A lua brasileira Cantos à beira-mar · Capítulo 3 de 55
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A lua brasileira

Oferecida ao Ilmo. Sr.

Dr. Adriano Manoel Soares.

Tributo de amizade e

gratidão.

É tão meiga, tão

fagueira,

Minha lua brasileira!

É tão doce, e

feiticeira,

Quando airosa vai nos

céus;

Quando sobre almos

palmares,

Ou sobre a face dos

mares,

Fixa nívea seus olhares,

Que deslumbram os olhos

meus...

Quando traça na campina

Larga fila diamantina,

Quando sobre a flor

marina

Derrama seu lindo albor;

Quando esparge

brandamente

Por sobre a relva

virente

Seu fulgor alvinitente

Seu melindroso

esplendor...

Quando sobre a fina

areia,

Que a vaga beijar

anseia,

Molemente ela passeia,

Desdobrando alvo lençol;

Quando ao fim da tarde

amena,

Ressurge pura e serena,

Disputando nessa cena

Primores co’o rubro

sol...

Que eu sinto meu pobre

peito

Comovido, ao fim

desfeito

Por tanto encanto

sujeito,

Por tantos gozos — meu

Deus,

E eu vejo os anjinhos

teus,

Noutras nuvens, noutros

céus

Novos mundos construir.

Podem outros seus

encantos

Ver também — gozar seus

prantos;

Pode cantá-la em seus

cantos

Qualquer jovem trovador;

Vendo-a bela sobre os

montes,

Ou retratada nas fontes,

Surgindo nos horizontes

C’roada de níveo albor.

Mimosa, pura; — mas bela

Assim branca, assim

singela,

Como pálida donzela,

Que geme na solidão;

Assim leda, acetinada,

Como flor na madrugada,

Pelo rocio beijada,

Beijada com devoção;

Assim em sua frescura,

Com tão maga formosura,

Percorrendo essa

planura,

De nossos formosos céus;

Assim não. Assim somente

Mimosa, pura, indolente

A vemos nós... fado

ingente

Foi este que nos deu

Deus.

Quem não ama vê-la assim

Com a candidez do

jasmim,

Espargindo amor sem fim,

Nas terras de Santa

Cruz!

Quem não ama

entusiasmado

Da noite o astro nevado,

Que com o rosto prateado

Tão meigamente seduz!...

Quem não sente uma

saudade,

Vendo a lua em fresca

tarde,

Branca — em plena

soledade

Vagar nos campos dos

céus!...

Quem não tece com

fervor,

No peito em que mora a

dor,

Um hino sacro de amor,

Um terno hino a seu

Deus!...

Eu por mim amo-te, oh!

bela,

Que semelhas à donzela,

Com roupas de fina tela,

Com traços de lindo

albor;

Que vai pura aos pés do

altar,

Por doce extremo de

amar,

Ao terno amante jurar,

Lealdade, fé — e amor.

Amor ver-te assim

fagueira

Minha lua brasileira,

Qual menina feiticeira,

Que promete, e foge e

ri,

E depois, sempre

folgando

Vem com beijinhos

pagando

Aquele, que a afagando

De novo a chamara a si.

Assim tens meus tristes

cantos,

Soltos ao som dos meus

prantos,

Que me inspiram teus

encantos,

Da noite na solidão;

A meiga lua querida,

Melancólica, e sentida,

Com tua face

enternecida,

Minha constante aflição.

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