Os Quase Solares
Na manhã seguinte, a ala Silar recebeu investidores interessados em programas de permanência. Jana e Amália entraram no grupo usando as pulseiras do baile. Turi caminhava perto da parede. Caetano vinha atrás, ainda sob restrição de água.
Um homem de camisa clara ergueu a mão diante de uma sala onde raízes cresciam dentro de cilindros.
— Quanto custa ficar para sempre?
A guia sorriu.
— Cada permanência é uma relação singular com Solariana.
— Existe valor mínimo?
Caetano falou antes que ela respondesse.
— Compra, mordida e contágio explicam pouco. O processo começa pela água e pelo nome. Em seguida considera o desejo e a resposta orgânica de cada Casa. Um corpo pode recusar depois que a pessoa aceitou.
A guia perdeu o sorriso.
— O senhor Aramã não integra esta visita.
— Ele acabou de integrar — disse Amália. — O que acontece quando o corpo recusa?
O grupo ficou em silêncio. O investidor guardou o telefone.
Caetano enumerou os registros usados fora da cidade: falha cardíaca, febre tropical, acidente de permanência, desaparecimento, retorno sem endereço. A classificação dependia da Casa responsável e do destino do corpo.
— Consentimento resolve? — perguntou Jana.
— Solariana já tratou repetição, assinatura, resposta corporal e consentimento delegado como equivalentes quando isso favoreceu uma Casa.
A guia encerrou a visita. As portas laterais se fecharam. Amália alcançou um terminal antes que a tela bloqueasse. Pesquisou permanência incompleta. Nenhum resultado. Inseriu Noemi Duarte.
Uma ficha apareceu por menos de um segundo:
ACESSO SUSPENSO — DIVERGÊNCIA DE PERMANÊNCIA
O telefone perdeu o sinal. O painel da parede trazia a marca Silar.
Turi encontrou uma abertura sob a bancada clínica e passou por ela. Jana retirou a grade. O espaço dava para uma rampa estreita, feita para macas. No fim havia um salão com oito camas.
Raízes envolviam a estrutura da primeira. A placa dizia RAIZ DE ESTADA. Pessoas dormiam, liam ou observavam uma janela alta demais para mostrar a rua.
Uma mulher sentada na terceira cama usava uma pulseira sem nome.
— Noemi Duarte? — perguntou Amália.
— A doutora é Silar — respondeu ela. — Eu sou Duarte. Convém registrar a diferença antes que usem a confusão para me apagar.
Jana repetiu nome, local, hora e forma de entrada diante da câmera.
Noemi pediu para ver a gravação. Corrigiu a pronúncia do sobrenome, exigiu que a cama não aparecesse antes de seu rosto autorizado e pediu uma tomada da janela alta.
— Quero que registrem a altura. Dizem que tenho jardim.
Amália filmou a parede até a abertura. Dali, Noemi via luz e um pedaço de telhado. Não via rua, árvores ou pessoas atravessando.
Ao lado da cama havia um rádio sem bateria, três cartões-postais de Manaus e uma lista de compras dobrada. Noemi conservava a lista porque reconhecia a letra da mãe. Arroz, sabão, café, farinha e linha de costura ocupavam mais memória que os relatórios clínicos guardados sobre ela.
Noemi fora levada a Solariana por um Doural que agora assinava o comitê de boas práticas. Sua família tentara buscá-la. A cidade enviara médicos, advogado e um relatório de instabilidade. A mãe morrera acreditando que a filha escolhera desaparecer.
— Em que ano sua mãe veio?
Noemi indicou um cartão com bordas gastas. A mãe escrevera a data e o nome do hotel. A administração registrara ausência de familiares naquele mesmo mês.
Jana fotografou frente, verso, desgaste e posição do cartão. Amália anotou que a caligrafia precisava de confirmação externa. O objeto contrariava o resumo administrativo; sozinho, não provava que a mãe alcançara Solariana.
