O Companheiro Morto Solariana: Amazônica · Capítulo 30 de 44
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O Companheiro Morto

Mirtes Benvira abriu a porta quando Jana mostrou a chave da E-7. O setor tinha bancadas baixas, redes do tamanho de mãos, tigelas rasas e abrigos marcados com nomes.

No centro, uma caixa de vidro guardava um corpo pequeno sobre musgo. Uma antena quebrada repousava junto à cabeça.

Turi saltou do ombro de Caetano para o pulso e apertou a pele até deixá-la vermelha. Caetano sustentou o braço sem prendê-lo.

— O nome dele era Pino — disse Mirtes.

Liana, a jovem responsável por ele, permanecia sentada diante da caixa. Entregou a Amália a ficha de ronda: Pino voltara com cheiro doce, recusara água, batera a cabeça no vidro e deixara de responder.

Antes de falar da morte, Liana mostrou as páginas comuns. Pino limpava minerais das folhas, dormia sob pano azul e escondia sementes nos cantos do abrigo. Tinha aprendido a voltar da E-7 pelo som de duas colheres.

— Não escreva que era dócil. Ele mordia quando a luz ficava acesa.

Amália anotou a correção. Uma vida não seria reduzida ao comportamento conveniente para o luto.

O relatório oficial registrava falha de manejo em ninho de adaptação. Trazia selo Verdan, revisão Doural e ciência Benvira.

— Ciência sob ameaça de fechamento — corrigiu Mirtes.

Ela mostrou a tira recolhida das patas de Pino e um frasco marcado E-7. A coleta ocorrera quatro horas antes da reunião dos investidores. Silar Nara examinara boca, patas e antena. Encontrara Flor de Cheia acima do limite ornamental. O laudo entregue ao setor desaparecera naquela manhã.

Mirtes apresentara pedido de bloqueio às 15h07. A manutenção respondera às 15h19 que o fluxo permaneceria até o fim da agenda política. Jana colocou horários, lote e mapa numa tabela sem preencher autoria ainda ausente.

Amália fotografou cada objeto separado. O corpo não provaria sozinho quem aumentara o fluxo; o horário, o filtro, o pedido de bloqueio e o laudo formavam a cadeia.

— Quem manteve a ventilação ativa?

— Um assistente de Teobaldo Doural disse que a agenda não podia parar — respondeu Liana.

Outro companheiro circulava entre a caixa e uma fresta no rodapé. Chamava-se Favo e dividira as rondas com Pino. Ele raspou o chão até expor um grão verde.

Liana explicou que Favo repetia a limpeza do trajeto usado pelos dois. O gesto não apontava culpado ou rota secreta. Deixava acessível material preso ao piso.

Jana recolheu o fragmento com uma espátula. A cor e o odor correspondiam ao filtro.

Mirtes abriu uma gaveta e tirou a ordem de recolher a caixa, incinerar o material residual e registrar a perda por manejo. Uma marca seca de três folhas indicava o caminho Verdan, sem identificar o autor.

O formulário trazia número de emissão, impressora e setor. Helena solicitou o registro da máquina. Verdan recusou acesso imediato e recebeu o pedido por escrito.

— Não escreva só que ele morreu — pediu Liana. — Escreva que sabia voltar para casa.

Amália assentiu.

Turi aproximou-se da caixa por vontade própria e encostou a testa no vidro. A câmera ficou baixa, sem tomar o rosto de Liana. Solariana sobrevivia apagando vítimas; tornar Pino visível exigia limite para não transformar o luto em atração.

Helena acionou Silar Nara pelo comunicador preso à parede. Caetano fez o pedido em nome técnico, diante de Amália, Jana, Mirtes e Helena. O registro impedia conversa privada e obrigava uma recusa formal.

Nara enviou uma cópia parcial: concentração perigosa, contato pela E-7, morte compatível com exposição aguda. O carimbo estava cortado, e a conclusão bastava para impedir a incineração.

Amália pediu o documento integral e um exame fora das Casas ligadas ao duto. Mirtes indicou duas pessoas externas possíveis. Liana escolheu qual delas poderia tocar o corpo e exigiu presença durante o procedimento.

Favo voltou à fresta e bateu contra a porta interna. Atrás dela começava o corredor da estufa.

— Ele fazia isso no fim de cada ronda — disse Liana. — Pino respondia do outro lado.

Depois das batidas, Favo esperou diante da porta usada em sua ronda. Ninguém a abriu.

Mirtes segurou a chave junto ao peito.

— Se eu abrir, fecham o setor e recolhem os companheiros.

— Se não abrir, mantêm a rota e chamam Pino de erro — disse Amália.

Liana colocou dois dedos na tampa da caixa. Mirtes entregou a chave a Jana.

Jana não abriu. Lacrou a fechadura e registrou que a entrada dependeria da ata limitada, do estado de Beatriz e da preservação do setor. A chave permitia acesso; não obrigava passagem imediata.

Antes de partirem, Amália registrou os abrigos. Pino continuava gravado numa porta pequena, com folha dobrada e pano limpo dentro.

O corpo permaneceria sob guarda Benvira até exame independente. A ficha seguiria com Liana; a cópia parcial, com Helena; a amostra, com Jana. Amália levou fotografias e uma declaração assinada de recebimento.

Pino deixava de ser perda de manejo. Era uma morte ligada à decisão de manter visitantes em salas alteradas.

Na porta interna, Favo esperou todos se posicionarem e avançou pelo corredor verde.

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