O meu desejo Cantos à beira-mar · Capítulo 7 de 55
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O meu desejo

A um jovem poeta guimarense.

Na hora em que vibrou a

mais sensível

Corda da tu’alma — a da saudade,

Deus mandou-te, poeta,

um alaúde,

E disse: canta amor na

soledade,

Escuta a voz do céu, — eia,

cantor,

Desfere um canto de

infinito amor.

Canta os extremos d’uma

mãe querida,

Que te idolatra, que te

adora tanto!

Canta das meigas, das

gentis irmãs,

O ledo riso de celeste

encanto;

E ao velho pai, que

tanto amor te deu,

Grato oferece-lhe o

alaúde teu.

E a liberdade, oh!

poeta, — canta,

Que fora o mundo a

continuar nas trevas?

Sem ela as letras não

teriam vida,

Menos seriam que no chão

as relvas;

Toma por timbre

liberdade, e glória,

Teu nome um dia viverá

na história.

Canta, poeta, no alaúde

teu,

Ternos suspiros da

chorosa amante;

Canta teu berço de

saudade infinda,

Funda lembrança de quem

está distante:

Afina as cordas de

gentis primores,

Dá-nos teus cantos

trescalando odores.

Canta do exílio com

melífluo acento,

Como David a recordar

saudade;

Embora ao riso se

misture o pranto;

Embora gemas em cruel soidade...

Canta, poeta, — teu

cantar assim,

Há de ser belo enlevador enfim.

Nos teus arpejos juvenil

poeta,

Canta as grandezas, que

se encerram em Deus,

Do sol o disco, — a

merencória lua,

Mimosos astros a fulgir

dos céus;

Canta o Cordeiro, que

gemeu na Cruz,

Raio infinito de

esplendente luz.

Canta, poeta, teu cantar

singelo

Meigo, sereno como um

riso d’anjos;

Canta a natura, a

primavera, as flores,

Canta a mulher a

semelhar arcanjos,

Que Deus envia à

desolada terra,

Bálsamo santo, que em

seu seio encerra.

Canta, poeta, à

liberdade, — canta,

Que fora o mundo sem

fanal tão grato;

Anjo baixado da celeste

altura,

Que espanca as trevas

deste mundo ingrato;

Oh! sim, poeta,

liberdade, e glória

Toma por timbre, e

viverás na história.

Eu não te ordeno, te

peço,

Não é querer, é desejo;

São estes meus votos — sim.

Nem outra coisa almejo,

E que mais posso querer?

Ver-te Camões, Dante ou

Milton,

Ver-te poeta — e morrer.

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