A Conquista do Pão: A Agricultura V A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 54 de 55
Obra Menu

A Conquista do Pão: A Agricultura V

Em todos os nossos raciocínios tomamos por base precedentes já admitidos e em parte postos em prática. A cultura intensiva dos campos, as planícies irrigadas por águas de esgoto, a horticultura de mercado e, por fim, a horta sob vidro são realidades. Como Léonce de Lavergne havia previsto há trinta anos, a tendência da agricultura moderna é reduzir tanto quanto possível o espaço cultivado, criar o solo e o clima, concentrar o trabalho e reunir todas as condições necessárias à vida das plantas.

Essa tendência nasceu do desejo de realizar fortes somas de dinheiro com a venda dos primores. Desde que os processos de cultura intensiva foram encontrados, contudo, eles se generalizam e se estendem aos legumes mais comuns, porque permitem obter mais produtos com menos trabalho e mais segurança. Com efeito, depois de estudar os abrigos de vidro mais simples de Guernesey, afirmamos que, feitas todas as contas, gasta-se muito menos trabalho para obter sob vidro, em abril, batatas, do que se gasta para colher essa mesma produção três meses mais tarde, ao ar livre, cavando um espaço cinco vezes maior, regando-o e arrancando as ervas daninhas.

É como acontece com a ferramenta ou a máquina. Economiza-se trabalho empregando uma ferramenta ou uma máquina aperfeiçoada, ainda que seja preciso uma despesa prévia para comprá-la. Faltam-nos ainda números completos sobre a cultura dos legumes comuns sob vidro. Essa cultura é de origem recente e só se faz em pequenos espaços. Temos, entretanto, números referentes ao cultivo, já antigo de cerca de trinta anos, de um objeto de luxo, a uva, e esses números são conclusivos.

No norte da Inglaterra, na fronteira da Escócia, onde o carvão custa apenas quatro francos a tonelada na boca do poço, pratica-se há muito tempo a cultura da uva em estufas aquecidas. Há trinta anos, essas uvas, maduras em janeiro, eram vendidas pelo cultivador a vinte e cinco francos a libra e revendidas a cinquenta francos para a mesa de Napoleão III. Hoje, o mesmo produtor já as vende apenas por três francos a libra. Ele próprio nos informa isso em artigo recente de um jornal de horticultura. É que concorrentes enviam toneladas e toneladas de uvas a Londres e Paris.

Graças ao baixo preço do carvão e a uma cultura inteligente, a uva cresce no inverno ao Norte e faz sua viagem, em sentido contrário ao dos produtos ordinários, para o Sul. Em maio, as uvas inglesas e as de Jersey são vendidas a dois francos a libra pelos jardineiros, e ainda esse preço, como o de cinquenta francos de trinta anos atrás, só se mantém pela fraqueza da concorrência. Em outubro, as uvas cultivadas em quantidades imensas nos arredores de Londres, sempre sob vidro, embora com um pouco de aquecimento artificial, vendem-se pelo mesmo preço que as uvas compradas à libra nas vinhas da Suíça ou do Reno, isto é, por alguns soldos.

Esse preço ainda é caro em dois terços, por causa da renda excessiva do solo, dos gastos de instalação e aquecimento, sobre os quais o jardineiro paga tributo formidável ao industrial e ao intermediário. Explicado isso, pode-se dizer que quase nada custa ter no outono uvas deliciosas sob a latitude e o clima brumoso de Londres. Num de seus subúrbios, por exemplo, um abrigo pobre de vidro e gesso, apoiado contra uma pequena casa, com três metros de comprimento por dois de largura, nos dá em outubro, todos os anos há três anos, perto de cinquenta libras de uvas de gosto requintado.

