A vida é sonho Cantos à beira-mar · Capítulo 51 de 55
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A vida é sonho

Oferecida ao Ilmo. Sr.

Raimundo Marcos Cordeiro.

Prova de sincera

amizade.

A vida é sonho, — que

afanoso sonho!

Há nela gozos de mentido

amor;

Porém aquilo que nossa

alma almeja

É sonho amargo de

aflitiva dor!

Fantasma mudo, que

impassível foge,

Se mão ousada a

estreitá-lo vai;

Sombra ilusória,

fugitiva nuvem,

Folha mirrada, que do

tronco cai...

Que vale ao triste

sonhador poeta

A noite inteira se

volver no leito,

Sonhando anelos — segredando

um nome,

Que oculta a todos no

abrasado peito?!!...

A vida é sonho, que se

esvai na campa,

Sonho dorido, truculento

fel,

Longa cadeia, que nos

cinge a dor,

Vaso enganoso de

absintos, e mel

Se é um segredo que su’alma encerra,

Se é um mistério — revelá-lo

a quem?

Se é um desejo — quem

fartá-lo pode?

Quem chora as mágoas,

que o poeta tem?

Ah! se um segredo lhe

devora a vida,

Bem como a flor, o

requeimar do dia,

Ele se estorce no

afanoso anseio;

Rasga-lhe o peito íntima

agonia.

Então compulsa a

melindrosa lira,

Seu pobre canto é

desmaiada endeixa;

A lira segue merencória,

e triste

Pálidos lábios

murmurando queixa.

Mas, esse afã — esse

querer insano,

Esse segredo, — esse

mistério, enfim,

Não é a lira que compr’ende, e farta,

Que a lira geme, mas não

sofre assim.

A vida é sonho, duvidar

quem pode?

Sonho penoso, que se

esvai nos céus!

Esse querer indefinido,

e louco,

Só o compr’ende

— só o farta — Deus.

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