Meditação Cantos à beira-mar · Capítulo 45 de 55
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Meditação

À minha querida irmã — Amália

Augusta dos Reis.

Vejamos pois esta

deserta praia,

Que a meiga lua a

pratear começa,

Com seu silêncio se

harmoniza esta alma,

Que verga ao peso de uma

sorte avessa.

Oh! meditamos na soidão

da terra,

Nas vastas ribas deste

imenso mar;

Ao som do vento, que

sussurra triste,

Por entre os leques do

gentil palmar.

O sol nas trevas se

envolveu, — mistérios

Encerra a noite, — ela

compreende a dor;

Talvez o manto, que

estendeu no bosque,

Encubra um peito que

gemeu de amor.

E o mar na praia como

liso ondeia,

Gemendo triste, sem

furor — com mágoas...

Também meditas, oh!

salgado pego –

Também partilhas desta

vida as frágoas?...

E a branca lua a divagar

no céu,

Como uma virgem nas

solidões da terra;

Que doce encanto tem seu

meigo aspecto,

E tanto enlevo sua

tristeza encerra!

Sim, meditemos... quem

gemeu no bosque,

Onde a florzinha a

perfumar cativa?

Seria o vento? Ele

passando ergueu

Do tronco a copa

sobranceira, altiva.

Passou. E agora

sufocando a custo

Meu peito o doce

palpitar de amor,

Delícias bebe

desterrando o susto,

Que a noite incute a

semear pavor.

E um deleite inda melhor

que a vida,

Langor, quebranto, ou

sofrimento ou dor;

Um quê de afetos

meditando eu sinto,

Na erma noite, a me

exaltar de amor.

Então a mente a divagar

começa,

Criando afouta seu

sonhado amor;

Zombando altiva de uma

sorte avessa,

Que oprime a vida com

fatal rigor.

E nessa hora a gotejar

meu pranto,

Nas ermas ribas de

saudoso mar,

Vagando a mente nesse

doce encanto,

Dá vida ao ente, que

criei p’ra amar.

E a doce imagem

vaporosa, e bela,

Que a mente erguera,

engrinaldou de amor,

Ergue-se vaga,

melindrosa, e grata

Como fragrância de

mimosa flor.

E o peito a envolve de

extremoso afeto,

E dá-lhe a vida, que lhe

dera Deus;

Ergue-lhe altares — lhe engrinalda a fronte,

Rende-lhe cultos, que só

dera aos céus.

Colhe p’ra ela das

roseiras belas,

Que aí cultiva — a mais

singela flor:

E num suspiro vai

depor-lhe as plantas,

Como oferenda — seu mimoso

amor.

Mas, ah! somente a

duração d’um ai

Tem esse breve devanear

da mente

Volve-se a vida, que é

só pranto, e dor,

E cessa o encanto do

amoroso ente.

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