A Conquista do Pão: As Necessidades de Luxo V A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 30 de 55
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A Conquista do Pão: As Necessidades de Luxo V

E a arte? De todos os lados nos chegam queixas sobre a decadência da arte. Estamos longe, de fato, dos grandes mestres da Renascença. A técnica da arte fez recentemente progressos imensos. Milhares de pessoas dotadas de certo talento cultivam todos os seus ramos, e a arte parece fugir do mundo civilizado. A técnica progride, e a inspiração frequenta menos do que nunca as oficinas dos artistas. De onde viria ela, de fato? Só uma grande ideia pode inspirar a arte. Arte, em nosso ideal, é sinônimo de criação. Ela deve lançar o olhar para diante. Salvo algumas raras, muito raras exceções, o artista de profissão permanece ignorante demais, burguês demais, para entrever os novos horizontes. Essa inspiração, aliás, não pode sair dos livros. Deve ser buscada na vida, e a sociedade atual não poderia dá-la.

Rafael e Murillo pintavam em uma época em que a busca de um ideal novo ainda se acomodava às velhas tradições religiosas. Pintavam para decorar as grandes igrejas que, elas próprias, representavam a obra piedosa de várias gerações. A basílica, com seu aspecto misterioso e sua grandeza ligada à própria vida da cidade, podia inspirar o pintor. Ele trabalhava para um monumento popular, dirigia-se a uma multidão e recebia dela, em retorno, a inspiração. Falava-lhe no mesmo sentido em que lhe falavam a nave, os pilares, os vitrais pintados, as estátuas e as portas ornamentadas. Hoje, a maior honra a que o pintor aspira é ver sua tela emoldurada em madeira dourada e pendurada em um museu, uma espécie de loja de quinquilharias, onde se verá, como se vê no Prado, a Ascensão de Murillo ao lado do Mendigo de Velásquez e dos Cães de Filipe II. Pobre Velásquez e pobre Murillo. Pobres estátuas gregas que viviam nas acrópoles de suas cidades e que hoje sufocam sob as cortinas de pano vermelho do Louvre.

Quando um escultor grego talhava seu mármore, procurava traduzir o espírito e o coração da cidade. Todas as suas paixões, todas as suas tradições de glória deviam reviver na obra. Hoje, a cidade integrada deixou de existir. Já não há comunhão de ideias. A cidade é apenas um ajuntamento ocasional de pessoas que não se conhecem e que não têm nenhum interesse geral, salvo o de se enriquecerem umas às custas das outras. A pátria não existe. Que pátria poderiam ter em comum o banqueiro internacional e o trapeiro? Somente quando esta cidade, este território, esta nação ou este grupo de nações tiverem retomado sua unidade na vida social, a arte poderá buscar sua inspiração na ideia comum da cidade ou da federação. Então o arquiteto conceberá o monumento da cidade, que já não será templo, prisão ou fortaleza. Então o pintor, o escultor, o cinzelador e o ornamentista saberão onde colocar suas telas, suas estátuas e suas decorações, todos tomando sua força de execução da mesma fonte vital, e todos marchando juntos, gloriosamente, para o futuro. Até então, a arte só poderá vegetar.

As melhores telas dos pintores modernos ainda são aquelas que representam a natureza, a aldeia, o vale, o mar com seus perigos, a montanha com seus esplendores. Como o pintor poderá representar a poesia do trabalho dos campos se apenas a contemplou, se a imaginou, se nunca a provou ele próprio? Se a conhece apenas como uma ave de passagem conhece os países sobre os quais plana em suas migrações? Se, em todo o vigor de sua bela juventude, não seguiu a charrua desde a aurora, se não saboreou a alegria de derrubar as ervas com um largo golpe de foice ao lado de robustos ceifadores, rivalizando em energia com jovens risonhas que enchem o ar com suas canções? O amor da terra e daquilo que cresce sobre a terra não se adquire fazendo estudos com o pincel. Só se adquire a seu serviço, e sem amá-la, como pintá-la? Eis por que tudo o que os melhores pintores puderam reproduzir nesse sentido ainda é tão imperfeito, muito frequentemente falso, quase sempre sentimentalismo. A força não está ali.

