A dor, que não tem cura Cantos à beira-mar · Capítulo 35 de 55
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A dor, que não tem cura

“O que mais dói na vida

não é ver-se

Mal pago um benefício,

Nem ouvir dura voz dos

que nos devem

Agradecidos votos.

Nem ter as mãos mordidas

pelo ingrato

Que as devera beijar.”

G. Dias

De tudo o que mais dói,

de quanto é dor

Que não valem nem

prantos, nem gemidos,

São afetos imensos,

puros, santos

Desprezados — ou mal

compreendidos.

É essa a que mais dói a um’alma nobre.

Que desconhece do

interesse a lei;

Rica de extremos, não

mendiga afetos,

Que é mais altiva que um

potente rei.

É essa a dor, que mais

nos dói na vida;

É essa a dor, que

dilacera a alma:

É essa a dor, que

martiriza, e mata.

Que rouba as crenças, o

sossego, a calma.

Não sei, se todos no

volver dos anos

Sentem-na funda

cruciante, atroz

Como eu a sinto... Oh! é martírio — ou vele,

Ou sonhe, — ou vague

mediante a sós.

Eu vi fugir-me como foge

a vida

Afeto santo de

extremosos pais:

Roubou-mos crua, impiedosa morte,

Sem que a movessem meus

doridos ais.

Vi nos espasmos de

agonia lenta

Morrer aquele, que eu

amei na vida...

Trêmulos lábios

soluçando — adeus!

Ouviu-lhe esta alma de

aflição transida.

Dores são estas, que

renascem vivas

A cada hora — que jamais

esquecem;

Enchem de luto da

existência o livro,

Conosco à campa

silenciosa descem.

Ah! quantas vezes,

recordando-as hoje,

Dos roxos olhos se me

verte o pranto!

Ah! quantas vezes,

dedilhando a lira,

Rebelde o peito, não

soluça um canto...

Mas, se essas dores

despedaçam a alma,

O pranto em baga nos

consola a dor:

Numa outra esfera, num

perene gozo,

Vivem, partilham divinal

amor.

Mas ah! de quanto nos

aflige, e mata

É esta a dor, que mais

nos dói sofrer;

Cobrar frieza em

recompensa a afetos,

No peito amigo

estrebuchar, — morrer!

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