Cismar
À minha querida prima — Balduina N.B.
Quando meus olhos lanço
sobre o mar
Augusto — o seu império
contemplando;
Quer tranquilo murmure —
ou rebramando,
Expande-se meu peito
extasiado.
Corre minh’alma pelo céu
vagando
Sobre seres criados — Deus
buscando...
E fundo, e deleitoso é
meu cismar.
Se ronca a tempestade
enegrecida,
Pavoroso trovão rouqueja
incerto:
As nuvens se
constrangem, o céu aberto
Elétrico clarão vomita
escuro:
Ao Deus da criação, ao
rei da vida
Elevo o pensamento, e o
coração...
Cresce, avulta, e
aumenta a cerração
E em meu vago cismar só
Deus procuro;
Se plácida no céu
correndo vejo
— A lua — o mar, as
serras prateando,
Qual áureo diadema
cintilando
Em casta fronte de
pudica virgem,
Em meu grato cismar só
Deus almejo...
Bendiz minh’alma seu
poder imenso!
Bendiz o Criador do Orbe
extenso,
Que os outros rege — que
seu trono cingem.
E bendigo depois a minha
dor,
Meu duro sofrimento, — o
meu viver...
Porque pode apagar,
fundo sofrer
As feias culpas do
existir da terra.
Oh! sim minh’alma te
bendiz Senhor.
Quando cismando se
recolhe triste...
Bendiz o eterno amor,
que em ti existe,
O imenso poder que em ti
se encerra!!..