Turi Solariana: Amazônica · Capítulo 5 de 44
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Turi

O corredor autorizado acendia uma linha dourada diante dos passos de Amália e a apagava atrás dela. Sensores ocupavam placas de metal encaixadas na pedra antiga. Solariana escondia máquinas dentro de coisas bonitas.

Caetano caminhava três passos adiante. Quando Amália tentou fotografar uma placa, a câmera recusou o foco.

— Se falhar sempre no mesmo lugar, vira dado — ela disse.

Uma criatura escura se moveu no punho dele. Corpo pequeno, pele úmida, duas antenas tocando a veia.

— Nome?

— Turi.

— Linha Aramã?

O rosto de Caetano perdeu a ordem durante um instante.

— Aramã gosta de controle.

— Isso foi confissão?

— Informação que a senhora descobriria.

Turi não estava preso. Escolhia permanecer.

O corredor terminou num jardim interno. Canais estreitos passavam entre vasos de pedra e viveiros de vidro. Flores minúsculas sustentavam gotas inteiras sem derramá-las.

O ar tinha cheiro de terra molhada e metal limpo. Placas técnicas ocupavam os nichos: número de linhagem, Casa responsável, função pública. Nenhuma indicava idade. Algumas raízes atravessavam os vasos por rachaduras antigas e entravam na pedra do piso, detalhe difícil de conciliar com o discurso de laboratório recente.

Amália leu três placas inteiras. Um Casquinha mantinha canais de escoamento. Uma Folha-Mansa participava de avaliação ambiental. Dois Grãos Claros estavam vinculados a protocolos de mesa. As funções vinham antes das necessidades. Alimentação, descanso, tempo de vida e sinais de desconforto não apareciam.

No viveiro mais baixo, uma criatura de casco transparente tentava alcançar a parte sombreada enquanto uma lâmpada de demonstração seguia acesa. Marta desligou a luz sem consultar o roteiro. O animal se acomodou sob uma folha.

— A visita previa mais cinco minutos de atividade — disse um homem de jaleco claro.

— Ele encerrou antes — respondeu Marta.

Amália anotou o gesto. A primeira informação útil do jardim vinha do direito de um corpo pequeno interromper uma apresentação.

Marta Benvira recebeu os visitantes. Não tinha a delicadeza calculada de Doural.

— As espécies daqui participam de programas de companhia, alerta ambiental e adaptação — explicou. — Nenhuma deve ser tocada ou levada.

— São propriedades? — perguntou o advogado.

Marta fechou o tablet.

— São companheiros.

Marta mostrou um viveiro onde criaturas achatadas limpavam minerais de folhas largas. Em outro, seres de casco translúcido reagiam à alteração da água. Não falava em produto, rendimento ou propriedade intelectual. Nilo Verdan, parado perto de uma bancada, corrigia cada vez que ela usava a palavra escolha.

— Resposta condicionada — disse ele.

— Escolha — repetiu Marta.

O desacordo era antigo. Nenhum dos dois precisou levantar a voz.

O empresário de linho estendeu um dedo para Turi. O animal recuou para dentro da manga de Caetano.

— Ele não faz demonstração — disse Caetano.

Turi reapareceu sobre o dorso da mão dele. As antenas se voltaram para Amália.

O empresário tentou rir.

— Ele reconhece anfitrião?

— Reconhece quem deseja reconhecer — respondeu Marta.

— Isso não é útil para um programa de companhia.

— Utilidade não é o centro de toda vida.

Nilo anotou alguma coisa no tablet. Marta viu e não retirou a frase.

O advogado apontou para o registro do viveiro.

— Se não são propriedade, quem responde quando causam dano?

— A Casa que restringiu o ambiente, a pessoa que ignorou orientação e a equipe responsável pela saúde — respondeu Marta. — A criatura entra no registro sem receber culpa automática.

— E quando ela escolhe uma pessoa?

— Aproximação não transfere guarda.

Caetano observou Turi no próprio punho. A resposta de Marta possuía endereço.

— Não — Caetano falou baixo.

— Isso foi para mim?

— Para Turi.

— Ele obedece?

— Quando concorda.

O companheiro desceu até a bancada e avançou na direção dela. Amália abriu a mão e ficou imóvel.

— Se quiser que recue, vire a palma — orientou Caetano.

— E se eu ficar?

— Não feche os dedos.

Turi tocou primeiro a sombra da mão. Depois subiu.

Era leve, frio no primeiro contato e morno segundos depois. Caminhou até o centro da palma e baixou as antenas.

Caetano perdeu o rosto público. A mão dele avançou e parou no ar.

O jardim inteiro reagiu ao movimento. Uma luz de viveiro apagou. O Grão Claro preso à ficha do advogado deixou de se mover. Marta aproximou o tablet do peito. Até o empresário entendeu que a cena não pertencia à visita preparada para ele.

— Isso acontece? — perguntou Amália.

Marta respondeu cedo demais:

— Com visitantes, não.

