O Companheiro Morto
Mirtes Benvira abriu a porta quando Jana mostrou a chave da E-7. O setor tinha bancadas baixas, redes do tamanho de mãos, tigelas rasas e abrigos marcados com nomes.
No centro, uma caixa de vidro guardava um corpo pequeno sobre musgo. Uma antena quebrada repousava junto à cabeça.
Turi saltou do ombro de Caetano para o pulso e apertou a pele até deixá-la vermelha. Caetano sustentou o braço sem prendê-lo.
— O nome dele era Pino — disse Mirtes.
Liana, a jovem responsável por ele, permanecia sentada diante da caixa. Entregou a Amália a ficha de ronda: Pino voltara com cheiro doce, recusara água, batera a cabeça no vidro e deixara de responder.
Antes de falar da morte, Liana mostrou as páginas comuns. Pino limpava minerais das folhas, dormia sob pano azul e escondia sementes nos cantos do abrigo. Tinha aprendido a voltar da E-7 pelo som de duas colheres.
— Não escreva que era dócil. Ele mordia quando a luz ficava acesa.
Amália anotou a correção. Uma vida não seria reduzida ao comportamento conveniente para o luto.
O relatório oficial registrava falha de manejo em ninho de adaptação. Trazia selo Verdan, revisão Doural e ciência Benvira.
— Ciência sob ameaça de fechamento — corrigiu Mirtes.
Ela mostrou a tira recolhida das patas de Pino e um frasco marcado E-7. A coleta ocorrera quatro horas antes da reunião dos investidores. Silar Nara examinara boca, patas e antena. Encontrara Flor de Cheia acima do limite ornamental. O laudo entregue ao setor desaparecera naquela manhã.
Mirtes apresentara pedido de bloqueio às 15h07. A manutenção respondera às 15h19 que o fluxo permaneceria até o fim da agenda política. Jana colocou horários, lote e mapa numa tabela sem preencher autoria ainda ausente.
Amália fotografou cada objeto separado. O corpo não provaria sozinho quem aumentara o fluxo; o horário, o filtro, o pedido de bloqueio e o laudo formavam a cadeia.
— Quem manteve a ventilação ativa?
— Um assistente de Teobaldo Doural disse que a agenda não podia parar — respondeu Liana.
Outro companheiro circulava entre a caixa e uma fresta no rodapé. Chamava-se Favo e dividira as rondas com Pino. Ele raspou o chão até expor um grão verde.
Liana explicou que Favo repetia a limpeza do trajeto usado pelos dois. O gesto não apontava culpado ou rota secreta. Deixava acessível material preso ao piso.
Jana recolheu o fragmento com uma espátula. A cor e o odor correspondiam ao filtro.
Mirtes abriu uma gaveta e tirou a ordem de recolher a caixa, incinerar o material residual e registrar a perda por manejo. Uma marca seca de três folhas indicava o caminho Verdan, sem identificar o autor.
O formulário trazia número de emissão, impressora e setor. Helena solicitou o registro da máquina. Verdan recusou acesso imediato e recebeu o pedido por escrito.
— Não escreva só que ele morreu — pediu Liana. — Escreva que sabia voltar para casa.
Amália assentiu.
Turi aproximou-se da caixa por vontade própria e encostou a testa no vidro. A câmera ficou baixa, sem tomar o rosto de Liana. Solariana sobrevivia apagando vítimas; tornar Pino visível exigia limite para não transformar o luto em atração.
Helena acionou Silar Nara pelo comunicador preso à parede. Caetano fez o pedido em nome técnico, diante de Amália, Jana, Mirtes e Helena. O registro impedia conversa privada e obrigava uma recusa formal.
Nara enviou uma cópia parcial: concentração perigosa, contato pela E-7, morte compatível com exposição aguda. O carimbo estava cortado, e a conclusão bastava para impedir a incineração.
Amália pediu o documento integral e um exame fora das Casas ligadas ao duto. Mirtes indicou duas pessoas externas possíveis. Liana escolheu qual delas poderia tocar o corpo e exigiu presença durante o procedimento.
Favo voltou à fresta e bateu contra a porta interna. Atrás dela começava o corredor da estufa.
— Ele fazia isso no fim de cada ronda — disse Liana. — Pino respondia do outro lado.
Depois das batidas, Favo esperou diante da porta usada em sua ronda. Ninguém a abriu.
Mirtes segurou a chave junto ao peito.
— Se eu abrir, fecham o setor e recolhem os companheiros.
— Se não abrir, mantêm a rota e chamam Pino de erro — disse Amália.
Liana colocou dois dedos na tampa da caixa. Mirtes entregou a chave a Jana.
Jana não abriu. Lacrou a fechadura e registrou que a entrada dependeria da ata limitada, do estado de Beatriz e da preservação do setor. A chave permitia acesso; não obrigava passagem imediata.
Antes de partirem, Amália registrou os abrigos. Pino continuava gravado numa porta pequena, com folha dobrada e pano limpo dentro.
O corpo permaneceria sob guarda Benvira até exame independente. A ficha seguiria com Liana; a cópia parcial, com Helena; a amostra, com Jana. Amália levou fotografias e uma declaração assinada de recebimento.
Pino deixava de ser perda de manejo. Era uma morte ligada à decisão de manter visitantes em salas alteradas.
Na porta interna, Favo esperou todos se posicionarem e avançou pelo corredor verde.