A dor, que não tem cura
“O que mais dói na vida
não é ver-se
Mal pago um benefício,
Nem ouvir dura voz dos
que nos devem
Agradecidos votos.
Nem ter as mãos mordidas
pelo ingrato
Que as devera beijar.”
G. Dias
De tudo o que mais dói,
de quanto é dor
Que não valem nem
prantos, nem gemidos,
São afetos imensos,
puros, santos
Desprezados — ou mal
compreendidos.
É essa a que mais dói a um’alma nobre.
Que desconhece do
interesse a lei;
Rica de extremos, não
mendiga afetos,
Que é mais altiva que um
potente rei.
É essa a dor, que mais
nos dói na vida;
É essa a dor, que
dilacera a alma:
É essa a dor, que
martiriza, e mata.
Que rouba as crenças, o
sossego, a calma.
Não sei, se todos no
volver dos anos
Sentem-na funda
cruciante, atroz
Como eu a sinto... Oh! é martírio — ou vele,
Ou sonhe, — ou vague
mediante a sós.
Eu vi fugir-me como foge
a vida
Afeto santo de
extremosos pais:
Roubou-mos crua, impiedosa morte,
Sem que a movessem meus
doridos ais.
Vi nos espasmos de
agonia lenta
Morrer aquele, que eu
amei na vida...
Trêmulos lábios
soluçando — adeus!
Ouviu-lhe esta alma de
aflição transida.
Dores são estas, que
renascem vivas
A cada hora — que jamais
esquecem;
Enchem de luto da
existência o livro,
Conosco à campa
silenciosa descem.
Ah! quantas vezes,
recordando-as hoje,
Dos roxos olhos se me
verte o pranto!
Ah! quantas vezes,
dedilhando a lira,
Rebelde o peito, não
soluça um canto...
Mas, se essas dores
despedaçam a alma,
O pranto em baga nos
consola a dor:
Numa outra esfera, num
perene gozo,
Vivem, partilham divinal
amor.
Mas ah! de quanto nos
aflige, e mata
É esta a dor, que mais
nos dói sofrer;
Cobrar frieza em
recompensa a afetos,
No peito amigo
estrebuchar, — morrer!