À minha extremosa amiga
D. Anna Francisca Cordeiro
Donzela, tu suspiras — esse
pranto,
Que vem do coração
banhar teu rosto,
Esse gemer de lânguido
penar,
Revela amarga dor — imo
desgosto:
Amiga... acaso cismas ao
luar,
Terno segredo de ignoto
amor?!...
Soltas madeixas
desprendidas voam
Por sobre os ombros de
nevada alvura;
Tua fronte pálida os
pesares c’roam
Como auréola de
martírio... pura,
Cândida virgem... que
abandono o teu?
Sonhas acaso com o viver
do céu!
Sentes saudades da
morada d’anjos,
D’onde emanaste?
enlanguesces, gemes?
É nostalgia o teu
sofrer? de arcanjos
Perder o afeto que te
votam — temes?
Ou temes, virgem — de
perder na terra,
Toda a pureza que tu’alma encerra!?...
Não, minha amiga — que a
pureza tua
Jamais o mundo poderá
manchar:
Límpida vaga a
melindrosa lua,
Vencendo a nuvem, que se
esvai no ar,
E mais amena, mais gentil,
e grata
Despede às águas
refulgir de prata.
Que cismas pois? por que
suspiras, virgem?
Por que divagas
solitária, e triste?
Delira a flor — e na
voraz vertigem
D’um louco afeto, té morrer persiste...
Pálida flor! o teu
perfume exalas
Nesses suspiros, que
equivalem falas.
Cismas à noite... que
cismar o teu?
Sonhas acaso misterioso
amor?
Vês nos teus sonhos o
que encerra o céu?
Aspiras d’anjos o
fragrante olor!?
Porque, não creio que a
esta terra impura
Prendas tua alma,
divinal feitura.
Não. É resumo dos afetos
santos
Que além se gozam — que
uma vez somente
À terra descem,
semelhando prantos.
Que chora a aurora sobre
a flor olente:
Meigos, sem mancha,
vaporosos, ledos,
Puros, — de arcanjos
divinais segredos.
Sentes saudades da
morada d’anjos!
Sentes saudade do viver
dos céus?
Ouves os carmes de
gentis arcanjos!
Soluças n’harpa teu
louvor a Deus!?...
Anjo! descanta sobre a
terra ímpia
Místicas notas de
eternal poesia.