O Congresso e a Maquete Solariana: Amazônica · Capítulo 25 de 44
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O Congresso e a Maquete

Helena escolheu uma sala acima da lavanderia para organizar as provas. A tomada era torta, a janela tinha tela de fibra e o cabo de uma antiga câmera Ravena terminava cortado no canto.

Amália separou o material por risco: publicação após checagem; proteção de testemunha; linhagem.

Helena colocou sobre a mesa uma lista de visitas políticas anteriores ao anúncio de Solariana. Dois deputados, uma senadora suplente, assessores, empresários e representantes de fundos estrangeiros tinham recebido rota fechada. Um deles, Raul Meirelles, visitara a Casa Doural à noite e assinara apoio ambiental na manhã seguinte.

A fotografia oficial trazia a data alterada. Na versão inteira, flores de Cheia ocupavam a mesa. O registro interno dizia Cheia social induzida e revisão de consentimento dispensada. Teobaldo Valcárcel assinara a dispensa.

Jana comparou os arquivos por marcas de compressão, resolução e horário interno. A versão oficial fora exportada dois dias depois da visita e recebera a data da publicação. O original mantinha o relógio da câmera e um código de armazenamento Ravena.

Helena localizou a entrada correspondente no inventário. Amália registrou a sequência sem chamar a cópia de fraude antes de obter a política de edição usada pelo Congresso.

Na imagem sem recorte, Raul mantinha a mão no ombro de uma assessora jovem. Mara Luz pedira saída naquela noite e fora convencida a dormir na Casa Doural. Dois integrantes da equipe técnica entraram em Vazão no dia seguinte. Seus nomes não apareciam no parecer enviado ao Congresso.

— Mara autorizou uso do nome? — perguntou Amália.

— Não foi localizada depois da visita — respondeu Helena.

Amália substituiu o nome por assessora da comitiva no rascunho e criou uma tarefa separada de contato. A fotografia podia demonstrar ambiente e edição sem expor uma pessoa antes de ouvi-la.

— O telefone ficava sem sinal durante a rota — disse Helena. — Voltava na sala de assinatura.

Jana leu a planilha de horários.

— Sem imagem quando podiam ver a cidade. Rede aberta quando receberam caneta.

O parecer enviado ao Congresso chamava Solariana de empreendimento privado de preservação. Nair Aramã assinava a segurança; Doural, a hospitalidade; Ravena, o georreferenciamento. Nenhuma linha mencionava Casas, Cheia, Vazão ou ruas antigas.

Amália escreveu a abertura da matéria e parou. Os nomes políticos davam urgência; as pessoas submetidas à Cheia precisavam de proteção antes da manchete.

— Se sair agora, eles mostrarão adultos em evento privado — disse Caetano. — E usarão quem sofreu alteração para provar que todos estavam satisfeitos.

Jana fez a pergunta necessária:

— Quem protege Beatriz quando precisarem sustentar essa versão?

Amália enviou ao editor apenas um alerta cifrado. Separou os documentos e manteve a matéria fora da rede.

O alerta trazia prazo de retorno, código das cópias e instrução para procurar Mara, Raul e os integrantes técnicos fora dos contatos fornecidos por Solariana. Se Amália perdesse comunicação, o editor publicaria apenas a existência da apuração e pediria preservação dos arquivos.

O rascunho continuava aberto no computador. A frase inicial denunciava o encontro comprado; a linha seguinte ainda não protegia quem aparecia na fotografia sob Cheia. Amália fechou o arquivo. A demora teria prazo e motivo, não seria silêncio oferecido às Casas.

Caetano empurrou para ela um parecer de Nair. O protocolo de abertura previa seleção prévia de fontes confiáveis.

— Sua mãe me classificou antes do convite?

— Todos foram classificados. Vi parte da sua ficha.

— O que havia nela?

— Histórico profissional, insistência, família conhecida. Uma nota sobre Celina Torres.

Amália colocou o parecer no grupo de linhagem.

Três batidas interromperam a sala. Uma funcionária da lavanderia entrou com uma peça de maquete embrulhada num pano.

Antes de entregar, ela recusou imagem e nome. Jana registrou fonte da lavanderia, identidade protegida e pediu que a mulher descrevesse onde encontrara a peça. Estava num carrinho marcado para descarte técnico, junto de panos usados na desmontagem do baile.

Na face superior havia prédios claros e a placa Avenida Nascente Quatro. No verso, escrito sobre a madeira antiga:

Rua Baixa do Cais — encaixe 11 — Torres

O canal reproduzia a curva do drone e do caderno de Gilberto. A cidade precisava conservar o nome antigo sob a miniatura para montar a versão nova no lugar certo.

Bento Itá chegou com auxiliares e chamou a peça de patrimônio técnico.

— A inscrição antiga ajudava a localizar a estrutura anterior — admitiu.

— Anterior à apresentação pública — disse Amália.

Helena tomou a ordem de serviço. Itá executara cobertura visual e troca de placas. Ravena aprovara o roteiro. Doural, a apresentação. Teobaldo validara a alteração de nomenclatura.

Jana encontrou uma segunda lasca no pano:

I. Mairu — travessa lateral — encaixe 8

Bento tentou recolher as peças. Caetano impediu.

Amália fotografou a mão dele segurando o pulso do Itá. Ajuda prestada por herdeiro continuava sendo exercício de hierarquia. A imagem precisava preservar as duas coisas.

— Solte o pulso — disse ela.

Caetano soltou. Jana colocou a peça entre duas bandejas e marcou a posse provisória em nome das três testemunhas. Bento recebeu uma via e registrou sua reivindicação sem recuperar o material naquele corredor.

— O arquivo de obra guarda a ordem inteira — disse ele.

— Então abra agora — respondeu Amália.

— Preciso preparar o acesso.

— Sem guia, sala pronta ou versão anterior à minha entrada.

Amália duplicou as fotografias e enviou ao editor somente um quadro parcial. O adiamento deixava a cidade exposta. Por isso, ela espalhou prova suficiente para sobreviver à próxima porta.

O quadro parcial mostrava o encaixe e a inscrição, sem rosto, nome da fonte ou localização da sala. O editor confirmou recebimento por código combinado.

No verso do mapa, escreveu os quatro nomes da mesma curva: Rua Baixa do Cais, Torres de Baixo, Avenida Nascente Quatro e o traço incompleto de Gilberto. A miniatura não provava sozinha quem vivera ali. Provava que a equipe de abertura conhecia o lugar antigo enquanto vendia sua invenção.

Ela guardou a maquete com Jana e apontou para o corredor.

— Arquivo de obra. Agora.

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