Não, oh! Não
Por que dizes que
murcharam
Meigas flores de tu’alma?
Crestou-as acaso a
calma,
Desse teu tão santo
amor?
Quanto te iludes — o
afeto
Casto, singelo,
inocente,
Não cresta d’alma, que o
sente
Se um dia as auras
macias,
A doce, nevada flor.
Se um dia as auras
macias,
Perfume meigo de amores,
Bafejarem as ternas
flores
De tua alma — esse amor,
Esse sentir ignoto,
Afeto jamais sabido,
Pelo objeto querido,
Não pôde crestar-te a
flor.
Tu te iludes — estão
intactas
As flores d’alma — não
sentes?
Embora negues — tu
mentes;
Só se extinguiu teu
amor.
Te iludiste — eu o
repito,
As flores inda são
virgens;
Malgrado essas
vertigens,
Revoos de beija-flor.
Nessas flores há
perfumes,
Que embriagam o coração;
Nessa essência há diva
unção.
Mistérios da mão de
Deus;
Vê, se as queres
murchas, tristes,
Se queres mortas as
flores,
Que são perfumes de
amores,
Essência pura dos céus.
Se elas murcham em tu’alma,
Devias — secas, sem cor,
Como uma prenda de amor,
A quem t’as deu ofertar?
Não, as flores murcharam
Murchou a tua afeição;
Não me ilude o coração,
Podes acaso negar?
Mal sabes como em
delírio
Eu amaria essas flores,
Recolhendo seus olores,
Neste triste peito
meu...
Mas, não murchas, não
sem vida,
Sem expressão, sem odor,
Sem um bafejo de amor.
Sem os orvalhos do céu.
Se fui eu quem na tu’alma
Desvelada as eduquei:
Se vida, se amor lhes
dei,
Como dizes: — Ah! Eu
devo,
Em troca de afetos
tantos
Recebê-las já sem
vida...
Uma palma emurchecida,
Sem olor, sem grato
elevo?
Não, oh! não, — mil
vezes não,
Não dês amores partidos,
Não dês afetos mentidos,
A quem sincero t’os deu.
E se mais te apraz, à
outra;
Faz delas mimo de amor;
Brotarão mais doce olor,
Sobre o níveo colo seu.