A Conquista do Pão: Os Alimentos III A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 15 de 55
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A Conquista do Pão: Os Alimentos III

O traço predominante e distintivo do sistema capitalista atual é o salariato. Um homem, ou um grupo de homens, possuindo o capital necessário, monta uma empresa industrial. Encarrega-se de alimentar a manufatura ou a usina com matéria-prima, de organizar a produção, de vender os produtos manufaturados, de pagar aos operários um salário fixo e, enfim, embolsa a mais-valia ou os benefícios, sob o pretexto de indenizar-se pela gerência, pelo risco que correu e pelas flutuações de preço que a mercadoria sofre no mercado.

Para salvar esse sistema, os detentores atuais do capital estariam prontos a fazer certas concessões: repartir, por exemplo, uma parte dos benefícios com os trabalhadores, ou estabelecer uma escala de salários que obrigue a elevá-los assim que o ganho se eleva. Em resumo, consentiriam em certos sacrifícios, desde que sempre lhes fosse deixado o direito de gerir a indústria e retirar dela os benefícios. O coletivismo, como se sabe, traz modificações importantes a esse regime, conservando ainda assim o salariato. Apenas o Estado, isto é, o governo representativo, nacional ou comunal, substitui o patrão. São os representantes da nação ou da comuna e seus delegados, seus funcionários, que se tornam gerentes da indústria. São também eles que se reservam o direito de empregar no interesse de todos a mais-valia da produção.

Além disso, estabelece-se nesse sistema uma distinção muito sutil, porém pesada de consequências, entre o trabalho do servente e o daquele que fez um aprendizado prévio. O trabalho do servente, aos olhos do coletivista, é apenas trabalho simples, enquanto o artesão, o engenheiro, o sábio e outros fazem aquilo que Marx chama trabalho composto e têm direito a salário mais elevado. Serventes e engenheiros, tecelões e sábios são assalariados do Estado, todos funcionários, dizia-se recentemente para dourar a pílula.

Pois bem, o maior serviço que a próxima Revolução poderá prestar à humanidade será criar uma situação na qual todo sistema de salariato se torne impossível e inaplicável, e na qual se imponha como única solução aceitável o Comunismo, negação do salariato. Pois, admitindo que a modificação coletivista seja possível caso se faça gradualmente durante um período de prosperidade e tranquilidade, coisa de que muito duvidamos mesmo nessas condições, ela se tornará impossível em período revolucionário, porque a necessidade de alimentar milhões de seres surgirá no dia seguinte à primeira tomada de armas.

Uma revolução política pode realizar-se sem que a indústria seja abalada. Uma revolução na qual o povo ponha a mão sobre a propriedade trará inevitavelmente uma parada súbita das trocas e da produção. Os milhões do Estado não bastariam para assalariar os milhões de desocupados. Nunca insistiremos demais nesse ponto: a reorganização da indústria sobre bases novas, e em breve mostraremos a imensidão desse problema, não se fará em poucos dias, e o proletário não poderá pôr anos de miséria a serviço dos teóricos do salariato. Para passar pelo período de aperto, reclamará aquilo que sempre reclamou em ocorrência semelhante: a colocação dos alimentos em comum, o racionamento.

Por mais que se pregue paciência, o povo já não esperará. Se todos os alimentos não forem postos em comum, ele pilhará as padarias. Se o impulso do povo tiver força insuficiente, será fuzilado. Para que o coletivismo possa experimentar, precisa antes de tudo de ordem, disciplina e obediência. E como os capitalistas logo perceberão que fazer fuzilar o povo por aqueles que se chamam revolucionários é o melhor meio de fazê-lo tomar desgosto pela revolução, certamente darão apoio aos defensores da ordem, mesmo coletivistas. Verão nisso um meio de esmagá-los mais tarde, por sua vez.

