A Conquista do Pão: A Agricultura IV
Os hortelões, dizíamos, são obrigados a reduzir-se ao estado de máquinas e a renunciar a todas as alegrias da vida para obter suas colheitas fabulosas. Esses rudes cavadores prestaram, contudo, imenso serviço à humanidade, ensinando-nos que se faz o solo. Eles o fazem com os leitos de esterco que já serviram para dar às plantas jovens e aos primores o calor necessário. Fazem o solo em quantidades tão grandes que, a cada ano, são obrigados a revendê-lo em parte. Sem isso, seus jardins se elevariam dois ou três centímetros por ano.
Fazem-no tão bem que, como Barral nos informa no Dicionário de agricultura, no artigo Hortelões, nos contratos recentes o hortelão estipula que levará consigo seu solo quando abandonar a parcela que cultiva. O solo levado em carroças, junto com os móveis e os caixilhos, eis a resposta que os cultivadores práticos deram às elucubrações de Ricardo, que representava a renda como um meio de igualar as vantagens naturais do solo. O solo vale o que vale o homem, essa é a divisa dos jardineiros.
Entretanto, os hortelões parisienses e rouenenses se cansam três vezes mais que seus irmãos de Guernesey e da Inglaterra para obter os mesmos resultados. Aplicando a indústria à agricultura, estes últimos fazem o clima além do solo. Com efeito, toda a cultura hortícola repousa sobre dois princípios: semear sob caixilhos, criar as plantas jovens em um solo rico, num espaço limitado, onde possam ser bem cuidadas e transplantadas mais tarde, quando tiverem desenvolvido bem a cabeleira de suas raízes, e depois amadurecer cedo as colheitas, aquecendo o solo e o ar, cobrindo as plantas com caixilhos ou campânulas e produzindo no solo forte calor pela fermentação do esterco.
Transplantar e manter uma temperatura mais elevada que a do ar, eis a essência da cultura hortícola, uma vez que o solo foi feito artificialmente. A primeira dessas duas condições, como vimos, já é posta em prática e pede apenas alguns aperfeiçoamentos de detalhe. Para realizar a segunda, trata-se de aquecer o ar e a terra substituindo o esterco por água quente que circula em tubos de ferro fundido, seja no solo sob caixilhos, seja no interior das estufas aquecidas.
Isso já se faz. O hortelão parisiense já pede ao termossifão o calor que antigamente pedia ao esterco. E o jardineiro inglês constrói a estufa aquecida. Outrora, a estufa era luxo de rico. Reservava-se às plantas exóticas ou de ornamento. Hoje ela se populariza. Hectares inteiros são cobertos de vidro nas ilhas de Jersey e Guernesey, sem contar as milhares de pequenas estufas que se veem em Guernesey em cada fazenda e em cada jardim. Nos arredores de Londres começa-se a cobrir de vidro campos inteiros, e milhares de pequenas estufas se instalam todos os anos nos subúrbios.
Fazem-se estufas de todas as qualidades, desde aquela de muros de granito até o modesto abrigo fechado por tábuas de pinho e coberto por vidro, que, apesar de todos os parasitas capitalistas, não custa mais de quatro a cinco francos o metro quadrado. Aquece-se ou não se aquece esse abrigo, pois a simples proteção basta enquanto não se visa a produzir primores. Nele se fazem crescer, já agora, menos uvas ou flores tropicais do que batatas, cenouras, ervilhas e feijões.
Assim se emancipa a agricultura do clima. Dispensa-se o trabalho pesado dos leitos aquecidos por esterco. Já não se compram montes de esterco, cujos preços sobem na proporção da procura crescente. Suprime-se em parte o trabalho humano, pois sete ou oito homens bastam para cultivar o hectare sob vidro e obter os mesmos resultados da propriedade de Ponce. Em Jersey, sete homens, trabalhando menos de sessenta horas por semana, obtêm em espaços diminutos colheitas que outrora pediam hectares de terreno.
Poderíamos dar detalhes impressionantes a esse respeito. Limitemo-nos a um exemplo. Em Jersey, trinta e quatro trabalhadores e um jardineiro, cultivando pouco mais de quatro hectares sob vidro, ou setenta homens que dariam a isso apenas cinco horas por dia, obtêm ano após ano as seguintes colheitas: vinte e cinco mil quilos de uvas cortadas desde primeiro de maio, oitenta mil quilos de tomates, trinta mil quilos de batatas em abril, seis mil quilos de ervilhas e dois mil quilos de feijões colhidos em maio. Isso soma cento e quarenta e três mil quilos de frutas e legumes, sem contar uma segunda colheita muito forte em certas estufas, nem uma imensa estufa de ornamentação, nem as colheitas de todos os tipos de pequenas culturas a céu aberto entre as estufas aquecidas.
Cento e quarenta e três toneladas de frutas e primores, eis o bastante para alimentar largamente mais de mil e quinhentas pessoas durante todo o ano. E isso exige apenas vinte e uma mil jornadas de trabalho, isto é, duzentas e dez horas por ano para somente a metade dos mil adultos. Acrescentem-se a extração de cerca de mil toneladas de carvão, quantidade que se queima por ano nessas estufas para aquecer quatro hectares, e, sendo a extração média na Inglaterra de três toneladas por jornada de dez horas por operário, isso dá um trabalho suplementar de seis a sete horas por ano para cada um dos quinhentos adultos.
No conjunto, se apenas a metade dos adultos desse cerca de cinquenta meias-jornadas por ano à cultura de frutas e legumes fora de estação, todos poderiam comer durante o ano inteiro frutas e legumes de luxo em abundância, ainda que fossem obtidos unicamente em estufa aquecida. Ao mesmo tempo, teriam como segunda colheita, nessas mesmas estufas, a maioria dos legumes ordinários que, nos estabelecimentos como o de Ponce, pedem, como vimos, cinquenta jornadas de trabalho.
Acabamos de ver a cultura de luxo. Já dissemos, entretanto, que a tendência atual é fazer da estufa aquecida uma simples horta sob vidro. Quando se aplica a esse uso, obtêm-se, com abrigos de vidro extremamente simples, aquecidos ligeiramente durante três meses, colheitas fabulosas de legumes. Por exemplo, quatrocentos e cinquenta hectolitros de batatas por hectare como primeira colheita no fim de abril. Depois, corrigido o solo, fazem-se crescer novas colheitas de maio ao fim de outubro, numa temperatura quase tropical devida ao abrigo de vidro.
Hoje, para obter quatrocentos e cinquenta hectolitros de batatas, é preciso lavrar todos os anos uma superfície de vinte hectares ou mais, plantar, depois chegar terra aos pés das plantas, arrancar as ervas daninhas à enxada e continuar assim. Sabe-se quanta pena isso exige. Com o abrigo de vidro, talvez se empregue, para começar, uma meia-jornada de trabalho por metro quadrado. Cumprida essa primeira tarefa, economizar-se-á a metade, senão três quartos do trabalho futuro. Eis fatos, eis resultados obtidos, verificados, bem conhecidos, dos quais cada um pode se convencer visitando as culturas. Esses fatos não bastam já para dar uma ideia do que o homem pode obter do solo se o trata com inteligência?