Desilusão Cantos à beira-mar · Capítulo 50 de 55
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Desilusão

É sempre assim a vida, —

mero engano:

Após o riso, lágrimas, e

dor,

Pungentes amarguras...

Um querer que renasce

louco, insano

E quebra-se no nada, sem

fragor,

Como sombras em ermas

sepulturas.

Assim compensa o mundo o

amor mais terno,

O doce sentimento de

afeição,

O mais fino sentir...

Embora! o amor não é um

gozo eterno,

Abrasa o peito, a alma é

um vulcão,

Pode tudo n’um’hora consumir.

Pode de cinza, e larvas

enastrar

O peito já cansado, — e

após a neve

Sobre ele chover:

Depois — da vida a tarde — o encontrar

Em apático existir já

morta a seve,

O gérmen, a esperança,

ou o querer.

Mas, seja fogo, ou gelo

a recompensa

Do amor: — esse extremo

não destrói

Outro mimo, outro afeto.

Malgrado tanto azar,

mesmo descrença,

Inda resta a amizade — a

quanto dói

Consolo, refrigério,

asilo certo.

Assim sonhei eu triste!

em meu cismar,

Depois que o amor, que

amei roubou-me a morte,

E em vão carpi!

Engano! Quem desfez o

meu sonhar?

Fatal desilusão!...

mesquinha sorte!

Como o amor também fugir

a vi...

Tudo... tudo esvaiu-se,

amor que amei;

Afetos melindrosos como

a flor,

Que nasce entre a geada:

Extremos tão ignotos que

eu sonhei,

Singelas afeições,

mimoso amor.

Tudo varreu-me a

tempestade irada.

Agora ao mundo presa na

aparência,

Sôfrega sorvendo o cálix

do prazer.

Só nele encontro fel!...

Da dor calou-me o peito

a acre essência,

Resumo inexplicável do

sofrer!

O mundo me acenou, — chamou-lhe

— mel.

Escárnio! Quanto dói

demais na vida.

De amor o esquecimento —

da amizade

A fria recompensa.

Tudo hei provado na

afanosa lida,

De uma louca, e cansada

ansiedade –

Delírio, sonho, engano —

árdua sentença!

Sem amor, sem amigos,

sem porvir.

Sem esperanças, ou

gozos: — sem sequer

Quem sinta a minha

dor...

Só no mundo — só...

triste existir!

Que me resta, meu Deus! —

que resta a ver,

Se tudo hei visto neste

longo error!!!...

Basta! basta minh’alma

... o teu sofrer

Infindo — o teu prazer

sem esperança.

Foi só o teu condão!...

Vai como a roda em

solidão gemer:

Da tempestade após vem a

bonança

Terás na campa a paz do

coração.

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