Se a ordem for restabelecida dessa maneira, as consequências são fáceis de prever. A ação não se limitará a fuzilar os saqueadores. Será preciso procurar os autores da desordem, restabelecer os tribunais, a guilhotina, e os revolucionários mais ardentes subirão ao cadafalso. Será uma renovação de 1793. Não esqueçamos como a reação triunfou no século passado. Primeiro guilhotinaram os hebertistas, os enraivecidos, aqueles que Mignet, sob a lembrança ainda fresca das lutas, chamava de anarquistas. Os dantonianos não tardaram a segui-los, e quando os robespierristas guilhotinaram esses revolucionários, chegou sua vez de ir ao cadafalso. Com isso, o povo desgostoso, vendo a revolução perdida, deixou os reatores agir.

Se a ordem for restabelecida, dizemos nós, os coletivistas guilhotinarão os anarquistas, os possibilistas guilhotinarão os coletivistas e, enfim, serão eles mesmos guilhotinados pelos reacionários. A revolução terá de recomeçar. Tudo, entretanto, leva a crer que o impulso do povo será forte o bastante e que, quando a Revolução se fizer, a ideia do Comunismo anarquista terá ganhado terreno. Essa ideia nada tem de inventada, é o próprio povo que a sopra para nós, e o número dos comunistas aumentará à medida que se tornar mais evidente a impossibilidade de qualquer outra solução.

E se o impulso for bastante forte, os acontecimentos tomarão outra direção. Em vez de pilhar algumas padarias, com risco de jejuar no dia seguinte, o povo das cidades insurgidas tomará posse dos celeiros de trigo, dos matadouros, dos armazéns de comestíveis, em resumo, de todos os alimentos disponíveis. Cidadãos e cidadãs de boa vontade se aplicarão imediatamente a inventariar o que se encontrar em cada loja, em cada celeiro de abundância. Em vinte e quatro horas, a Comuna revoltada saberá o que Paris ainda hoje não sabe, apesar de seus Comitês de estatística, e o que nunca soube durante o cerco: quantas provisões encerra. Em duas vezes vinte e quatro horas já se terão impresso, aos milhões de exemplares, quadros exatos de todos os alimentos, dos lugares onde estão armazenados e dos meios de distribuição.

Em cada quarteirão, em cada rua e em cada bairro, estarão organizados grupos de voluntários, os Voluntários dos Alimentos, que saberão entender-se e manter-se informados sobre seus trabalhos. Que as baionetas jacobinas não venham interpor-se. Que os teóricos supostamente científicos não venham embaralhar coisa alguma, ou antes, que embaralhem quanto quiserem, desde que não tenham o direito de mandar. Então, com esse admirável espírito de organização espontânea que o povo, e sobretudo a nação francesa, possui em grau tão alto em todos os meios sociais, embora tão raramente se lhe permita exercê-lo, surgirá, mesmo numa cidade tão vasta quanto Paris, mesmo em plena efervescência revolucionária, um imenso serviço livremente constituído para fornecer a cada um os alimentos indispensáveis.

Que o povo tenha apenas os braços livres, e em oito dias o serviço dos alimentos se fará com regularidade admirável. É preciso nunca ter visto o povo laborioso em ação, é preciso ter tido a vida inteira o nariz nos papéis, para duvidar disso. Falem do espírito organizador do Grande Desconhecido, o Povo, àqueles que o viram em Paris nos dias das barricadas, ou em Londres durante a última grande greve que teve de alimentar meio milhão de famintos, e eles dirão quanto ele é superior aos burocratas dos escritórios.

Aliás, ainda que se tivesse de suportar durante quinze dias, um mês, certa desordem parcial e relativa, pouco importa. Para as massas, isso sempre será melhor que o que existe hoje. Além disso, em Revolução se janta rindo, ou antes, discutindo, com um salsichão e pão seco, sem murmurar. Em todo caso, aquilo que surgisse espontaneamente sob a pressão das necessidades imediatas seria infinitamente preferível a tudo o que se pudesse inventar entre quatro paredes, no meio dos livros, ou nos escritórios do Paço Municipal.

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