Embora eu goste Cantos à beira-mar · Capítulo 47 de 55
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Embora eu goste

Embora eu goste de

escutar sozinha,

O mago acento da ternura

tua:

Embora em meus

transportes eu te adore,

Embora sobre mim teu ser

influa;

Embora eu folgue por te

ver risonho,

Cativo ao meu querer, a

mim rendido;

Embora amor te abrase o

peito em sonho,

E meu peito o adivinhe

enternecido;

Embora venha a flor

desses teus lábios,

Essa frase sonhada, e

misteriosa;

Essa palavra mágica, que

enleva

Como perfume de

orvalhada rosa;

Embora em escutá-la eu

despertasse

Deste longo torpor, — desta

apatia;

Embora de meu peito

transbordasse

Em ondas de prazer louca

alegria;

Sepulta-a no mais imo da

tua alma,

Volvê-la à custo embora —

ao coração:

Imponho-te o silencio,

que me imponho,

Embora eu sinta por te

amar — paixão.

Talvez, sim, que

minh’alma te compr’enda;

Talvez que nos estreite

um só querer;

Talvez... mas, ah!

porque rasteira grama

Intentas, louco! de seu

leito erguer!...

Não sabes que isolada

ela vegeta

Deserdada por Deus de

afeto, e amor?

Ah! não lhe toques, — não

lhe dês teu pranto:

Deixa-a isolada,

emurchecer de dor.

A hora em que nasci

sumiu-se o disco

Do sol luzente — e uma

estrela pura

Não fulgiu no lençol

azul do céu,

Amenizando-me a

existência dura:

E avara de gozos foi-me

a infância,

Para os demais idade

venturosa...

A primeira expressão da

minha vida,

Foi do infindo pesar — dor

venenosa.

A custo hei arrastado os

longos dias

De penosa aflição já bem

eivados;

Custei-me a dominar — não

formo queixas

Contra o capricho de

meus agros fados.

Deixa que eu sofra sem

que o saibas tu,

Paixão ardente me ondear

no peito:

E que se exalte o

coração de afetos,

E que se estremeça por

amor sujeito.

Deixa em segredo repetir

minh’alma

Que o meu ouvido não me

escute o acento,

Que és o doce enlevo do

meu peito,

O bem que me absorve — o

pensamento.

Mas nunca intentes

arrancar-me aos lábios

De amor a misteriosa

confissão.

Impossível me fora...

oh! impossível! –

Sem que o saibas é teu —

meu coração.

Posso dar-te a

existência — a vida inteira;

Contigo partilhar

ventura, ou dor;

Mas, nunca a teus

ouvidos murmurara

Com mago acento esta

palavra — amor!

Embora em repeti-la eu

despertasse

Deste longo torpor,

desta apatia;

Embora de meu peito

transbordasse

Em ondas de prazer minha

alegria.

Sepulto-a no mais fundo

de minh’alma,

Volva-a a custo embora —

ao coração;

Imponho-me o silêncio

que te imponho,

Embora sinta por ti

amor, paixão.

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