O Nome de Celina
A chamada saiu de um aparelho da lavanderia, fora da rede dos visitantes. Celina atendeu no terceiro toque.
— Mãe.
— Amália, que número é esse?
— Um que ainda não pertence às Casas.
Amália encerrou a primeira chamada e pediu que Celina retornasse para o número público da lavanderia. A ligação de volta veio do contato guardado no telefone de Manaus. Jana registrou o procedimento sem gravar a voz de Celina antes de obter autorização.
— Saia daí.
A rapidez da ordem eliminou qualquer dúvida: Celina conhecia Solariana.
Amália descreveu a ficha da estufa, a linha de cobrança e a solicitação Mairu. Do outro lado, a mãe negou até ouvir o nome de Iracema.
— Não diga esse nome perto de uma Folha de Senha aberta.
Jana fechou a Folha de Senha na caixa de leitura e afastou a Conta-Verde. Nenhum dos objetos seria usado durante o depoimento.
O código MV-8 da fotografia correspondia à drenagem baixa no mapa de manutenção. A rota vinha de registros humanos, não da reação da folha.
— Iracema tirou você de lá?
Celina respirou perto do aparelho.
— Eu era criança. Ela me retirou de uma sala sem janela.
Celina lembrava o ruído de pratos acima do teto, uma faixa molhada em torno do tornozelo e o cheiro de sabão no corredor final. Não lembrava o rosto de Iracema inteiro. Lembrava mãos com cicatrizes e uma voz repetindo que saída não criava dívida.
Amália leu apenas o que anotara. Celina retirou a palavra fuga e escolheu retirada.
A cobrança fora lançada antes de Celina ter idade para aceitar dívida, guarda ou permanência. Iracema protegera a saída e separara seu nome dos registros altos. Parte do arquivo continuara retida na Casa de Baixo.
Gilberto descobrira uma pulseira antiga escondida na caixa de remédios da família. Procurou a margem sem água desenhada no próprio caderno.
— Ele me perguntou por que eu guardava uma pulseira sem usar — disse Celina. — Eu respondi que pertencia a uma infância encerrada. Ele percebeu que eu tinha medo do fecho.
O pai fotografara a peça, copiara o símbolo Mairu e começara a procurar registros de margem. Celina não soube quando a investigação virou entrada em Solariana.
— Ele não desapareceu por acidente — disse Celina. — Entrou por baixo procurando o que ainda tinham guardado de mim.
— O quê?
— Nome, fome, dívida. Eles colocam cada palavra num documento para ninguém perceber que estão registrando o mesmo corpo.
Celina confirmou que a pulseira ainda existia. Prometeu mostrá-la em Manaus e pediu à filha que saísse pela rota baixa de Caetano.
Amália pediu que a mãe não enviasse fotografia pela rede. O editor buscaria uma cópia presencial, com recibo, sem retirar o original da casa.
Amália recusou obedecer sem compreender.
— Eu não fico por destino, herança ou por ele. Fico até reunir prova suficiente para ninguém reduzir sua história a uma reação da minha mão.
Celina demorou a responder.
— Então guarde cópias. Não siga Caetano sem olhar para a Casa dele. Não deixe Valcárcel tocar na folha.
A ligação caiu quando passos Aramã chegaram à lavanderia.
Augusto esperava o filho numa sala atravessada por canais de água e Brincos-de-Água. Ordenou que Amália ficasse fora, que Jana entregasse o aparelho, que Beatriz voltasse à contenção e que as provas fossem recolhidas.
Caetano recusou cada ordem.
— Você coloca uma visitante acima da Casa — disse Augusto.
— Coloco uma lista de crimes acima da conveniência da Casa.
Augusto revelou que o treinamento Aramã podia usar fome, ambiente e proximidade para dirigir o herdeiro. Amália reconheceu o risco sem transformar Caetano em culpado automático ou protetor seguro.
Mara iniciou a leitura dos Brincos antes que Augusto repetisse o comando. Registrou código do anel, variação da água e posição de Caetano. O instrumento media o sinal; a ordem falada e o livro atribuíam ação.
— Quero saber quando uma aproximação é sua escolha e quando é comando — disse ela.
— Eu também.
Turi atravessou a soleira e bloqueou o avanço de Caetano quando Augusto tentou provocar a fome treinada. O companheiro não explicou a cena nem escolheu por ninguém. Interrompeu um corpo sob pressão.
Augusto ordenou a substituição temporária da guarda. Mara Aramã abriu o livro e hesitou antes de registrar. Amália viu Mara marcar na margem o instante em que uma gota caiu do Brinco-de-Água.
— Você guarda pequenos atos — acusou Augusto.
— Guardo aquilo que vocês esperam apagar.
Jana abriu a placa de inspeção indicada no mapa de manutenção. Um medidor sob a mesa armazenava códigos dos anéis e respostas corporais registradas durante as ordens. A Casa não controlava apenas portas e pessoas; arquivava reações produzidas durante o comando.
Caetano ficou para garantir que Mara concluísse o registro. Amália voltou à lavanderia com Jana, Beatriz e cópias separadas.
No bloco, escreveu:
Celina saiu viva. Iracema guardou a passagem. Gilberto entrou por baixo. A pulseira permanece em Manaus. A água Aramã registra comando.
Nenhuma frase dizia que Amália herdara função, vínculo ou direito sobre Solariana.
Amália guardou a gravação autorizada da mãe junto das páginas investigadas pelo pai. Abriu o mapa de manutenção e marcou a rota MV-8.