Canto
Ao feliz aniversário do
nosso prezado amigo — o jovem poeta — o Sr. Raimundo Marcos Cordeiro.
É certo — não prorrompem
neste dia
Os ecos do canhão, — lembrando
as gentes,
Lembrando ao cortesão
O solene cortejo...
áureo diadema.
A fronte não te adorna, —
a vil lisonja
Não oscula tua mão.
Mas, tens melhor do que
isso: — por um beijo
De baixo servilismo, eis
dos irmãos
A mais santa afeição,
Extremos de uma mãe
afetuosa,
A lira engrinaldada
d’uma amiga;
Não baixa adulação.
Embora minha voz d’um
polo a outro
— Como o vento, que
impera no deserto –
A povos desse a lei:
Negara-te jogar sob um docel;
Quisera-te cantor, — não
Júlio César:
Ser poeta, é ser rei.
Poeta, não tenho lira
De marfim, de prata, ou
d’ouro;
Mas tenho grato tesouro,
Gravado no coração;
Um tesouro inesgotável
Por nada, — vês — trocaria,
São flores de poesia,
São trenos de uma
afeição.
São transportes
d’amizade,
Eflúvios da meiga flor.
D’aurora lúcido albor.
D’orvalho gota nitente,
São meiguices d’algum
canto
Por entre dor soluçado.
É voto puro, e sagrado
Que traduz sentir
veemente.
São beijos de duas
rolas,
São hinos da solidão,
Do crepúsculo a viração,
Do céu o amplo sudário;
Tudo hei guardado — poeta,
No imo do coração,
Para dar-te em ovação
No teu fausto aniversário.
Não dou-te c’roa de ouro,
Dou-te c’roa de poesia...
Por teu matiz neste dia
Aceita meu pobre canto.
É singelo, mas exala
Perfumes do coração:
São mimos de uma canção,
São notas de dúlio encanto.
Inspirou-o doce enleio
D’uma amizade constante;
Mais estreita a cada
instante,
Mais formosa em cada
dia!
Recebe a pobre canção,
Como um brinde ao teu
natal;
Meiga c’roa festival
Ornada de poesia.