A Conquista do Pão: Os Alimentos IV A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 16 de 55
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A Conquista do Pão: Os Alimentos IV

O povo das grandes cidades será assim levado, pela própria força das coisas, a apoderar-se de todos os alimentos, procedendo do simples ao composto, para satisfazer as necessidades de todos os habitantes. Quanto mais cedo isso for feito, melhor: tanta miséria poupada, tantas lutas internas evitadas. Mas sobre que bases poderia organizar-se o uso comum dos alimentos? Eis a questão que surge naturalmente.

Pois bem, não há duas maneiras diferentes de fazê-lo com equidade. Há uma só, apenas uma, que responde aos sentimentos de justiça e é realmente prática. É o sistema já adotado pelas comunas agrárias na Europa. Tomem uma comuna de camponeses, em qualquer lugar, mesmo na França, onde os jacobinos fizeram de tudo para destruir os usos comunais. Se a comuna possui um bosque, por exemplo, enquanto a lenha miúda não falta, cada um tem o direito de tomar quanto quiser, sem outro controle que a opinião pública dos vizinhos. Quanto à madeira grossa, da qual nunca há o bastante, recorre-se ao racionamento.

O mesmo acontece com os prados comunais. Enquanto há o suficiente para a comuna, ninguém controla o que as vacas de cada família comeram, nem o número de vacas nos prados. Só se recorre à divisão, ou ao racionamento, quando os prados são insuficientes. Toda a Suíça e muitas comunas na França, na Alemanha, e por toda parte onde há prados comunais, praticam esse sistema. E se forem aos países da Europa oriental, onde a madeira grossa se encontra à vontade e onde o solo não falta, verão os camponeses cortar árvores nas florestas segundo suas necessidades, cultivar tanto solo quanto lhes é necessário, sem pensar em racionar a madeira grossa ou dividir a terra em parcelas. A madeira grossa será racionada e a terra partilhada segundo as necessidades de cada família assim que uma e outra faltarem, como já acontece na Rússia.

Em uma palavra: tomada livre do monte para aquilo que se possui em abundância. Racionamento daquilo que deve ser medido e repartido. Dos trezentos e cinquenta milhões de homens que habitam a Europa, duzentos milhões ainda seguem essas práticas inteiramente naturais. Coisa digna de nota: o mesmo sistema prevalece também nas grandes cidades para ao menos um produto que ali se encontra em abundância, a água entregue em domicílio.

Enquanto as bombas bastam para alimentar as casas sem que se tema a falta de água, não ocorre a nenhuma companhia regulamentar o uso que se faz da água em cada família. Tomem quanto lhes agradar. E se há temor de que a água falte em Paris durante os grandes calores, as Companhias sabem muito bem que basta um simples aviso, quatro linhas postas nos jornais, para que os parisienses reduzam seu consumo de água e não a desperdicem demais. Se a água viesse decididamente a faltar, que se faria? Recorrer-se-ia ao racionamento. E essa medida é tão natural, tão presente nos espíritos, que vemos Paris, em 1871, reclamar duas vezes o racionamento dos alimentos durante os dois cercos que sustentou.

Será preciso entrar nos detalhes, preparar quadros sobre a maneira pela qual o racionamento poderia funcionar? Provar que seria justo, infinitamente mais justo que tudo o que existe hoje? Com esses quadros e esses detalhes não chegaríamos a persuadir aqueles burgueses, e, infelizmente, aqueles trabalhadores aburguesados, que consideram o povo uma aglomeração de selvagens prontos a devorar uns aos outros assim que o governo deixa de funcionar. Mas é preciso nunca ter visto o povo deliberar para duvidar um só minuto de que, se fosse senhor de fazer o racionamento, ele o faria segundo os mais puros sentimentos de justiça e equidade.

Vão dizer numa reunião popular que as perdizes devem ser reservadas aos preguiçosos delicados da aristocracia, e o pão preto aos doentes dos hospitais: vocês serão vaiados. Digam nessa mesma reunião, preguem nas esquinas, que a comida mais delicada deve ser reservada aos fracos, primeiro aos doentes. Digam que se houvesse dez perdizes em toda Paris e uma só caixa de Málaga, elas deveriam ser levadas aos quartos dos convalescentes. Digam que a criança vem logo depois do doente. A ela, o leite das vacas e das cabras, se não houver bastante para todos. À criança e ao velho, o último pedaço de carne, e ao homem robusto o pão seco, se a isso se estiver reduzido.

