A Conquista do Pão: As Necessidades de Luxo IV
A literatura, a ciência e a arte devem ser servidas por voluntários. É somente com essa condição que conseguirão libertar-se do jugo do Estado, do Capital e da mediocridade burguesa que as sufocam. Que meios tem hoje o cientista para fazer as pesquisas que lhe interessam? Pedir o auxílio do Estado, que só pode ser concedido a um aspirante em cem, e que ninguém obterá se não se comprometer ostensivamente a bater os caminhos já abertos e a marchar nas velhas trilhas. Lembremo-nos do Instituto da França condenando Darwin, da Academia de São Petersburgo repelindo Mendeléiev, e da Sociedade Real de Londres recusando publicar, como "pouco científica", a memória de Joule que continha a determinação do equivalente mecânico do calor.
É por isso que todas as grandes pesquisas, todas as descobertas que revolucionaram a ciência, foram feitas fora das Academias e das Universidades, seja por pessoas bastante ricas para permanecer independentes, como Darwin e Lyell, seja por homens que minavam a saúde trabalhando no aperto e muitas vezes na miséria, por falta de laboratório, perdendo um tempo infinito e sem poder obter os instrumentos ou os livros necessários para continuar suas pesquisas, embora perseverassem contra toda esperança e muitas vezes morressem no trabalho. Seu nome é legião. Aliás, o sistema de auxílios concedidos pelo Estado é tão ruim que, em todos os tempos, a ciência procurou libertar-se dele. É precisamente por isso que a Europa e a América estão cobertas por milhares de sociedades científicas, organizadas e mantidas por voluntários. Algumas tomaram desenvolvimento tão formidável que todos os recursos das sociedades subvencionadas e todas as riquezas dos banqueiros não bastariam para comprar seus tesouros. Nenhuma instituição governamental é tão rica quanto a Sociedade Zoológica de Londres, mantida apenas por contribuições voluntárias.
Ela não compra os animais que, aos milhares, povoam seus jardins. Eles lhe são enviados por outras sociedades e por colecionadores do mundo inteiro. Um dia é um elefante, presente da sociedade zoológica de Bombaim. Outro dia é um hipopótamo e um rinoceronte oferecidos por naturalistas egípcios. Esses magníficos presentes se renovam diariamente, chegando sem cessar dos quatro cantos do globo: aves, répteis, coleções de insetos e muito mais. Esses envios muitas vezes compreendem animais que não se comprariam por todo o ouro do mundo. Tal animal foi capturado com risco de vida por um viajante que se afeiçoou a ele como a uma criança e o entrega à Sociedade porque está seguro de vê-lo bem cuidado ali. O preço de entrada pago pelos visitantes, e eles são inumeráveis, basta para a manutenção dessa imensa coleção viva.
O que falta somente ao jardim zoológico de Londres e a outras sociedades do mesmo gênero é que as contribuições não sejam pagas por trabalho voluntário, que os guardiões e os numerosíssimos empregados desse imenso estabelecimento não sejam reconhecidos como membros da sociedade, e que alguns não tenham outro motivo para entrar nela senão poder inscrever em seus cartões as iniciais cabalísticas de F. Z. S., membro da Sociedade Zoológica. Em uma palavra, o que falta é o espírito de fraternidade e solidariedade. Pode-se dizer dos inventores em geral o que se disse dos cientistas. Quem ignora ao preço de quais sofrimentos quase todas as grandes invenções puderam aparecer? Noites em claro, privação de pão para a família, falta de ferramentas e matérias-primas para as experiências, essa é a história de quase todos aqueles que deram à indústria aquilo que faz o orgulho, o único justo, de nossa civilização.
Que é preciso, então, para sair dessas condições que todos concordam em achar ruins? Tentou-se a patente, e conhecemos os resultados. O inventor faminto a vende por alguns francos, e aquele que nada fez além de emprestar o capital embolsa os benefícios, muitas vezes enormes, da invenção. Além disso, a patente isola o inventor. Obriga-o a manter secretas suas pesquisas, que muitas vezes chegam apenas a um aborto tardio. A sugestão mais simples, vinda de outro cérebro menos absorvido pela ideia fundamental, bastaria algumas vezes para fecundar a invenção e torná-la prática. Como toda autoridade, a patente apenas entrava os progressos da indústria. Injustiça gritante em teoria, já que o pensamento não pode ser patenteado, a patente é, como resultado prático, um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento rápido da invenção.
O que é preciso para favorecer o gênio da descoberta é, antes de tudo, o despertar do pensamento, é a audácia de concepção que toda a nossa educação contribui para enfraquecer, é o saber espalhado a mãos cheias, que centuplica o número de pesquisadores, é enfim a consciência de que a humanidade dará um passo adiante, pois foi muitas vezes o entusiasmo, ou algumas vezes a ilusão do bem, que inspirou todos os grandes benfeitores. Só a revolução social pode dar esse choque ao pensamento, essa audácia, esse saber, essa convicção de trabalhar para todos.
É então que se verão vastas fábricas providas de força motriz e instrumentos de toda espécie, imensos laboratórios industriais abertos a todos os pesquisadores. Ali eles virão trabalhar em seu sonho depois de se desobrigarem de seus deveres para com a sociedade. Ali passarão suas cinco ou seis horas de lazer. Ali farão suas experiências. Ali encontrarão outros camaradas, especialistas em outros ramos da indústria e vindos também estudar algum problema difícil. Poderão ajudar-se, esclarecer-se mutuamente, fazer brotar enfim, do choque das ideias e de sua experiência, a solução desejada. E mais uma vez, isso não é um sonho. Solanoi Gorodok, em Petersburgo, já deu uma realização, parcial ao menos sob o aspecto técnico. É uma fábrica admiravelmente equipada e aberta a todos. Nela se pode dispor gratuitamente dos instrumentos e da força motriz. Só a madeira e os metais são cobrados pelo preço de custo. Os operários, entretanto, só vão ali à noite, esgotados por dez horas de trabalho na oficina. E ocultam cuidadosamente suas invenções de todos os olhares, constrangidos pela patente e pelo Capitalismo, maldição da sociedade atual, pedra de tropeço no caminho do progresso intelectual e moral.