A Conquista do Pão: Nossas Riquezas II
Somos ricos nas sociedades civilizadas. Por que, então, ao nosso redor, esta miséria? Por que esse trabalho penoso, embrutecedor, imposto às massas? Por que essa insegurança do amanhã, mesmo para o trabalhador mais bem retribuído, em meio às riquezas herdadas do passado e apesar dos meios poderosos de produção que dariam abundância a todos em troca de algumas horas de trabalho diário?
Os socialistas disseram isso e o repetiram até a saciedade. A cada dia o repetem, demonstrando-o por argumentos tomados de todas as ciências. Porque tudo o que é necessário à produção, o solo, as minas, as máquinas, as vias de comunicação, o alimento, o abrigo, a educação e o saber, tudo foi açambarcado por alguns no curso dessa longa história de pilhagem, êxodos, guerras, ignorância e opressão que a humanidade viveu antes de aprender a domar as forças da Natureza.
Porque, valendo-se de pretensos direitos adquiridos no passado, eles se apropriam hoje de dois terços dos produtos do labor humano e os entregam ao desperdício mais insensato e mais escandaloso. Porque, reduzindo as massas a nada terem diante de si com que viver um mês, ou mesmo oito dias, só permitem ao homem trabalhar quando ele consente em deixá-los retirar a parte do leão. Porque o impedem de produzir aquilo de que precisa e o forçam a produzir aquilo que promete os maiores benefícios ao monopolizador, em lugar do que seria necessário aos outros. Todo o socialismo está aí.
Eis, com efeito, um país civilizado. As florestas que outrora o cobriam foram clareadas, os pântanos secaram, o clima tornou-se salubre e o país foi tornado habitável. O solo que antes só trazia ervas grosseiras fornece hoje ricas colheitas. Os rochedos suspensos sobre os vales do sul foram talhados em terraços, onde sobem vinhas de fruto dourado. Plantas selvagens que antes davam apenas um fruto áspero ou uma raiz intragável foram transformadas, por cultivos sucessivos, em legumes saborosos e árvores carregadas de frutos excelentes.
Milhares de estradas pavimentadas e férreas cortam a terra e perfuram as montanhas. A locomotiva apita nas gargantas selvagens dos Alpes, do Cáucaso e do Himalaia. Os rios foram tornados navegáveis, as costas, sondadas e cuidadosamente levantadas, oferecem acesso fácil, e portos artificiais, cavados penosamente e protegidos contra as fúrias do Oceano, dão refúgio aos navios. As rochas são abertas por poços profundos, labirintos de galerias subterrâneas se estendem onde há carvão a extrair e minério a recolher. Em todos os pontos onde as estradas se cruzam, cidades surgiram, cresceram, e em seus recintos encontram-se todos os tesouros da indústria, da arte e da ciência.
Gerações inteiras, nascidas e mortas na miséria, oprimidas e maltratadas por seus senhores, extenuadas de labor, legaram essa imensa herança ao século dezenove. Durante milhares de anos, milhões de homens trabalharam para clarear as matas altas, secar os pântanos, abrir caminhos e conter os rios. Cada hectare de solo que lavramos na Europa foi regado pelos suores de várias raças. Cada estrada traz uma história inteira de corveias, trabalho sobre-humano e sofrimentos do povo. Cada légua de caminho de ferro, cada metro de túnel recebeu sua porção de sangue humano.
Os poços das minas ainda trazem, inteiramente frescas, as incisões feitas na rocha pelo braço do mineiro. De uma escora a outra, as galerias subterrâneas poderiam ser marcadas por uma sepultura de mineiro, arrebatado na força da idade pelo grisu, pelo desabamento ou pela inundação, e sabe-se o que cada uma dessas sepulturas custou em lágrimas, privações e misérias sem nome à família que vivia do magro salário do homem enterrado sob os escombros.
As cidades, ligadas entre si por cinturões de ferro e linhas de navegação, são organismos que viveram séculos. Cave-se o solo, e ali serão encontradas as bases superpostas de ruas, casas, teatros, arenas e edifícios públicos. Aprofunde-se sua história, e se verá como a civilização da cidade, sua indústria e seu gênio cresceram lentamente e amadureceram pelo concurso de todos os seus habitantes, antes de se tornarem o que são hoje.
