel de serviço ao lado do elevador. A escada desceu meio andar, cruzou um corredor estreito e subiu para uma biblioteca identificada como apoio cultural.

Amália marcou o trajeto no bloco: dezenove degraus, corredor para leste, rampa curta, nova subida. O tablet continuava exibindo a rota oficial dos jardins. Nenhum alerta registrou o desvio. A passagem existia fora do mapa de visitantes e dentro da arquitetura usada todos os dias.

Gavetas rasas ocupavam as paredes. Fichas pendiam de cordões verdes. Nenhuma tela orientava o visitante.

As etiquetas separavam entrada, margem, permanência, retorno e nome protegido. Em vez de sobrenomes completos, usavam data, trecho de rio e pessoa que recebera o relato. Algumas fichas traziam dois carimbos incompatíveis: encerrada na via principal, ativa na margem.

Amália fotografou a organização geral antes de se aproximar da mesa. Um arquivo manual podia sofrer alteração. Também podia sobreviver a uma ordem digital de apagamento.

Uma mulher lia sob uma luminária. Tinha cabelos pretos atravessados por mechas brancas e uma Conta-Verde presa ao pulso.

— A consulta começa às dez.

— Vim pela sala 417-M.

— Quem entregou o código?

— Alguém que pediu nomes na ordem certa.

A mulher tocou um sino de madeira. Uma Folha-Mansa saiu detrás das fichas, atravessou a mesa e subiu na alça da bolsa de Amália. Quando a mulher tentou retirá-la, a criatura afinou o corpo e prendeu-se à costura.

— Ela escolheu — disse Amália.

— Escolha também exige cuidado.

— Cuidado de qual Casa?

— Lídia Mairu.

O sobrenome ocupou o lugar de uma resposta antiga. Amália conhecia Mairu nos mapas das Casas e em duas anotações incompletas de Gilberto.

— O que Mairu guarda?

— Nomes que não cabem na mesa principal.

— Quem decide que ficam fora?

— Valcárcel encerra a via principal. Aramã fecha passagem. Mairu recebe o que sobra.

— Receber sem contestar também mantém o sistema.

Lídia apoiou as mãos na mesa.

— Manteve por muito tempo.

Ela não ofereceu resistência secreta como absolvição. A Casa preservara pessoas do apagamento completo e aceitara que continuassem invisíveis.

Lídia abriu uma gaveta baixa. A ficha bege tinha número de passagem, uma data anterior ao lançamento de Solariana e um nome escrito sem sobrenome: Celina.

Amália não tocou no papel.

— Celina Torres?

— A via principal não registra sobrenome.

— Entrada?

— Visitante de margem.

— Saída?

— Não consta.

Lídia mostrou o verso. Três campos haviam sido preenchidos em momentos distintos. O primeiro registrava chegada pela margem. O segundo dizia encaminhada para avaliação. O terceiro fora raspado até ferir o papel. Restava apenas parte de uma palavra: vaz...

Amália fotografou frente e verso com uma régua de arquivo ao lado. Pediu o livro de movimentação da gaveta. A ficha fora consultada duas vezes: por uma pessoa identificada apenas como G. Torres e, anos depois, pela presidência Valcárcel.

— Gilberto e Teobaldo.

— O primeiro nome pode ser sustentado pelo caderno — disse Lídia. — O segundo, pelo selo de consulta.

Era a primeira vez que alguém no arquivo distinguia hipótese de prova sem tentar diminuir a pergunta.

A data coincidia com um desenho do caderno de Gilberto: margem de rio, três riscos de água e um ano solto no canto. Amália abriu a página e colocou o caderno ao lado da ficha.

A Folha-Mansa deixou a bolsa e parou diante do nome. Sua cor mudou para um verde quase negro.

Lídia registrou a mudança de cor como reação a papel antigo, umidade e objetos trazidos por Amália. Não atribuiu parentesco ou verdade à criatura. O nome de Celina era confirmado pela ficha, pela data e pelo desenho de Gilberto.

— Meu pai veio atrás dela.

— Gilberto chegou depois.

Lídia retirou outra ficha. Nela, o nome dele surgia ligado a consulta de passagem, negativa de permanência, material não devolvido.

— Que material?

— Um caderno de campo e uma cópia de planta.

— O caderno voltou com ele.

— A planta, não.

