Nênia
À memória do mavioso e
infeliz poeta Dr. A. G. Dias.
Lamenta, Maranhão, — lamenta,
e chora
O teu mimoso cisne, — imortal
Dias!
Veste teus prados de
lutuoso crepe,
Despe tuas galas,
infeliz Caxias!
Não foi dos vermes seu
cadáver presa,
Não teve campa, não
dormiu na terra!
O mar prestou-lhe
monumento aurífero,
Deu-lhe essas pompas,
que em seu seio encerra.
Mimosas colchas de
nevadas perlas
Lhe adornam o leito de
safira, e ouro...
Os pés lhe enastram de
corais as palmas;
Forma-lhe a campa imorrredor tesouro.
Não morre o gênio! não
morreste, oh!
Dias, Eis-te nas vagas
serenando o mar...
Eis-te no orvalho, que a
manhã chorosa,
Manda, benéfica uma flor
beijar.
Eis-te nas vagas de São
Marcos, — Dias,
Desfeito agora em
melindroso encanto!
Eis-te pendendo dos
mangueiros pátrios,
Como dos olhos d’uma
virgem o pranto.
Eis-te nas tabas, — nos
caldosos rios,
Nas salças
praias, — no volver da brisa,
No grato aroma de
mimosas flores,
Na voz do vento, que o
oceano frisa...
Eis-te, poeta mavioso, e
terno.
Em cada peito, que te
ouviu cantar:
Eis-te na história — perpassando
aos evos.
Poeta, concerta hinos,
Ao som dos hinos
divinos,
Canta excelsos,
peregrinos,
Místicos carmes a Deus.
Com estro divinizado,
Salmo de amor incensado,
Ao Deus Senhor humanado,
Canta, poeta, — nos
céus.
Canta, canta — e as
falanges
Dos anjinhos do Senhor,
Dos seus jardins uma
flor,
Cada qual te irá colher;
E na tua harpa, — poeta,
Na tua harpa sagrada,
A flor no céu educada
Virão depor com prazer.
Dessas harpas
diamantinas
De notas tão peregrinas,
Em que os anjos — as
matinas
Incessante cantam a
Deus.
Fere a corda harmoniosa,
A corda mais sonora,
Desprende a voz maviosa;
Canta, poeta, — nos
céus.
Canta no céu, que na
terra,
Foi teu cantar noite e
dia
Nota de eterna harmonia,
Perfume de olente flor...
Foi teu cantar
melindroso.
Como um sentir
misterioso,
Que passa vago, e mimoso
N’um peito, que cisma
amor.
Foi tua lira fadada,
Foi teu cantar a balada,
Sonorosa, e concertada
Pelos arcanjos de Deus!
Foi hino sacro de amor,
Foi harpa do rei — cantor...
Agora ao teu Criador
Canta, poeta, — nos
céus.