Súplica Cantos à beira-mar · Capítulo 5 de 55
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Súplica

Dá, Senhor, que breve

passe

Sobre a terra — o meu

viver;

Bem vês, a flor

desfalece

Da tarde no esmorecer;

Entretanto a flor é

bela,

É bela de enlouquecer.

Mas eu triste, — eu que

na vida

Só hei provado amargura,

Que o sonho de um doce

gozo

Não permite a

desventura,

P’ra que amar a

existência

Árdua, mesquinha e tão

dura?!...

P’ra que viver, se esta

vida

É martírio eterno, e

lento?

E frágoa

a existência,

É século cada momento:

P’ra que a vida, Senhor,

Se a vida vale um

tormento!!!....

Dá, Senhor meu Deus, que

breve

Se me antolhe a

sepultura:

Que vale a vida seus

gozos,

Que vale sonhar ventura,

E trago, a trago

esgotar,

Fundo cálice de

amargura!

Que importa a mim, se no

bosque,

Canta a mimosa perdiz?

Seu canto tão repassado

De amores, — o que é que

diz?

Assim da brisa o

segredo,

Da flor o grato

matiz!...

A onda, que molemente

Na erma praia passeia,

Sente deleite beijando

A branca, mimosa areia,

A onda goza... e eu

triste!

Nada me apraz, me

recreia.

O vate pulsando a lira,

Embora banhada em

pranto,

Sente ungir-lhe o peito aflito

Bálsamo, puro, e bem

santo,

Se ele inspirado desfere

Seu dulio,

mimoso canto.

Mas, eu não — não tenho

amores,

Não me anima uma ilusão;

Meu sonhar é vago

anseio,

Que mais me dobra a

aflição;

Sinto gelado meu peito,

Sinto morto o coração.

Morto... morto, nem

palpita,

Que funda dor o matou!

Que foram desses anelos,

Dos sonhos que o

embalou?

Tudo... tudo jaz

desfeito...

Tudo, meu Deus...

acabou!

Dá, Senhor, que breve

passe

Sobre a terra o meu

viver!

É sacrifício perene

Tão agros dias sofrer!

Dá que breve sob a lousa

Meu corpo vá se

esconder.

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