O livro de retirada informava que a cópia da planta fora transferida para obra e regularização. Não havia recibo de devolução. Amália anotou setor, data e assinatura parcial. A pista não exigia que a Folha-Mansa apontasse caminho; existia numa decisão administrativa.

Amália pensou nos desenhos incompletos e na pedra sob tinta branca. Além de registrar a existência da cidade, o pai procurara a rota usada por Celina.

— Minha mãe saiu?

— Está viva fora daqui.

— Isso não responde.

— A mesa reconhece entradas. Mairu registra também o que escapa sem autorização.

Uma porta abriu no corredor. Lídia recolheu as fichas. Caetano apareceu sozinho, com o punho vazio. Viu a Folha-Mansa, o caderno aberto e o rosto de Amália.

— Valcárcel detectou a sala — disse.

— Você sabia de Celina.

O silêncio dele não tinha surpresa.

— Conhecia o nome.

— Desde quando?

— Antes de conhecer você.

— E decidiu me levar a jardins, salões e contratos antes de dizer que minha mãe esteve aqui.

— Eu não tinha acesso à ficha.

— Tinha acesso ao medo.

Caetano aceitou a frase.

Lídia recolocou a ficha de Celina na mesa.

— O registro Aramã chama a saída de violação de fronteira — disse. — Valcárcel chama de perda documental. Mairu chama de sobrevivência sem baixa.

— Quem ajudou?

— O nome foi retirado.

— Por quê?

— Para que a punição ficasse sem corpo certo.

Amália fotografou apenas data, número e nome, depois pediu autorização para registrar a mão de Lídia junto à ficha. Lídia permitiu.

— O que aconteceu com as outras pessoas sem saída?

— Algumas vivem fora. Algumas foram trazidas de volta. Algumas continuam dentro com outro nome.

— Quantas?

— Mais do que uma Casa consegue esconder sozinha.

— E quantas Mairu deixou sem sobrenome para protegê-las?

— Cento e sete fichas nesta ala.

— Quantas recuperaram o nome depois?

Lídia abriu um índice menor. Vinte e três. O número transformava proteção temporária em dívida prolongada.

— Preservar não basta quando ninguém devolve — disse Amália.

— Eu sei.

— Saber entrou em qual ata?

Lídia retirou uma cópia de pedido de reintegração recusado por Valcárcel. Mairu contestara três vezes e aceitara a negativa por décadas. Amália fotografou protocolo e resultado. A Casa tinha resistido no papel e continuado funcionando dentro da mesma ordem.

A Folha-Mansa entrou entre a cópia do contrato e o caderno. Uma marca verde apareceu na página onde Amália escrevera Celina.

Caetano olhou para a porta.

— Precisamos sair.

— Você sai primeiro — respondeu Amália. — Eu escolho a rota.

Ele obedeceu.

Lídia abriu uma passagem baixa para outra biblioteca. Contas-Verdes descansavam sob vidro fosco, cada uma diante de uma ficha sem nome completo.

— Não telefone para Celina daqui — avisou.

— Porque a cidade escuta?

— Algumas Casas escutam melhor quando alguém fala com a mãe.

Amália guardou o celular. Antes de atravessar a passagem, voltou-se para Lídia.

— Por que mostrar agora?

— Helena abriu a sala. Turi abriu seu registro. Você preservou a frase de Marina. Três sistemas cometeram erros diferentes na mesma noite.

— E Mairu aproveitou.

— Mairu esperou demais. Aproveitar seria outra palavra limpa.

Lídia fez uma cópia manual das fichas de Celina e Gilberto, cobriu apenas nomes de pessoas ainda protegidas e escreveu a justificativa de acesso: filha da registrada, portadora do caderno citado. Assinou com o próprio nome.

— Valcárcel pode invalidar a cópia — disse.

— Pode negar. Invalidar exige mostrar o original.

Lídia entregou as folhas. Amália saiu daquela sala de arquivo levando algo além de fotografia obtida sob disputa.

No corredor externo, Caetano mantinha distância. Turi aguardava sobre o corrimão entre os dois. O companheiro caminhou até Amália e entrou na bolsa por escolha própria.

Ela não ligou para Celina. Fotografou o caderno, duplicou as anotações e escreveu uma pergunta para fazer fora do alcance da cidade: Qual foi a passagem que Solariana se recusou a chamar de saída?

Ao lado da pergunta, copiou os números das fichas de Celina e Gilberto.

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