Uma lágrima Cantos à beira-mar · Capítulo 1 de 55
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Uma lágrima

Sobre o sepulcro de

minha carinhosa mãe.

E eu vivo ainda!? Nem

sei como vivo!...

Gasto de dor o coração

me anseia:

Sonho venturas de um

melhor porvir,

Onde da morte só pavor

campeia.

Lá meus anseios sob a

lousa humilde

Dormem seu sono de

silêncio eterno!

Mudos à dor, que me

consome, e gasta.

Frios ao extremo de meu

peito terno.

Ah! Despertá-los quem

pudera? Quem?

Ah! campa... ah, campa!

Que horror, meu Deus!

Por que tão breve — minha

mãe querida,

— Roubaste, oh morte,

destes braços meus?!!...

Oh! não sabias que ela

era a harpa

Em cujas cordas eu

cantava amores,

Que era ela a imagem do

meu Deus na terra,

Vaso de incenso

trescalando odores?!

Que era ela a vida, os

horizontes lindos,

Farol noturno a me guiar

p’ra os céus;

Bálsamo santo a

serenar-me as dores,

Graça melíflua, que vem

de Deus!

Que ela era a essência

que se erguia branda

Fina, e mimosa de uma

relva em flor!

Que era o alaúde do bom

rei — profeta,

Cantando salmos de

saudade, e dor!

Que era ela o encanto de

meus tristes dias,

Era o conforto na

aflição, na dor!

Que era ela a amiga, que

velou-me a infância,

Que foi a guia desta

vida em flor!

Que era o afeto, que

eduquei cuidosa

Dentro do peito... que

era a flor

Grata, mimosa a derramar

perfumes,

Nos meus jardins de

poesia, e amor!

Que era ela a harpa de

doçura santa

Em que eu cantava

divinal canção...

Era-me a ideia de Jeová

na terra,

Era-me a vida que eu

amava então!

Oh! minha mãe que

idolatrei na terra,

Que amei na vida como se

ama a Deus!

Hoje, entre os vivos te

procuro — embalde!

Que a campa pesa sobre

os restos teus!...

Como se apura moribunda

chama

À hora extrema da

existência sua:

Assim minha alma se

apurou de afetos,

Gemeu de angústias pela

angústia tua.

E não puderam minha dor,

meu pranto,

Pranto sentido que

jamais chorei,

Oh! não puderam te

sustar a vida,

Que entre delírios para

ti sonhei!...

E como a flor pelo rufão colhida

Vergada a haste, a se

esfolhar no chão,

Eu vi fugir-lhe o

derradeiro alento!

Oh! sim, eu vi... e não

morri então!

Entanto amava-a, como se

ama a vida,

E a minha eu dera para

remir a sua...

Oh! Deus — por que o

sacrifício oferto,

Não aceitou a

onipotência tua!?!...

Vacila a mente nessa

acerba hora

Entre a fé, e a

descrença...oh! sim meu Deus!

Estua o peito, verga

aflita a alma:

Tu me compreendes, tu

nos vês dos céus.

Vacila, treme... mas na

própria mágoa

Tu nos envias o chorar,

Senhor;

Bendito sejas! que esse

pranto acerbo,

É doce orvalho, que nos

unge a dor.

Lá onde os anjos

circundam, dá-lhe

Vida perene de imortal

candura:

Por cada gota de meu

triste pranto,

Dá-lhe de gozos divinal

ventura.

E à triste filha, que

saudosa geme,

Manda mais dores, mais

pesada cruz;

Depois, reúne à sua mãe

querida,

No seio imenso de

infinita luz.

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