A colheita vem de um pé de vinha com seis anos de idade. O abrigo é tão ruim que chove dentro dele. À noite, a temperatura ali é sempre a de fora. Evidentemente, ele não é aquecido, pois isso equivaleria a aquecer a rua. Os cuidados a dar são a poda da videira durante meia hora por ano e a entrega de um carrinho de esterco despejado ao pé da cepa, plantada na argila vermelha fora do abrigo. Se, por outro lado, avaliamos os cuidados excessivos dados à vinha nas margens do Reno ou do Léman, os terraços construídos pedra por pedra nas encostas, o transporte do esterco e muitas vezes da terra a uma altura de duzentos ou trezentos pés, chega-se à conclusão de que, no conjunto, a despesa de trabalho necessária para cultivar a vinha é maior na Suíça ou nas margens do Reno do que sob vidro, nos subúrbios de Londres.

Isso pode parecer paradoxal à primeira vista, porque se pensa geralmente que a vinha cresce por si mesma no sul da Europa e que o trabalho do vinhateiro nada custa. Os jardineiros e os horticultores, longe de nos desmentir, confirmam nossas afirmações. A cultura mais vantajosa na Inglaterra é a cultura da vinha, diz um jardineiro prático, redator do Jornal de Horticultura inglês. Os preços, de resto, têm sua eloquência.

Traduzindo esses fatos para a linguagem comunista, podemos afirmar que o homem ou a mulher que tomarem de seus lazeres uma vintena de horas por ano para dar alguns cuidados, muito agradáveis no fundo, a dois ou três pés de vinha plantados sob vidro em qualquer clima da Europa, colherão tanta uva quanto se pode comer em família e entre amigos. Isso se aplica não somente aos produtos da vinha, também aos de todas as árvores frutíferas aclimatadas. A comuna que praticar em grande escala os processos da pequena cultura terá todos os legumes possíveis, indígenas ou exóticos, e todos os frutos desejáveis, sem empregar nisso mais que algumas dezenas de horas por ano e por habitante.

São fatos que se podem verificar desde amanhã. Bastaria que um grupo de trabalhadores suspendesse durante alguns meses a produção de certos objetos de luxo e desse seu trabalho à transformação de cem hectares da planície de Gennevilliers numa série de hortas, cada uma com sua dependência de abrigos de vidro aquecidos para as sementes e as plantas jovens. Que cobrisse, além disso, cinquenta hectares de estufas econômicas para a obtenção de frutos, deixando evidentemente os detalhes da organização a jardineiros e hortelões experientes.

Tomando por base a média de Jersey, que exige o trabalho de sete a oito homens por hectare sob vidro, menos de vinte e quatro mil horas de trabalho por ano, a manutenção desses cento e cinquenta hectares reclamaria a cada ano cerca de três milhões e seiscentas mil horas de trabalho. Cem jardineiros competentes poderiam dar a esse trabalho cinco horas por dia, e o restante seria feito simplesmente por pessoas que, sem serem jardineiras de profissão, soubessem manejar a enxada, o rastelo, a bomba de irrigação ou vigiar um forno.

Esse trabalho daria, pelo cálculo mais baixo, como vimos num capítulo anterior, todo o necessário e todo o luxo possíveis em frutas e legumes para setenta e cinco mil ou cem mil pessoas pelo menos. Admitamos que haja nesse número trinta e seis mil adultos desejosos de trabalhar na horta. Cada um teria, portanto, de consagrar cem horas por ano, repartidas por todo o ano. Essas horas de trabalho se tornariam horas de recreação, passadas entre amigos, com as crianças, em jardins soberbos, provavelmente mais belos que os da lendária Semíramis.

Eis o balanço do esforço a fazer para poder comer à vontade frutas das quais hoje nos privamos e para ter em abundância todos os legumes que a mãe de família raciona tão escrupulosamente quando precisa contar os soldos com que enriquecerá o rentista e o proprietário vampiro. Ah, se a humanidade tivesse apenas consciência daquilo que pode, e se essa consciência lhe desse ao menos a força de querer. Se ela soubesse que a covardia do espírito é o rochedo contra o qual todas as revoluções naufragaram até hoje.

1/1
Menu

Fazer anotação