Súplica
Dá, Senhor, que breve
passe
Sobre a terra — o meu
viver;
Bem vês, a flor
desfalece
Da tarde no esmorecer;
Entretanto a flor é
bela,
É bela de enlouquecer.
Mas eu triste, — eu que
na vida
Só hei provado amargura,
Que o sonho de um doce
gozo
Não permite a
desventura,
P’ra que amar a
existência
Árdua, mesquinha e tão
dura?!...
P’ra que viver, se esta
vida
É martírio eterno, e
lento?
E frágoa
a existência,
É século cada momento:
P’ra que a vida, Senhor,
Se a vida vale um
tormento!!!....
Dá, Senhor meu Deus, que
breve
Se me antolhe a
sepultura:
Que vale a vida seus
gozos,
Que vale sonhar ventura,
E trago, a trago
esgotar,
Fundo cálice de
amargura!
Que importa a mim, se no
bosque,
Canta a mimosa perdiz?
Seu canto tão repassado
De amores, — o que é que
diz?
Assim da brisa o
segredo,
Da flor o grato
matiz!...
A onda, que molemente
Na erma praia passeia,
Sente deleite beijando
A branca, mimosa areia,
A onda goza... e eu
triste!
Nada me apraz, me
recreia.
O vate pulsando a lira,
Embora banhada em
pranto,
Sente ungir-lhe o peito aflito
Bálsamo, puro, e bem
santo,
Se ele inspirado desfere
Seu dulio,
mimoso canto.
Mas, eu não — não tenho
amores,
Não me anima uma ilusão;
Meu sonhar é vago
anseio,
Que mais me dobra a
aflição;
Sinto gelado meu peito,
Sinto morto o coração.
Morto... morto, nem
palpita,
Que funda dor o matou!
Que foram desses anelos,
Dos sonhos que o
embalou?
Tudo... tudo jaz
desfeito...
Tudo, meu Deus...
acabou!
Dá, Senhor, que breve
passe
Sobre a terra o meu
viver!
É sacrifício perene
Tão agros dias sofrer!
Dá que breve sob a lousa
Meu corpo vá se
esconder.