O volúvel Cantos à beira-mar · Capítulo 31 de 55
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O volúvel

Dedicada ao meu prezado

tio — o Sr. Martiniano José dos Reis.

Tributo de amizade.

Lá, no marco da estrada

solitária,

Que o silêncio não

quebra a voz humana;

O mísero, infeliz, com

Deus sozinho,

A braços com seu fado

endurecido,

Implacável, mortífero — chorando,

Geme ferido de aflitiva

angústia...

Goteja-lhe das chagas incuráveis

O sangue, a vida, que

correr nem sente;

Porque lá no mais fundo

de sua alma,

Lá nas dobras do peito

amargurado,

Doloroso pungir de mil

desditas,

De duras privações, de

longas dores

O mesquinho existir lhe

vão minando...

Agudo espinho de cruenta

angústia

Penetra-lhe incessante o

peito opresso,

Por contínuo sofrer — ulcera

todo!...

Mas, a dor que seus

membros enregela,

A dor, que não tem

prantos que a mitiguem,

A dor, que funda rasga-lhe as entranhas,

E cava o seu sepulcro...

a dor mas agra,

Que ao mísero consome em

seu desterro,

Não é ainda assim

físicos males,

Úlceras, que destroem...

é dor mais lenta,

Mais cruciante — a de

viver sozinho,

De todos desprezado...

arbusto triste,

Que em terra pedregosa

habita ermo.

Enquanto humilde choça

além descerra

As portas — devassando o

seio limpo

De móveis, de riqueza — de

uma cama,

D’um ente, a quem o

triste se socorra;

Ele! a

fronte apoiada sobre um tronco

Anoso, e carcomido, já

sem ramas,

Que possa generoso amiga

sombra

Sobre teus membros

difundir um’ora.

Cruzadas sobre o peito

as mãos rugosas,

Sobre o peito dorido...

aí o dia,

A noite, o pôr do sol, —

a tempestade,

Do raio o sibilar, luzir

dos astros,

Luz, cerração, ou calma,

ou ventania,

Orvalho matinal, frio

noturno,

Encontram-no, atalaia

imóvel, muda,

Fundida no sofrer de

amargas dores!...

Que lhe resta na terra?

amargo pranto!

No extremo do sofrer

mesquinha cova

Sumida, e triste na

espessura agreste!

Ainda assim exígua, sem

letreiro,

Cavada pela mão da

caridade;

Sem cruz, sem lousa, que

recorde um dia,

Com mágoa — ao viajor — que

aí se escondem

Os despojos mortais d’um

desgraçado...

E só sobre essa campa

solitária

Virão da mata as

dessecadas folhas

Rolando enovelar-se — e

o vento rijo

Sacudi-las iroso...

Porque um pranto

De coração, que o ame

enternecido,

Nascido da saudade — não

viria

Rorejar-lhe na campa o corpo inerte!...

Família! esposa, irmãos

e filhos caros,

Que amava com ternura — último

elo

Da cadeia de amor, que o

prende à vida,

Longe deslizam seus

formosos dias.

Coitado! lá no ermo de

sua vida,

Eivada de amargura — ele

cogita

Os meios de revê-los...

mas — suspende

Esse louco desejo. E

desvairado,

Errante, sem descanso

almeja o dia

Fatal, e derradeiro! É

triste vê-lo,

Medonho espectro

gotejando sangue!...

Mais tarde fatigado,

esmorecido,

Receando — infeliz! dar

desagrado

Com a terrível presença

aos que o esmolam;

Vai com lânguido passo,

os olhos baixos,

Escondido no monte

escuro, e negro

Que a noite desdobrou

por sobre a terra;

Vai mísero, abatido, e

titubeante

Ao casal mais vizinho — o

pão amargo

Pedido entre soluços — recebendo!

E logo volve à desolada

estrada,

Ao tronco anoso se

reclina — e morre!...

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