É preciso ter visto, ao voltar do trabalho, o pôr do sol. É preciso ter sido camponês com o camponês para guardar seus esplendores no olhar. É preciso ter estado no mar com o pescador, a toda hora do dia e da noite, ter pescado com as próprias mãos, lutado contra as vagas, enfrentado a tempestade e sentido, depois de rude labor, a alegria de levantar uma rede pesada ou a decepção de voltar vazio, para compreender a poesia da pesca. É preciso ter passado pela fábrica, conhecido as fadigas, os sofrimentos e também as alegrias do trabalho criador, forjado o metal sob as luzes fulgurantes do alto-forno. É preciso ter sentido a máquina viver para saber o que é a força do homem e traduzi-la em uma obra de arte. É preciso, enfim, mergulhar na existência popular para ousar representá-la.

As obras desses artistas do futuro, que terão vivido a vida do povo como os grandes artistas do passado, não serão destinadas à venda. Serão parte integrante de um todo vivo, que sem elas não existiria, como elas não existiriam sem ele. Será ali que virão contemplá-las, e sua beleza altiva e serena produzirá seu efeito benfazejo sobre os corações e os espíritos. Para desenvolver-se, a arte deve ligar-se à indústria por mil graus intermediários, de tal modo que estejam, por assim dizer, confundidas, como tão bem e tão frequentemente demonstraram Ruskin e o grande poeta socialista Morris. Tudo o que cerca o homem, em sua casa, na rua, no interior e no exterior dos monumentos públicos, deve ter uma pura forma artística.

Isso só poderá realizar-se em uma sociedade onde todos gozarão de conforto e lazer. Então se verão surgir associações de arte onde cada um poderá dar prova de suas capacidades, pois a arte não poderia dispensar uma infinidade de trabalhos suplementares puramente manuais e técnicos. Essas associações artísticas se encarregarão de embelezar os lares de seus membros, como fizeram aqueles amáveis voluntários, os jovens pintores de Edimburgo, decorando as paredes e os tetos do grande hospital dos pobres da cidade. Tal pintor ou tal escultor que tiver produzido uma obra de sentimento pessoal, toda de intimidade, a oferecerá à mulher que ama ou a um amigo. Feita com amor, sua obra será inferior às que hoje satisfazem a vaidade dos burgueses e dos banqueiros porque custaram muitos escudos?

O mesmo acontecerá com todas as fruições buscadas fora do necessário. Aquele que quiser um piano de cauda entrará na associação dos fabricantes de instrumentos de música, e dando-lhe uma parte de suas meias jornadas de lazer, logo terá o piano de seus sonhos. Se se apaixonar pelos estudos astronômicos, juntará-se à associação dos astrônomos, com seus filósofos, observadores, calculadores, artistas em instrumentos astronômicos, cientistas e amadores, e terá o telescópio que deseja ao fornecer uma parte de trabalho à obra comum. Pois é sobretudo a grande obra material que um observatório astronômico demanda: trabalhos de pedreiro, carpinteiro, fundidor, mecânico, com o acabamento último dado ao instrumento de precisão pelo artista.

Em uma palavra, as cinco a sete horas por dia de que cada um disporá depois de consagrar algumas horas à produção do necessário bastariam amplamente para satisfazer todas as necessidades de luxo, infinitamente variadas. Milhares de associações se encarregariam de atendê-las. Aquilo que agora é privilégio de uma minoria ínfima seria assim acessível a todos. O luxo, deixando de ser o aparato tolo e gritante dos burgueses, se tornaria uma satisfação artística. Todos seriam mais felizes. No trabalho coletivo, realizado com alegria de coração para atingir um objetivo desejado, livro, obra de arte ou objeto de luxo, cada um encontrará o estímulo e o repouso necessário para tornar a vida agradável. Trabalhando para abolir a divisão entre mestres e escravos, trabalhamos pela felicidade de uns e de outros, pela felicidade da humanidade.

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