Hosana!
Dedicada ao Ilmo. Sr.
Dr. Gama Lobo, distinto literato.
Simpatia e gratidão.
Que diz o infante,
Se o rir d’um instante
Se muda inconstante
N’um brando chorar?
Que diz a donzela.
Que cisma, tão bela!
Que sente? que anela?
No seu meditar?
Que dizem as palmeiras,
Danosas, fagueiras,
Se as brisas ligeiras,
Vão nelas gemer?
Que diz a rolinha,
Que à tarde sozinha
Saudosa definha,
Se o par vê morrer?
Que dizem as flores,
Emblema de amores,
De infindos primores,
De infindo gozar?
D’orvalho candente
A gota nitente,
Que a erva inocente
Vem meigo beijar?
Se brame raivoso
O pélago iroso,
Se geme saudoso
Na praia — o que diz?
Que dizem os cantos
De magos encantos,
Que ensaia sem prantos
Mimosa perdiz?
Que diz a vaidosa
Gentil mariposa,
Que o suco da rosa
Fragrante — libou?
A loura abelhinha,
Que diz quando asinha
Beijando a florzinha,
O mel lhe roubou?
Que diz erma fonte?
Que diz o horizonte?
E o cimo do monte,
Que se ergue altaneiro?
A lua indolente,
Que diz meigamente,
Na face virente
De grato ribeiro?
Que diz todo o mundo
N’um voto profundo
Eterno e jucundo
Tão cheio de amor?
Que diz o universo,
O justo, o perverso,
Em júbilo imerso?
Hosana! Senhor!