O meu segredo
Aqui no exílio — revolvendo
a mente
Breve passado, — momentâneo
gosto,
Qual fugaz meteoro;
Ao riso estulto da
profana gente,
Pálido volvo p’ra não
vê-la o rosto,
E magoado choro.
E as turbas passam: — nem
sequer p’ra mim
Seus olhos lançam — nem
as vejo eu
o que há de comum
Entre mim e os homens?
Eles riem,
Eu choro — seu viver não
é o meu,
Não os amo a nenhum.
Já gasta d’um querer que
me devora,
Vou — ave soidão,
buscando um ermo,
Asilo ao meu sofrer...
Onde do sol os raios
nessa hora
Não penetrem — do trilho
lá no termo
Vou sonhar — e gemer.
Aí, curvada a fronte
sobre a mão
Brotam mil pensamentos à
porfia,
Mil lembranças, oh céu!
Vem nas lúbricas asas da
aflição,
Como dores nas horas
d’agonia,
No peito d’um ateu!
Em tropel se me antolham
— afoutos vêm
Desejo, amor, descrença,
ou ilusão,
Esperança ou receio:
Sinto o cérebro arder — o
peito tem
Férrea mão que
constringe — e o coração
Não palpita no seio.
Deixai passar as turbas;
— venha embora
A noite — com seu véu me
envolva, — brilhe,
Ou não o firmamento:
Descante o sabiá da
sesta à hora;
Deixa-me em meu cismar; —
embora triste
Errado o pensamento!
Deixai o meu segredo; — oh!
é mistério
Eu o amo — é meu sonho
tão querido...
Quem o sabe? ninguém.
São notas afinadas de um
saltério
Que geme de saudades — esquecido
Na má Jerusalém!
É por isso que eu quero
a paz do ermo
Que faz lembrar a paz da
sepultura,
Solitária, — e tão
só!...
Não sonho aí sentada, o
breve termo,
Que almejo a minha dor —
a desventura,
Ligou-me em estreito
nó....
Vou fartar-me de dor
longe do mundo,
Vasar do peito aos
lábios — na sordão
Torrentes de amargor!
Dar asa a um querer
vago, e profundo;
Com prantos iludir meu
coração,
Gelado, — e sem amor!
Embora venham as turbas
desvendar
No solitário abrigo meu
viver,
Minha longa aflição;
Jamais hão de profanos —
meus cismar.
Meu segredo — sequer — compreender
No morto coração.