A mendiga Cantos à beira-mar · Capítulo 30 de 55
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A mendiga

Oferecida ao Ilmo. Sr.

Dr. Henrique Leal como prova de profunda e sincera gratidão.

Como era meiga a

donzela!

Tão puros os lábios

dela,

Tão virgem seu

coração...

Seu sorriso lisonjeiro,

Seu doce olhar tão

fagueiro,

De tão celeste

expressão!

Era ingênua, era

inocente,

Como a flor que

brandamente

De manhã desabrochou;

Que por ser cândida e

pura,

Ter aroma, ter frescura,

Dela — o sol — se

enamorou.

Mas foram graças

ligeiras,

Como promessas

fagueiras,

Que se não realizou ...

Como risonha esperança,

Que vem funesta mudança

Matar o que se esperou.

Agora sumiu-se no

trépido ocaso

Por entre negrumes seu

astro do dia;

Fugiu-lhe dos lábios o

riso tão puro,

Secou-se-lhe a fonte de tanta alegria.

Agora devagar nos campos

sombrios,

Se entranha nos bosques,

procura a solidão...

E pálida a face, e

mórbida a fronte,

No peito lhe ondeia

pungente aflição.

Agora secou-se-lhe a fonte do pranto,

Agora envenena-a

profundo sofrer...

Agora na vida de gozos

tão nua,

À triste só resta da

morte o prazer.

Agora expirou-lhe seu riso inocente:

Seus lábios tão puros

perderam o rubor...

Agora lamenta seu triste

abandono,

Agora em silêncio se

nutre de dor.

Se prantos tivesse que a

dor orvalhasse,

Se um triste gemido

pudesse exalar...

Se ao menos a chaga, que

sangue goteja

Pudesse-lhe a vida

penosa acabar...

Se aos ventos que

passam, se a brisa, se as flores

Pudessem em segredo seu

mal confiar!

Mas, ela receia... que a

todos escuta

Sorriso de escárnio que

a pode matar.

Coitada — perdida! qual

ave sem ninho,

Vagando na terra, qual

concha no mar.

Se doce esperança

procura afanosa,

No extremo da vida só

pode encontrar.

E ela mendiga de

andrajos coberta,

As faces retintas de um

triste palor,

O pão que lhe esmolam de

lágrimas rega,

Subindo-lhe ao rosto do

pejo o rubor.

No peito, que existe tão

puro qual era

Ondeiam-lhe chamas ardentes de amor;

E ela recorda seus dias

de outr’ora,

E sente su’alma partir-se de dor.

É triste, coitada!

ludíbrio da sorte,

Afaga uma ideia — delírio,

loucura!

Revê-lo um momento — revê-lo

um só dia,

Embora mais funda lhe

seja amargura.

É fundo o desejo que

nutre em silêncio,

Que ateia, que acende,

que abrasa a paixão;

Embalde ela invoca dos

céus o auxílio,

Embalde ela almeja

guiar-lhe a razão.

Se prantos tivesse,

coitada, mesquinha,

Que a dor lhe pudesse do

peito abrandar,

Se esse a quem ama, que

cega idolatra

Quisesse suas frágoas, sua dor desterrar...

Mas, triste, — afligida,

ludíbrio da sorte,

Afaga uma ideia... que

longo sofrer!

É vê-lo um momento — provar-lhe

os extremos,

Que na alma lhe cavam

contínuo morrer.

Ah! ele? quem sabe?

talvez se partisse,

Um dia somente viveu-lhe

o amor...

Foi terno, foi breve,

foi vida d’um’hora,

Fugiu como a grata

fragrância da flor.

Mulher, que de teus pais

eras o encanto,

Primor da criação... por

que murchaste?

Essas frases dolosas,

sedutoras,

Por que na flor dos anos

— escutaste?

Não vias que eras flor —

e a mariposa,

Roubava-te o perfume em

beijo impuro?

Não vias que uma nuvem

eclipsava

Teu belo, luminoso,

áureo futuro!?!...

Passa a brisa namorada,

Rouba da rosa o odor,

Ela sentida — definha,

E morre de dissabor.

Assim por linda donzela

Passa o torpe sedutor,

E seus mimos, seus

encantos,

Rouba infame e sem amor.

E ela, em triste

abandono,

Sem consolo ou

esperança,

Chora seu agro destino,

Sem nele sentir

mudança...

E vai chorosa, afligida

À sacra etérea mansão:

Porque só Deus

compreende

Que é puro seu coração.

Mulher, que eras tão

pura como a rosa,

Tão meiga a tua voz — tão

doce o olhar,

Como céu que esmaltou

gentil aurora

Como trépida a fonte a

murmurar.

Por que escutaste de sua

voz o acento,

E palpitou o teu coração

de amor!?!

Porque no teu delírio

d’um momento

Trocaste pelo opróbrio o

teu candor!

Qual Eva no Éden saída

apenas

Das mãos do Criador, — mimosa

e pura,

E logo no pecado

submersa

Eivado o coração pela

amargura.