E ainda agora, o valor de cada casa, de cada usina, de cada fábrica, de cada loja, é feito apenas do labor acumulado dos milhões de trabalhadores sepultados sob a terra. Ele só se mantém pelo esforço das legiões de homens que habitam esse ponto do globo. Cada átomo daquilo que chamamos riqueza das nações só adquire valor por fazer parte desse imenso todo. Que seria uma doca de Londres ou uma grande loja de Paris se não estivessem situadas nesses grandes centros do comércio internacional? Que seriam nossas minas, nossas fábricas, nossos canteiros e nossas vias férreas sem os montes de mercadorias transportadas diariamente por mar e por terra?
Milhões de seres humanos trabalharam para criar essa civilização de que hoje nos glorificamos. Outros milhões, disseminados por todos os cantos do globo, trabalham para mantê-la. Sem eles, em cinquenta anos restariam apenas ruínas. Essa constatação basta para mostrar que a riqueza presente nunca nasce isolada, nunca pertence a uma mão solitária e nunca poderia ser separada do esforço coletivo que a prepara, conserva e renova.
Até o pensamento, até a invenção, são fatos coletivos, nascidos do passado e do presente. Milhares de inventores, conhecidos ou desconhecidos, mortos na miséria, prepararam a invenção de cada uma dessas máquinas nas quais o homem admira seu gênio. Milhares de escritores, poetas e sábios trabalharam para elaborar o saber, dissipar o erro e criar essa atmosfera de pensamento científico sem a qual nenhuma das maravilhas de nosso século teria feito sua aparição. Contudo, esses milhares de filósofos, poetas, sábios e inventores também foram suscitados pelo labor dos séculos passados. Não foram eles, durante toda a vida, alimentados e sustentados, no corpo e no espírito, por legiões de trabalhadores e artesãos de toda espécie? Não retiraram sua força de impulso daquilo que os cercava?
O gênio de um Séguin, de um Mayer e de um Grove certamente fez mais para lançar a indústria por vias novas do que todos os capitalistas do mundo. Contudo, esses próprios gênios são filhos da indústria tanto quanto da ciência. Foi preciso que milhares de máquinas a vapor transformassem, ano após ano, sob os olhos de todos, o calor em força dinâmica, e essa força em som, luz e eletricidade, antes que essas inteligências geniais viessem proclamar a origem mecânica e a unidade das forças físicas. E se nós, filhos do século dezenove, enfim compreendemos essa ideia, se soubemos aplicá-la, foi ainda porque estávamos preparados para isso pela experiência de todos os dias. Os pensadores do século passado também a haviam entrevisto e enunciado, contudo ela permaneceu incompreendida, porque o século dezoito não havia crescido, como nós, ao lado da máquina a vapor.
Basta pensar nas décadas que ainda se teriam escoado na ignorância dessa lei que nos permitiu revolucionar a indústria moderna, se Watt não tivesse encontrado em Soho trabalhadores hábeis para construir em metal seus projetos teóricos, aperfeiçoar todas as partes e tornar enfim o vapor, aprisionado num mecanismo completo, mais dócil que o cavalo, mais manejável que a água, fazendo dele, numa palavra, a alma da indústria moderna.
Cada máquina tem a mesma história, longa história de noites em claro e miséria, de desilusões e alegrias, de aperfeiçoamentos parciais encontrados por várias gerações de operários desconhecidos que vinham acrescentar à invenção primitiva esses pequenos nadas sem os quais a ideia mais fecunda permanece estéril. Mais que isso, cada invenção nova é uma síntese, resultado de mil invenções anteriores no campo imenso da mecânica e da indústria.
Ciência e indústria, saber e aplicação, descoberta e realização prática conduzindo a novas descobertas, trabalho cerebral e trabalho manual, pensamento e obra dos braços, tudo se liga. Cada descoberta, cada progresso, cada aumento da riqueza da humanidade tem origem no conjunto do trabalho manual e cerebral do passado e do presente. Então, com que direito alguém poderia apropriar-se da menor parcela desse imenso todo e dizer: isto é meu, não de vocês?