Minha alma Cantos à beira-mar · Capítulo 49 de 55
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Minha alma

Agora, agora que ninguém

nos ouve,

Dize, minh’alma, — que

sofrer te avexa?

Sofres? Eu sinto!.. que

pungir o teu!

Foge aos rigores de uma

sorte avessa.

Vês-me abatida como

arbusto débil,

Que a fronte inclinada

se o aquilão soprou;

Sombra tristonha, que

vagueia aflita,

Buscando a campa que seu

mal cavou.

E não minoras minha dor

sem prantos...

Gemes comigo na amplidão

do ermo?

As nossas dores são

comuns, — minh’alma,

Fundas, eternas, — não

terão um termo!

Se em desalento me

lastimo e choro,

Se a dor me rasga o

desolado peito,

Gemes. Na insônia de

compridas noites

Velas comigo a suspirar

no leito.

E quando estua o coração

de angústias

Vejo-te aflita delirar —

que tens?

Remorso agudo te penetra

o seio?

De negros crimes

rebuçada vens?...

Oh! que blasfêmia! Tu,

essência diva,

Límpida, pura... não

pecaste, — não.

Presa ao ergást’lo do grosseiro barro,

Sofres com ele... que

fatal prisão!

Sofres! és boa... meu

sofrer te acanha...

Gemes, se eu gemo — se

eu pranteio, choras:

Se a culpa, ou erro me

constringe o peito,

És tu, meu anjo — quem

da culpa coras.

Juntas erramos neste

vale — aflitas

Arrastam ambas seu viver

dorido...

Dás-me teus prantos se

me escutas, triste

Brotar do peito soluçar

sentido.

É minha culpa, sim — perdão

minh’alma!

A culpa é minha, — o

sacrifício teu,

Sublime exemplo do mais

puro amor!

Sê minha estrela ao

caminhar p’ra o céu.

Só tu me ouviste

blasfemar, — perdoa!

Eu sofro tanto!.. ah!

perdão... perdão!

Deixa esta dor se

enregelar no peito,

Quebra, espedaça tua

fatal prisão.

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