Desilusão
É sempre assim a vida, —
mero engano:
Após o riso, lágrimas, e
dor,
Pungentes amarguras...
Um querer que renasce
louco, insano
E quebra-se no nada, sem
fragor,
Como sombras em ermas
sepulturas.
Assim compensa o mundo o
amor mais terno,
O doce sentimento de
afeição,
O mais fino sentir...
Embora! o amor não é um
gozo eterno,
Abrasa o peito, a alma é
um vulcão,
Pode tudo n’um’hora consumir.
Pode de cinza, e larvas
enastrar
O peito já cansado, — e
após a neve
Sobre ele chover:
Depois — da vida a tarde — o encontrar
Em apático existir já
morta a seve,
O gérmen, a esperança,
ou o querer.
Mas, seja fogo, ou gelo
a recompensa
Do amor: — esse extremo
não destrói
Outro mimo, outro afeto.
Malgrado tanto azar,
mesmo descrença,
Inda resta a amizade — a
quanto dói
Consolo, refrigério,
asilo certo.
Assim sonhei eu triste!
em meu cismar,
Depois que o amor, que
amei roubou-me a morte,
E em vão carpi!
Engano! Quem desfez o
meu sonhar?
Fatal desilusão!...
mesquinha sorte!
Como o amor também fugir
a vi...
Tudo... tudo esvaiu-se,
amor que amei;
Afetos melindrosos como
a flor,
Que nasce entre a geada:
Extremos tão ignotos que
eu sonhei,
Singelas afeições,
mimoso amor.
Tudo varreu-me a
tempestade irada.
Agora ao mundo presa na
aparência,
Sôfrega sorvendo o cálix
do prazer.
Só nele encontro fel!...
Da dor calou-me o peito
a acre essência,
Resumo inexplicável do
sofrer!
O mundo me acenou, — chamou-lhe
— mel.
Escárnio! Quanto dói
demais na vida.
De amor o esquecimento —
da amizade
A fria recompensa.
Tudo hei provado na
afanosa lida,
De uma louca, e cansada
ansiedade –
Delírio, sonho, engano —
árdua sentença!
Sem amor, sem amigos,
sem porvir.
Sem esperanças, ou
gozos: — sem sequer
Quem sinta a minha
dor...
Só no mundo — só...
triste existir!
Que me resta, meu Deus! —
que resta a ver,
Se tudo hei visto neste
longo error!!!...
Basta! basta minh’alma
... o teu sofrer
Infindo — o teu prazer
sem esperança.
Foi só o teu condão!...
Vai como a roda em
solidão gemer:
Da tempestade após vem a
bonança
Terás na campa a paz do
coração.