Minha alma
Agora, agora que ninguém
nos ouve,
Dize, minh’alma, — que
sofrer te avexa?
Sofres? Eu sinto!.. que
pungir o teu!
Foge aos rigores de uma
sorte avessa.
Vês-me abatida como
arbusto débil,
Que a fronte inclinada
se o aquilão soprou;
Sombra tristonha, que
vagueia aflita,
Buscando a campa que seu
mal cavou.
E não minoras minha dor
sem prantos...
Gemes comigo na amplidão
do ermo?
As nossas dores são
comuns, — minh’alma,
Fundas, eternas, — não
terão um termo!
Se em desalento me
lastimo e choro,
Se a dor me rasga o
desolado peito,
Gemes. Na insônia de
compridas noites
Velas comigo a suspirar
no leito.
E quando estua o coração
de angústias
Vejo-te aflita delirar —
que tens?
Remorso agudo te penetra
o seio?
De negros crimes
rebuçada vens?...
Oh! que blasfêmia! Tu,
essência diva,
Límpida, pura... não
pecaste, — não.
Presa ao ergást’lo do grosseiro barro,
Sofres com ele... que
fatal prisão!
Sofres! és boa... meu
sofrer te acanha...
Gemes, se eu gemo — se
eu pranteio, choras:
Se a culpa, ou erro me
constringe o peito,
És tu, meu anjo — quem
da culpa coras.
Juntas erramos neste
vale — aflitas
Arrastam ambas seu viver
dorido...
Dás-me teus prantos se
me escutas, triste
Brotar do peito soluçar
sentido.
É minha culpa, sim — perdão
minh’alma!
A culpa é minha, — o
sacrifício teu,
Sublime exemplo do mais
puro amor!
Sê minha estrela ao
caminhar p’ra o céu.
Só tu me ouviste
blasfemar, — perdoa!
Eu sofro tanto!.. ah!
perdão... perdão!
Deixa esta dor se
enregelar no peito,
Quebra, espedaça tua
fatal prisão.