Não quero amar mais ninguém
Quereis que eu cante na
lira
Os meus amores? Pois
bem;
Os meus amores são
sonhos,
Eu nunca amei a ninguém.
Temi que, amando na
terra,
De amor me viesse algum
mal.
Criei no céu meus
amores,
Amei ao meu ideal.
Oh! nem sabeis quanto é
belo
Um ideal de mulher!
É belo como arcanjos,
Aos pés do Supremo Ser.
É grato, belo, é
deleite,
Encanta, enleia, seduz,
Como nas trevas da noite
Se brilha ao longe uma
luz.
Fala... sua voz é
saltério;
São gratos hinos a Deus;
São acentos mist’riosos;
Que sobem puros aos
céus.
Se nos sorri, — seu
sorriso,
São ternos votos de
amor;
São como gota de orvalho
De leve beijando a flor.
P’ra que amores na
terra,
Se amo ao meu ideal?
Amores que cavam
prantos,
Amores que fazem mal!...
E teço-lhe grinalda de
poesia,
Singela, e odorosa;
E dos anjos escuto a
melodia
A voz harmoniosa.
E um doce ambiente se
respira,
E mais doce langor;
Expande-se meu peito — a
alma suspira
Ofegante de amor.
E a música celeste
recomeça
Ao som de nosso amor:
Mistério! A lua é pura...
a flor começa
A vestir-se de odor.
É tudo belo... toda a
relva é flor,
Todo o ar poesia!
O prazer é do céu ... aí
o amor
É hino de harmonia.
Que importa que sejam
sonhos
Os meus amores? Pois
bem,
Eu quero amores
sonhando,
Não quero amar mais
ninguém.