A Conquista do Pão: O Trabalho Agradável I A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 31 de 55
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A Conquista do Pão: O Trabalho Agradável I

Quando os socialistas afirmam que uma sociedade libertada do Capital saberia tornar o trabalho agradável e suprimir toda tarefa repugnante e malsã, riem na cara deles. Entretanto, hoje mesmo se podem ver progressos notáveis realizados nessa direção, e em toda parte onde esses progressos ocorreram os patrões só têm a felicitar-se pela economia de força obtida desse modo. É evidente que a fábrica poderia ser tornada tão sadia e tão agradável quanto um laboratório científico. É igualmente evidente que haveria toda vantagem em fazê-lo. Em uma fábrica espaçosa e bem arejada, o trabalho é melhor. Nela se aplicam facilmente as pequenas melhorias, cada uma das quais representa uma economia de tempo e de mão de obra. Se a maior parte das fábricas continua sendo o lugar infecto e malsão que conhecemos, é porque o trabalhador não conta para nada na organização das manufaturas e porque o desperdício mais absurdo das forças humanas é seu traço distintivo.

Entretanto, já se encontram aqui e ali, em estado de exceções muito raras, algumas fábricas tão bem arranjadas que seria um verdadeiro prazer trabalhar nelas, se o labor não tivesse de durar mais de quatro ou cinco horas por dia, bem entendido, e se cada um tivesse a facilidade de variá-lo segundo seus gostos. Eis uma fábrica, infelizmente consagrada a engenhos de guerra, que nada deixa a desejar sob o aspecto da organização sanitária e inteligente. Ocupa vinte hectares de terreno, dos quais quinze são cobertos por vidraças. O piso de tijolos refratários é tão limpo quanto o de uma casinha de mineiro, e a cobertura de vidro é cuidadosamente limpa por uma equipe de operários que não fazem outra coisa. Ali se forjam lingotes de aço que pesam até vinte toneladas, e quando se está a trinta passos de uma imensa fornalha cujas chamas têm temperatura superior a mil graus, só se adivinha sua presença quando a boca enorme da fornalha deixa escapar um monstro de aço. Esse monstro é manejado por apenas três ou quatro trabalhadores, que abrem ora aqui, ora ali, uma torneira que põe em movimento imensas gruas pela pressão da água nos tubos.

Entra-se preparado para ouvir o barulho ensurdecedor dos golpes de pilão, e descobre-se que não há pilões. Os imensos canhões de cem toneladas e os eixos dos vapores transatlânticos são forjados por pressão hidráulica, e o operário limita-se a girar uma torneira para comprimir o aço que se prensa, em vez de forjá-lo por choque. Isso dá um metal muito mais homogêneo, sem rupturas, em peças de qualquer espessura. Espera-se um rangido infernal, e veem-se máquinas que cortam blocos de aço de dez metros de comprimento sem mais ruído do que o necessário para cortar um queijo. Quando exprimíamos nossa admiração ao engenheiro que nos acompanhava, ele respondia: "Ora, é uma simples questão de economia! Esta máquina que aplaina o aço já nos serve há quarenta e dois anos. Não teria servido dez anos se suas partes, mal ajustadas ou fracas demais, se chocassem, rangessem e gritassem a cada golpe de plaina!"

"Os altos-fornos? Seria uma despesa inútil deixar fugir o calor, em vez de utilizá-lo. Por que grelhar os fundidores quando o calor perdido por radiação representa toneladas de carvão? Os pilões que faziam tremer os edifícios a cinco léguas em redor eram outro desperdício. Forja-se melhor por pressão do que por choque, e isso custa menos. Há menos perda. O espaço dado a cada bancada, a claridade da fábrica, sua limpeza, tudo isso é uma simples questão de economia. Trabalha-se melhor quando se enxerga claro e não se aperta os cotovelos. É verdade", acrescentava ele, "que estávamos muito apertados antes de vir para cá. É que o solo custa terrivelmente caro nos arredores das grandes cidades. Os proprietários são tão rapaces!"

O mesmo acontece com as minas. Ainda que fosse apenas por Zola ou pelos jornais, sabe-se o que é a mina de hoje. Ora, a mina do futuro será bem arejada, com temperatura tão perfeitamente regulada quanto a de uma sala de trabalho, sem cavalos condenados a morrer debaixo da terra. A tração subterrânea se fará por um cabo automático posto em movimento na boca do poço. Os ventiladores estarão sempre em marcha, e jamais haverá explosões. E essa mina não é um sonho. Já se veem minas assim na Inglaterra. Visitamos uma delas. Aqui ainda, esse arranjo é uma simples questão de economia. A mina de que falamos, apesar de sua profundidade imensa de quatrocentos e trinta metros, fornece mil toneladas de hulha por dia com apenas duzentos trabalhadores, isto é, cinco toneladas por dia e por trabalhador, enquanto a média dos dois mil poços da Inglaterra mal chega a trezentas toneladas por ano e por trabalhador.

Se fosse preciso, poderíamos multiplicar os exemplos, demonstrando que, quanto à organização material, o sonho de Fourier de modo algum era uma utopia. Esse assunto, contudo, já foi tratado com frequência nos jornais socialistas e a opinião se formou. A manufatura, a fábrica, a mina, podem ser tão sadias e tão soberbas quanto os melhores laboratórios das universidades modernas, e quanto melhor estiverem organizadas sob esse aspecto, mais produtivo será o trabalho humano. Pois bem, pode-se duvidar de que, em uma sociedade de iguais, onde os "braços" não serão forçados a vender-se sob quaisquer condições, o trabalho se tornará realmente um prazer, um descanso? A tarefa repugnante ou malsã deverá desaparecer, pois é evidente que, nessas condições, ela é nociva à sociedade inteira. Escravos podiam entregar-se a ela. O homem livre criará novas condições de um trabalho agradável e infinitamente mais produtivo. As exceções de hoje serão a regra de amanhã. O mesmo acontecerá com o trabalho doméstico, do qual a sociedade hoje se descarrega sobre o bode expiatório da Humanidade: a mulher.

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