— Ele é seu? — perguntou Amália.

— Vive comigo.

Turi virou a cabeça para Caetano sem sair da mão dela.

Marta abriu uma tela de registro.

— Preciso encaminhar a ocorrência.

— Escreva aproximação voluntária — determinou Caetano.

— Ele dormiu — disse Marta.

Turi enrolou o corpo na curva da palma de Amália.

Caetano fechou os olhos por um segundo.

— Então ficou mais perigoso — disse.

— Para mim?

— Para a versão que a cidade prefere contar.

Um técnico Benvira aproximou um sensor sem tocar no companheiro.

Antes de ligar o aparelho, Marta se dirigiu a Amália:

— Posso medir temperatura e ritmo respiratório a esta distância?

— Sem retirar Turi.

— Sem contato.

Marta aguardou a resposta. Amália autorizou. O sensor passou acima da palma e registrou duas linhas separadas: calor humano e calor do companheiro. Nilo tentou unir os resultados num campo chamado vínculo. Marta abriu duas ocorrências.

— Um corpo não vira dado do outro — disse.

— Sono estável. Vínculo de aceite em observação.

— Aproximação — corrigiu Caetano.

Amália olhou para ele.

— Você editou o registro.

— Impedi que o registro escolhesse por vocês.

— Vocês?

— Você e Turi.

— E você?

— Perdi essa parte quando ele subiu na sua mão.

— Quer que eu o devolva?

— Quero que ele possa voltar.

— Não é a mesma coisa.

— Não.

Amália manteve os dedos abertos. A vontade de acariciar Turi veio simples e doméstica. Conteve o gesto. Se o companheiro tinha feito uma escolha, ela não a transformaria em posse no mesmo minuto.

Caetano acompanhou essa recusa. A tensão na mão vazia dele diminuiu.

Depois de alguns minutos, Turi acordou e percorreu os dedos de Amália. Desceu para o banco, bebeu água acumulada numa concavidade da pedra e seguiu até um vaso baixo. Ninguém o chamou. Caetano abriu a mão uma vez; Turi continuou junto ao canal.

Amália sentiu a perda de peso antes de reconhecer o alívio. O companheiro podia aproximar-se, dormir, partir e voltar sem que cada movimento confirmasse uma relação. Ela fotografou apenas a marca úmida deixada no banco, não o corpo dele.

Turi retornou pela borda do canal e parou entre as duas mãos disponíveis. Tocou primeiro o ar perto de Caetano. Depois subiu na alça da mochila de Amália, acomodou-se e voltou a dormir.

Marta registrou as três etapas: repouso, afastamento, nova aproximação. Nenhuma recebeu o nome de escolha definitiva.

O advogado levantou o telefone.

— Posso documentar?

— Não — disseram Amália e Caetano ao mesmo tempo.

Marta pediu que permanecessem no jardim até Turi acordar. Caetano ficou junto ao canal, longe o bastante para não exigir o retorno do companheiro.

— Por que ele me escolheu?

— Não sei.

— Você tem uma hipótese.

— Tenho medo de ter.

— Isso não combina com o porta-voz perfeito.

— Turi não trabalha para o porta-voz.

O animal abriu uma antena e tocou a pele de Amália.

— Tudo aqui registra — ela disse.

— Quase tudo.

— O que fica de fora?

— Aquilo que alguém protege antes de virar regra.

— Quem protegeu Turi até hoje?

— Marta protege a saúde. Benvira protege o registro biológico. Aramã alega proteger o vínculo.

— E você?

— Tento protegê-lo de Aramã quando a Casa confunde vínculo com guarda.

Marta desviou os olhos. A resposta ultrapassara a parte autorizada da orientação.

Vozes começaram atrás da porta de plantas. Solariana já transformava a escolha de Turi em documento.

Caetano usou o nome dela sem título:

— Amália, não conte aos outros visitantes.

— Por quê?

— Alguns tentariam comprar o que aconteceu. Valcárcel chamaria de interferência. Doural recomendaria repouso. Aramã exigiria guarda.

— E você?

— Pediria que Turi voltasse.

— Se ele recusasse?

Caetano abriu a mão vazia.

— Eu teria de aceitar.

O técnico fechou o estojo. No tablet de Marta, uma notificação vermelha apareceu e desapareceu sob a mão dela.

— Valcárcel solicitou cópia imediata — disse.

— Envie temperatura e estabilidade — determinou Caetano. — Retenha interpretação.

— Vão chamar isso de omissão.

— Chame de prazo de observação.

Amália reconheceu o mecanismo: mudavam palavras para disputar quem seria dono do fato. A diferença era que, naquela vez, a demora preservava uma escolha em vez de escondê-la.

Turi continuou dormindo.

Amália guardou o celular. Turi dormia na alça depois de recusar a mão de Caetano, e a ficha Benvira ligava a aproximação ao histórico familiar dela.

Caetano permaneceu diante do banco, com a mão vazia.

Amália anotou o número do registro.

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