Visão Cantos à beira-mar · Capítulo 29 de 55
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Visão

Ouvi piar o mocho — era

alta noite,

Eu tinha o peito de

aflição eivado...

A dor coou tão funda,

que minh’alma

Em modorra de angústia

acalentou-se.

Quanto tempo durou esse

marasmo,

Esse estado penível,

doloroso,

Sono imerso na dor, que

enerva, e mata,

Em que o quisesse, não

sei bem dizê-lo.

Fugiam horas e eu sequer

não tinha

Da própria vida o

sentimento, as dores.

O sinistro piar de

aflito mocho

Mais lúgubre que

outrora, mais agudo,

Quebrando as solidões

adormecidas,

No repouso feliz da

natureza,

Como que um eco de meus

ais doridos,

Minh’alma afigurou — eu,

despertando.

Então incerta, sem

destino ou guia

Por densas selvas eu

vaguei, — e inda

Por entre bosques

merencórios, ermos

Onde uma sombra era

fantasma horrendo,

Um espectro medonho o

verde arbusto.

Sob meus pés as

dessecadas folhas

Rangiam, — como de

aflição gemidos.

A dor me sufocava, era

mais ima,

Mais funda no meu peito,

ali no bosque.

Saí. Era uma senda

escura, e feia,

Pedregosa, — caí, rojei

na terra

Estéril, poeirenta,

seca, e dura,

Como um penhasco...

lacerou-me a fronte.

E eu não senti — que me

amargava intenso

O fel do sofrimento

agudo, e fero.

E o pó, que ergueram as

deslocadas pedras,

Minhas espáduas

recamou Oh! quanta

Desesperança — no meu

peito — havia!...

Era de angústias um

letal veneno

No peito a me ondular — era

nas veias

O gelo do sepulcro a

traspassá-las,

Coando até a medula dos

ossos!...

Era a garganta

constrangida, ardente,

Árida, e seca, — e

sufocada a boca.

Quanto tempo durou inda

esta angustia

Suprema, — que meu ser

aniquilava.

Este aflito penar, este

delírio,

Este estado de dor tão

violenta.

Não o posso dizer.

Crescia a noite,

E mais carpia ainda o

mocho triste...

Então voltou-me um átomo

de vida,

Porque senti volúpia

amarga, — enlevo

No sinistro gemer da ave

noturna:

Porque o som de sua voz

com o meu gemido,

Com a voz de minh’alma —

harmonizava.

Gemi — foi um gemido

doloroso,

Surdo, sem eco, soluçado

apenas,

Que as fibras todas do

cansado peito

Quebrou no seu passar.

Abri os olhos

Ao ímpeto da dor, que se

aumentava;

Um rochedo a meus pés se

erguia mudo.

Altivo, e forte

sobranceiro aos mares.

Galguei-o, ora correndo

desvairada,

Ora, com passo vagaroso,

e trépido,

Ora rojando minha face

em terra.

Selando as pedras com

meu rubro sangue,

Galguei-o. Era um penedo

árido, e triste,

Nem uma erva lhe bordava

a encosta.

Como nas faldas, era

ermo o pico.

Copioso suor me

aljofarava.

A turva fronte, — e os

cabelos soltos

Ao vento, — me vendavam

os olhos baços.

Exausta de cansaço, e de

amargura,

Ao cume do rochedo enfim

fui posta.

Oh! mistérios de um Deus

eterno, e santo!

Ali, por tantas mágoas

comprimido

Meu coração já frio,

enregelado,

Sem fé, sem crenças, sem

alento, ou vida

Mórbido, lânguido, — reviveu...

mistério!

A meus pés era o mar

augusto, imenso

Simbolizando o Deus da

natureza...

Sobre a minha cabeça

distendia-se

O espaço infinito, — o

firmamento!

Nem uma estrela ali

brilhava a furto:

Porque as nuvens escuras

se embatiam,

A chuva ameaçando. Ao

lume d’água,

Salsa, pesada de mil

pontos surgem

Luminosos faróis, que

logo apagam.

Roneavam os aquilões,

soprava o vento

Rijo — encrespando a

superfície d’agua.

Que se agitava com

sinistro aspecto.

Gemia a tempestade

pavorosa

Tão poética, e grande! A

chuva era

Como pranto de mãe, que

sobre o berço

Vazio do filhinho

esparge aflita.

Em gotas sobre a fonte

me escorria:

Benfazeja foi ela! que

gelou-me

A fronte ardente,

requeimada, e seca...

Amei então a chuva, amei

a onda,

Que irosa, embravecida,

mais crescia,

Bramindo em seu furor, —

ameaçando

O imóvel rochedo. As

salsas gotas

Dessa espuma de neve,

que se erguia.

Salpicando as encostas

pedregosas

Me ungia a fronte, como

um doce beijo,

Expressivo de meiga

complacência.

D’aquele que se dói, da

dor de estranhos.

Ígneos raios sibilando

ardentes,

Com mil fogos sobre o

mar cruzavam:

E o gemer do trovão — gemer

das ondas,

Com o sibilar do vento —

harmonizavam.

Roncava a tempestade — o

mar crescia,

Soberbo o cataclismo se

aumentava.

Contemplando o furor dos

elementos,

A frágoa

de minh’alma se ameigava.

Quanto me vi

mesquinha... um verme apenas

No cume do rochedo,

sobre o mar!

Humilde me curvei: — com

a face em terra,

Minh’alma se exaltou — eu

pude orar.

Os ventos amainaram — a

tempestade

Toda desfez-se — repousou

natura;

O mar nos seus limites

se encerrava,

E hino divinal rompeu na

altura.

Eram cantos celestes — escutei-os,

E do peito emanou-me um

doce pranto;

As lágrimas lavaram as

agras dores,

As crenças restituiu-me

o sacro canto.

Mas ainda assim, como

que agora escuto

A dulia

nota das canções dos céus;

Esvaiu-se a visão... mas

sinto grata,

No peito a graça, que

nos vem de Deus.

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