Nênia Cantos à beira-mar · Capítulo 52 de 55
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Nênia

À memória do mavioso e

infeliz poeta Dr. A. G. Dias.

Lamenta, Maranhão, — lamenta,

e chora

O teu mimoso cisne, — imortal

Dias!

Veste teus prados de

lutuoso crepe,

Despe tuas galas,

infeliz Caxias!

Não foi dos vermes seu

cadáver presa,

Não teve campa, não

dormiu na terra!

O mar prestou-lhe

monumento aurífero,

Deu-lhe essas pompas,

que em seu seio encerra.

Mimosas colchas de

nevadas perlas

Lhe adornam o leito de

safira, e ouro...

Os pés lhe enastram de

corais as palmas;

Forma-lhe a campa imorrredor tesouro.

Não morre o gênio! não

morreste, oh!

Dias, Eis-te nas vagas

serenando o mar...

Eis-te no orvalho, que a

manhã chorosa,

Manda, benéfica uma flor

beijar.

Eis-te nas vagas de São

Marcos, — Dias,

Desfeito agora em

melindroso encanto!

Eis-te pendendo dos

mangueiros pátrios,

Como dos olhos d’uma

virgem o pranto.

Eis-te nas tabas, — nos

caldosos rios,

Nas salças

praias, — no volver da brisa,

No grato aroma de

mimosas flores,

Na voz do vento, que o

oceano frisa...

Eis-te, poeta mavioso, e

terno.

Em cada peito, que te

ouviu cantar:

Eis-te na história — perpassando

aos evos.

Poeta, concerta hinos,

Ao som dos hinos

divinos,

Canta excelsos,

peregrinos,

Místicos carmes a Deus.

Com estro divinizado,

Salmo de amor incensado,

Ao Deus Senhor humanado,

Canta, poeta, — nos

céus.

Canta, canta — e as

falanges

Dos anjinhos do Senhor,

Dos seus jardins uma

flor,

Cada qual te irá colher;

E na tua harpa, — poeta,

Na tua harpa sagrada,

A flor no céu educada

Virão depor com prazer.

Dessas harpas

diamantinas

De notas tão peregrinas,

Em que os anjos — as

matinas

Incessante cantam a

Deus.

Fere a corda harmoniosa,

A corda mais sonora,

Desprende a voz maviosa;

Canta, poeta, — nos

céus.

Canta no céu, que na

terra,

Foi teu cantar noite e

dia

Nota de eterna harmonia,

Perfume de olente flor...

Foi teu cantar

melindroso.

Como um sentir

misterioso,

Que passa vago, e mimoso

N’um peito, que cisma

amor.

Foi tua lira fadada,

Foi teu cantar a balada,

Sonorosa, e concertada

Pelos arcanjos de Deus!

Foi hino sacro de amor,

Foi harpa do rei — cantor...

Agora ao teu Criador

Canta, poeta, — nos

céus.

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