Agora o que te resta

sobre a terra,

Se aos

teus afetos não compensa amor?

Que de esperanças — ou

de gozo resta

À bela, e triste

abandonada flor!?!...

Teus pesares, teus ais a

quem comove?

Quem sente o pranto teu —

de coração?

Quem nos seios da alma

te lamenta?

Quem ouve o teu soluço

de aflição!?

Tu eras tão bela!

mudou-se o teu fado!

Só dor, e remorsos

torturam-te a alma.

Ai! mísera, triste de

andrajos coberta,

Divagas sem tino no

frio, e na calma.

E ele esquecido de tudo —

é feliz,

Nem lembra a florzinha,

que aos pés maltratou!

Entanto ela o segue....

ventura ou acaso...

Um dia seus olhos nos

dele fixou.

E ele volveu-lhe sorriso

de escárnio,

E ela uma queixa sentida

murmura,

Tão débil, tão fraca,

com tal desalento,

Que bem revelava

profunda amargura:

— Apenas a sombra já vês

do que fui...

Ah! não te comoves?

coitada! ela diz.

— Que extremos por

ver-te... que extremos de amores!

E tu me repeles? Cruel!

que te fiz?

E ele tornou-lhe: —

Mendigas sem pejo?

Que vício tão torpe! não

tenho o que dar.

Mulher! o desprezo do

mundo é partilha,

Que deve caber-te, que

deves cobrar.

De novo a voz se ouviu, —

era tão débil,

Que semelhara doloroso

anseio...

Mas era entre os soluços

proferido,

Um nome que a pesar aos

lábios veio.

— Cruel! por que te amei

com tanto extremo,

Por quê? Perdão, meu

Deus! eu fui tão louca!

Rendi meu coração aos

teus afetos,

Infame me tornei, criei

remorsos...

Ouvi meu pai

amaldiçoar-me... ouvindo

Os sarcasmos do mundo; —

e apesar d’isso

Por amar-te eu sonhava

uma esperança!...

Vaguei mendiga, sofrendo

dores,

Fiel ao sentimento de

minh’alma,

Amando-te inda mais que

te amava,

Com mais ardor, com mais

paixão imersa:

E teu desprezo, que mais

dói que a morte,

E todo o prêmio que

cobrar devia!?!...

Homem cruel! acaso tens

no peito,

Alma de tigre?...

coração de gelo?!...

— Mulher!

Tudo acabou! Foi dura a

prova.

Amor, venturas,

esperanças loucas

Tudo a sorte desfez...

Ela calou-se.

— Vai-te, mendiga, disse

— e o lábio impuro

Um sorriso formou de

agro desprezo.

E foi-se. O coração era

de mármore

Ela de pejo e dor

estremeceu:

O peito lhe ofegou

dorido arfando,

Nem um suspiro lhe

escapou — morreu!

O

volúvel

Vagueia o teu coração

Sem pesar, sem aflição,

Como a sutil viração,

Ou como as ondas do mar;

Com o leque dos

Palmares,

Como um átomo nos ares,

Como Infante em seu

folgares,

Como a virgem em seu

cismar.

Como a leda mariposa,

Que sobre a florzinha

pousa,

E que de louca e vaidosa

Não se prende a seus

amores;

Ou como nuvem ligeira,

Quando a aurora vem

fagueira,

Que se desfaz

lisonjeira,

Em tênues, ledos

vapores.

Ou como areia agitada,

Fria, sutil, prateada,

Que se ergue alevantada,

Ao sopro da viração;

Que volúvel, — incessante,

Vai deste, àquele lugar;

Sem jamais poder parar,

Da praia — na vastidão.

Mas, um dia, sem

pensares,

Da sorte tristes azares,

Talvez te tragam

pesares,

Talvez te causem

aflição,

Que na vida um só

tormento,

Um dolorido sofrimento

Nos afixa o pensamento,

Nos magoa o coração.

Então, nem a mariposa,

Que liba o suco da rosa,

E depois, já descuidosa,

Vai outra flor ameigar;

Nem à palma melindrosa,

Nem à nuvem vaporosa,

Nem à areia tão mimosa,

Poderás te assemelhar.

Porque então já não

vagueia

Teu pensamento — e

anseia

Teu peito, que a dor

mareia,

Tu’alma que sofre tanto...

Adeja, adeja por ora.

Sê borboleta uma hora,

Beija mil flores agora,

Que depois só resta o

pranto.

Há — de amargar-te a

existência,

Na penosa inclemência,

De vã sonhada inocência,

Que em vão almejas

gozar;

Terás remorso pesado,

Desse teu viver passado,

Tão mimoso, e

descuidado,

Como de infante o

folgar.

Já não serás mariposa,

Que liba o suco da rosa;

Nem a brisa perfumosa

Entre as flores a

brincar;

Nem a palma requebrada,

Nem a nuvem prateada;

Porque a vida passada,

Poderás jamais gozar.

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