Digam, em uma palavra, que se determinado alimento não se encontra em quantidades suficientes e se é preciso racioná-lo, é àqueles que têm mais necessidade dele que se reservarão as últimas rações. Digam isso, e verão se não terão conquistado o assentimento unânime. Aquilo que o saciado não compreende, o povo compreende. Sempre compreendeu. E mesmo esse saciado, se for lançado à rua, em contato com a massa, também compreenderá.

Os teóricos, para os quais o uniforme e a marmita do soldado são a última palavra da civilização, pedirão sem dúvida que se introduza imediatamente a cozinha nacional e a sopa de lentilhas. Invocarão as vantagens que haveria em economizar combustível e alimentos, estabelecendo imensas cozinhas onde todo mundo viria tomar sua ração de caldo, pão e legumes. Não contestamos essas vantagens. Sabemos muito bem as economias que a humanidade realizou em combustível e trabalho ao renunciar primeiro ao moinho de mão e depois ao forno em que cada um fazia seu pão.

Compreendemos que seria mais econômico cozinhar caldo para cem famílias de uma vez, em lugar de acender cem fogões separados. Sabemos também que há mil maneiras de preparar batatas, mas que, cozidas numa só panela para cem famílias, elas não ficariam piores. Compreendemos enfim que a variedade da cozinha consiste sobretudo no caráter individual do tempero por cada dona de casa, e que o cozimento comum de um quintal de batatas não impediria as donas de casa de temperá-las cada uma à sua maneira. E sabemos que com caldo gordo se pode fazer cem sopas diferentes para satisfazer cem gostos diferentes.

Sabemos tudo isso, e, entretanto, afirmamos que ninguém tem o direito de forçar a dona de casa a tomar no armazém comunal suas batatas já cozidas se ela prefere cozinhá-las em sua própria panela, sobre seu fogo. Queremos sobretudo que cada um possa consumir seu alimento como entender, no seio da família, com amigos, ou mesmo no restaurante, se preferir.

Certamente, grandes cozinhas surgirão no lugar dos restaurantes onde hoje se envenena o mundo. A parisiense já está acostumada a tomar caldo no açougue para fazer uma sopa a seu gosto, e a dona de casa de Londres sabe que pode mandar assar sua carne, e até sua torta de maçã ou ruibarbo, no padeiro, por alguns vinténs, economizando assim seu tempo e seu carvão. E quando a cozinha comum, o forno banal do futuro, já não for lugar de fraude, falsificação e envenenamento, virá o hábito de recorrer a esse forno para obter as partes fundamentais da refeição já prontas, reservando a cada um dar-lhes o último toque segundo seu gosto.

Transformar isso em lei, impor a obrigação de tomar a comida já cozida, seria tão repugnante ao homem do século dezenove quanto as ideias de convento ou de caserna, ideias malsãs nascidas em cérebros pervertidos pelo comando ou deformados por uma educação religiosa. Quem terá direito aos alimentos da Comuna? Essa será certamente a primeira pergunta que se fará. Cada cidade responderá por si mesma, e estamos persuadidos de que as respostas serão todas ditadas pelo sentimento de justiça.

Enquanto os trabalhos não estiverem organizados, enquanto se estiver em período de efervescência e for impossível distinguir entre o preguiçoso ocioso e o desocupado involuntário, os alimentos disponíveis devem ser para todos, sem exceção alguma. Aqueles que tiverem resistido de armas na mão à vitória popular, ou conspirado contra ela, apressar-se-ão por si mesmos em libertar de sua presença o território insurgido. Parece-nos, porém, que o povo, sempre inimigo das represálias e magnânimo, repartirá o pão com todos os que tiverem permanecido em seu seio, sejam expropriadores ou expropriados. Inspirando-se nessa ideia, a Revolução nada terá perdido, e quando o trabalho tiver retomado seu curso, veremos os combatentes da véspera encontrar-se na mesma oficina. Numa sociedade em que o trabalho será livre, não haverá o que temer dos ociosos.

Os víveres faltarão ao cabo de um mês, já gritam os críticos. Tanto melhor, respondemos nós, isso provará que pela primeira vez na vida o proletário terá comido até saciar-se. Quanto aos meios de substituir aquilo que tiver sido consumido, é precisamente essa questão que vamos abordar.

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