Meditação
À minha querida irmã — Amália
Augusta dos Reis.
Vejamos pois esta
deserta praia,
Que a meiga lua a
pratear começa,
Com seu silêncio se
harmoniza esta alma,
Que verga ao peso de uma
sorte avessa.
Oh! meditamos na soidão
da terra,
Nas vastas ribas deste
imenso mar;
Ao som do vento, que
sussurra triste,
Por entre os leques do
gentil palmar.
O sol nas trevas se
envolveu, — mistérios
Encerra a noite, — ela
compreende a dor;
Talvez o manto, que
estendeu no bosque,
Encubra um peito que
gemeu de amor.
E o mar na praia como
liso ondeia,
Gemendo triste, sem
furor — com mágoas...
Também meditas, oh!
salgado pego –
Também partilhas desta
vida as frágoas?...
E a branca lua a divagar
no céu,
Como uma virgem nas
solidões da terra;
Que doce encanto tem seu
meigo aspecto,
E tanto enlevo sua
tristeza encerra!
Sim, meditemos... quem
gemeu no bosque,
Onde a florzinha a
perfumar cativa?
Seria o vento? Ele
passando ergueu
Do tronco a copa
sobranceira, altiva.
Passou. E agora
sufocando a custo
Meu peito o doce
palpitar de amor,
Delícias bebe
desterrando o susto,
Que a noite incute a
semear pavor.
E um deleite inda melhor
que a vida,
Langor, quebranto, ou
sofrimento ou dor;
Um quê de afetos
meditando eu sinto,
Na erma noite, a me
exaltar de amor.
Então a mente a divagar
começa,
Criando afouta seu
sonhado amor;
Zombando altiva de uma
sorte avessa,
Que oprime a vida com
fatal rigor.
E nessa hora a gotejar
meu pranto,
Nas ermas ribas de
saudoso mar,
Vagando a mente nesse
doce encanto,
Dá vida ao ente, que
criei p’ra amar.
E a doce imagem
vaporosa, e bela,
Que a mente erguera,
engrinaldou de amor,
Ergue-se vaga,
melindrosa, e grata
Como fragrância de
mimosa flor.
E o peito a envolve de
extremoso afeto,
E dá-lhe a vida, que lhe
dera Deus;
Ergue-lhe altares — lhe engrinalda a fronte,
Rende-lhe cultos, que só
dera aos céus.
Colhe p’ra ela das
roseiras belas,
Que aí cultiva — a mais
singela flor:
E num suspiro vai
depor-lhe as plantas,
Como oferenda — seu mimoso
amor.
Mas, ah! somente a
duração d’um ai
Tem esse breve devanear
da mente
Volve-se a vida, que é
só pranto, e dor,
E cessa o encanto do
amoroso ente.