O Congresso e a Maquete
Helena escolheu uma sala acima da lavanderia para organizar as provas. A tomada era torta, a janela tinha tela de fibra e o cabo de uma antiga câmera Ravena terminava cortado no canto.
Amália separou o material por risco: publicação após checagem; proteção de testemunha; linhagem.
Helena colocou sobre a mesa uma lista de visitas políticas anteriores ao anúncio de Solariana. Dois deputados, uma senadora suplente, assessores, empresários e representantes de fundos estrangeiros tinham recebido rota fechada. Um deles, Raul Meirelles, visitara a Casa Doural à noite e assinara apoio ambiental na manhã seguinte.
A fotografia oficial trazia a data alterada. Na versão inteira, flores de Cheia ocupavam a mesa. O registro interno dizia Cheia social induzida e revisão de consentimento dispensada. Teobaldo Valcárcel assinara a dispensa.
Jana comparou os arquivos por marcas de compressão, resolução e horário interno. A versão oficial fora exportada dois dias depois da visita e recebera a data da publicação. O original mantinha o relógio da câmera e um código de armazenamento Ravena.
Helena localizou a entrada correspondente no inventário. Amália registrou a sequência sem chamar a cópia de fraude antes de obter a política de edição usada pelo Congresso.
Na imagem sem recorte, Raul mantinha a mão no ombro de uma assessora jovem. Mara Luz pedira saída naquela noite e fora convencida a dormir na Casa Doural. Dois integrantes da equipe técnica entraram em Vazão no dia seguinte. Seus nomes não apareciam no parecer enviado ao Congresso.
— Mara autorizou uso do nome? — perguntou Amália.
— Não foi localizada depois da visita — respondeu Helena.
Amália substituiu o nome por assessora da comitiva no rascunho e criou uma tarefa separada de contato. A fotografia podia demonstrar ambiente e edição sem expor uma pessoa antes de ouvi-la.
— O telefone ficava sem sinal durante a rota — disse Helena. — Voltava na sala de assinatura.
Jana leu a planilha de horários.
— Sem imagem quando podiam ver a cidade. Rede aberta quando receberam caneta.
O parecer enviado ao Congresso chamava Solariana de empreendimento privado de preservação. Nair Aramã assinava a segurança; Doural, a hospitalidade; Ravena, o georreferenciamento. Nenhuma linha mencionava Casas, Cheia, Vazão ou ruas antigas.
Amália escreveu a abertura da matéria e parou. Os nomes políticos davam urgência; as pessoas submetidas à Cheia precisavam de proteção antes da manchete.
— Se sair agora, eles mostrarão adultos em evento privado — disse Caetano. — E usarão quem sofreu alteração para provar que todos estavam satisfeitos.
Jana fez a pergunta necessária:
— Quem protege Beatriz quando precisarem sustentar essa versão?
Amália enviou ao editor apenas um alerta cifrado. Separou os documentos e manteve a matéria fora da rede.
O alerta trazia prazo de retorno, código das cópias e instrução para procurar Mara, Raul e os integrantes técnicos fora dos contatos fornecidos por Solariana. Se Amália perdesse comunicação, o editor publicaria apenas a existência da apuração e pediria preservação dos arquivos.
O rascunho continuava aberto no computador. A frase inicial denunciava o encontro comprado; a linha seguinte ainda não protegia quem aparecia na fotografia sob Cheia. Amália fechou o arquivo. A demora teria prazo e motivo, não seria silêncio oferecido às Casas.
Caetano empurrou para ela um parecer de Nair. O protocolo de abertura previa seleção prévia de fontes confiáveis.
— Sua mãe me classificou antes do convite?
— Todos foram classificados. Vi parte da sua ficha.
— O que havia nela?
— Histórico profissional, insistência, família conhecida. Uma nota sobre Celina Torres.
Amália colocou o parecer no grupo de linhagem.
Três batidas interromperam a sala. Uma funcionária da lavanderia entrou com uma peça de maquete embrulhada num pano.
Antes de entregar, ela recusou imagem e nome. Jana registrou fonte da lavanderia, identidade protegida e pediu que a mulher descrevesse onde encontrara a peça. Estava num carrinho marcado para descarte técnico, junto de panos usados na desmontagem do baile.
Na face superior havia prédios claros e a placa Avenida Nascente Quatro. No verso, escrito sobre a madeira antiga:
Rua Baixa do Cais — encaixe 11 — Torres
O canal reproduzia a curva do drone e do caderno de Gilberto. A cidade precisava conservar o nome antigo sob a miniatura para montar a versão nova no lugar certo.
Bento Itá chegou com auxiliares e chamou a peça de patrimônio técnico.
— A inscrição antiga ajudava a localizar a estrutura anterior — admitiu.
— Anterior à apresentação pública — disse Amália.
Helena tomou a ordem de serviço. Itá executara cobertura visual e troca de placas. Ravena aprovara o roteiro. Doural, a apresentação. Teobaldo validara a alteração de nomenclatura.
Jana encontrou uma segunda lasca no pano:
I. Mairu — travessa lateral — encaixe 8
Bento tentou recolher as peças. Caetano impediu.
Amália fotografou a mão dele segurando o pulso do Itá. Ajuda prestada por herdeiro continuava sendo exercício de hierarquia. A imagem precisava preservar as duas coisas.
— Solte o pulso — disse ela.
Caetano soltou. Jana colocou a peça entre duas bandejas e marcou a posse provisória em nome das três testemunhas. Bento recebeu uma via e registrou sua reivindicação sem recuperar o material naquele corredor.
— O arquivo de obra guarda a ordem inteira — disse ele.
— Então abra agora — respondeu Amália.
— Preciso preparar o acesso.
— Sem guia, sala pronta ou versão anterior à minha entrada.
Amália duplicou as fotografias e enviou ao editor somente um quadro parcial. O adiamento deixava a cidade exposta. Por isso, ela espalhou prova suficiente para sobreviver à próxima porta.
O quadro parcial mostrava o encaixe e a inscrição, sem rosto, nome da fonte ou localização da sala. O editor confirmou recebimento por código combinado.
No verso do mapa, escreveu os quatro nomes da mesma curva: Rua Baixa do Cais, Torres de Baixo, Avenida Nascente Quatro e o traço incompleto de Gilberto. A miniatura não provava sozinha quem vivera ali. Provava que a equipe de abertura conhecia o lugar antigo enquanto vendia sua invenção.
Ela guardou a maquete com Jana e apontou para o corredor.
— Arquivo de obra. Agora.