A vida é sonho
Oferecida ao Ilmo. Sr.
Raimundo Marcos Cordeiro.
Prova de sincera
amizade.
A vida é sonho, — que
afanoso sonho!
Há nela gozos de mentido
amor;
Porém aquilo que nossa
alma almeja
É sonho amargo de
aflitiva dor!
Fantasma mudo, que
impassível foge,
Se mão ousada a
estreitá-lo vai;
Sombra ilusória,
fugitiva nuvem,
Folha mirrada, que do
tronco cai...
Que vale ao triste
sonhador poeta
A noite inteira se
volver no leito,
Sonhando anelos — segredando
um nome,
Que oculta a todos no
abrasado peito?!!...
A vida é sonho, que se
esvai na campa,
Sonho dorido, truculento
fel,
Longa cadeia, que nos
cinge a dor,
Vaso enganoso de
absintos, e mel
Se é um segredo que su’alma encerra,
Se é um mistério — revelá-lo
a quem?
Se é um desejo — quem
fartá-lo pode?
Quem chora as mágoas,
que o poeta tem?
Ah! se um segredo lhe
devora a vida,
Bem como a flor, o
requeimar do dia,
Ele se estorce no
afanoso anseio;
Rasga-lhe o peito íntima
agonia.
Então compulsa a
melindrosa lira,
Seu pobre canto é
desmaiada endeixa;
A lira segue merencória,
e triste
Pálidos lábios
murmurando queixa.
Mas, esse afã — esse
querer insano,
Esse segredo, — esse
mistério, enfim,
Não é a lira que compr’ende, e farta,
Que a lira geme, mas não
sofre assim.
A vida é sonho, duvidar
quem pode?
Sonho penoso, que se
esvai nos céus!
Esse querer indefinido,
e louco,
Só o compr’ende
— só o farta — Deus.