— Eu talvez tenha escolhido no primeiro dia — disse Noemi. — Depois, cada pedaço de mim escolhia uma coisa. Eles juntavam o pedaço útil e chamavam de vontade inteira.
Ela sentia sede da água interna, repulsa ao cheiro dela, saudade do homem Doural, desejo de apagar o nome dele e pânico diante da chuva fora de Solariana. Cada Casa adotara uma reação diferente para provar sua tese. Quando Noemi dizia dor, a porta continuava fechada.
Silar media sede. Doural registrava saudade. Aramã registrava pânico de saída. Valcárcel condensava tudo em permanência predominante. Mairu guardara duas recusas numa margem sem força executiva.
— Qual registro perguntava o que você queria naquele dia? — perguntou Amália.
— Nenhum. Perguntavam até obter a reação útil.
Noemi abriu uma gaveta. Havia calendários preenchidos por ela. Em dias azuis aceitava água interna. Nos amarelos pedia distância do Doural. Nos verdes queria acesso ao jardim. Nos vermelhos não autorizava avaliação.
— Entreguei cópias. O prontuário chama isso de oscilação.
— Eu chamaria de decisões com prazo — disse Jana.
— Registre que foi você quem chamou.
— O que é um quase solar?
— Alguém que não entra na genealogia solar nem volta ao registro humano. Sem autorização, viramos caso clínico, exemplo de risco e corpo sem rosto.
Guardas apareceram no alto da rampa. Caetano deu um passo para dentro e puxou a grade para reduzir a visão deles.
— Proteção com tranca continua sendo tranca — disse Noemi.
Ele soltou a grade.
Amália perguntou o que Noemi queria registrar.
— Que expliquem aos visitantes ricos que permanência pode virar uma cama. Que o Doural responsável assine sem chamar responsabilidade de amor. Quero acesso ao jardim sem esta pulseira apagada. Quero decidir quem usa meu nome.
— Você quer sair agora?
— Não. Quero testemunhar aqui hoje e decidir o uso externo num dia neutro. Retirada contra minha vontade repete a violência com outra direção.
Amália perguntou o que seria um dia neutro.
— Sem visita do Doural, sem avaliação de permanência, sem mudança na água e com uma pessoa escolhida por mim.
Jana escreveu as condições numa folha separada. Noemi marcou uma a uma e acrescentou o direito de interromper a leitura. O depoimento daquele dia ficaria interno até nova decisão.
Passos desceram pela rampa. Uma administradora informou que o contato estava suspenso por ordem da permanência.
Amália abriu o livro encontrado num suporte e o colocou sobre a cama.
— Registre a suspensão, o motivo e a Casa responsável.
— A senhora não tem autoridade.
— Noemi tem autoridade sobre o próprio depoimento. Caetano solicitou ocorrência. Jana testemunha. Sua ordem também terá nome.
A administradora escreveu contato não autorizado, assinou apenas o setor e tentou fechar o livro. Noemi segurou a capa.
— Falta a Casa.
Depois de um longo silêncio, a mulher acrescentou Administração de Permanência.
— Nome da pessoa responsável — disse Noemi.
A administradora informou o próprio nome e o cargo. Jana repetiu para a câmera. A ordem deixava de pertencer a uma parede.
Amália entregou a câmera a Jana.
— Guarde duas cópias internas. Nada externo até Noemi autorizar.
Ela se voltou para Caetano.
— Descubra quem assinou a suspensão.
— E você?
— Vou à Casa Mairu.
Noemi chamou Amália antes que ela alcançasse a rampa.
— Não me transforme na resposta sobre permanência.
— Você é uma fonte sobre o que fizeram com você.
— Hoje, isso basta.
Ele caminhou com ela até a saída da ala. Diante da porta, Amália ergueu a mão. Caetano parou.
Dessa vez, não pediu para acompanhá-la.