A Conquista do Pão: Objeções IV A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 39 de 55
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A Conquista do Pão: Objeções IV

Duvidamos muito, contudo, que haja razão para temer essa eventualidade em uma sociedade realmente baseada na liberdade inteira do indivíduo. Com efeito, apesar do prêmio à ociosidade oferecido pela posse individual do capital, o homem verdadeiramente preguiçoso é relativamente raro, a menos que seja um doente. Diz-se muitas vezes entre trabalhadores que os burgueses são preguiçosos. Há bastantes, de fato, embora esses ainda sejam a exceção. Ao contrário, em cada empresa industrial há sempre um ou vários burgueses que trabalham muito. É verdade que o grande número dos burgueses aproveita sua situação privilegiada para reservar a si os trabalhos menos penosos, e que trabalha em condições higiênicas de alimentação, ar e outras, que lhe permitem cumprir sua tarefa sem fadiga excessiva. Ora, são precisamente essas condições que pedimos para todos os trabalhadores, sem exceção.

É preciso dizer também que, graças à sua posição privilegiada, os ricos fazem muitas vezes trabalho absolutamente inútil ou mesmo nocivo à sociedade. Imperadores, ministros, chefes de repartição, diretores de fábricas, comerciantes, banqueiros e outros se obrigam a fazer, durante algumas horas por dia, um trabalho que acham mais ou menos enfadonho, todos preferindo suas horas de lazer a essa tarefa obrigatória. Se em nove casos de dez essa tarefa é funesta, nem por isso a acham menos fatigante. É precisamente porque os burgueses empregam a maior energia em fazer o mal, conscientemente ou não, e em defender sua posição privilegiada, que venceram a nobreza fundiária e continuam a dominar a massa do povo. Se fossem preguiçosos, há muito tempo não existiriam mais e teriam desaparecido como os saltos vermelhos.

Em uma sociedade que lhes pedisse apenas quatro ou cinco horas por dia de trabalho útil, agradável e higiênico, eles cumpririam perfeitamente sua tarefa e certamente não suportariam, sem reformá-las, as condições horríveis nas quais hoje mantêm o trabalho. Se um Pasteur passasse apenas cinco horas nos esgotos de Paris, podem crer que logo encontraria o meio de torná-los tão salubres quanto seu laboratório bacteriológico. Quanto à preguiça da imensa maioria dos trabalhadores, só economistas e filantropos discursam sobre ela. Falem disso a um industrial inteligente, e ele dirá que, se os trabalhadores pusessem apenas na cabeça a ideia de serem preguiçosos, só restaria fechar todas as fábricas, pois nenhuma medida de severidade, nenhum sistema de espionagem poderia contra isso.

Era preciso ver, no inverno passado, o terror provocado entre os industriais ingleses quando alguns agitadores começaram a pregar a teoria do co-canny, "à má paga, mau trabalho, andem devagar, não se esgotem e estraguem tudo o que puderem". "Desmoralizam o trabalhador, querem matar a indústria!", gritavam aqueles mesmos que antes trovejavam contra a imoralidade do operário e a má qualidade de seus produtos. Se o trabalhador fosse aquilo que os economistas representam, o preguiçoso que é preciso ameaçar sem cessar com a expulsão da oficina, que significaria essa palavra "desmoralização"? Assim, quando se fala de preguiça possível, é preciso compreender bem que se trata de uma minoria, de uma minoria ínfima na sociedade. E antes de legislar contra essa minoria, não seria urgente conhecer sua origem?

Todo aquele que observa com olhar inteligente sabe muito bem que a criança reputada preguiçosa na escola é muitas vezes aquela que compreende mal aquilo que lhe ensinam mal. Muito frequentemente ainda, seu caso provém de anemia cerebral, consequência da pobreza e de uma educação anti-higiênica. Tal menino, preguiçoso para o latim e o grego, trabalharia como um negro se fosse iniciado nas ciências, sobretudo por intermédio do trabalho manual. Tal menina reputada nula em matemática torna-se a primeira matemática de sua classe se, por acaso, encontrou alguém que soube captar e lhe explicar aquilo que ela não compreendia nos elementos da aritmética. E tal operário, negligente na fábrica, cava seu jardim desde a aurora, contemplando o nascer do sol, e de noite, no cair da tarde, quando toda a natureza retorna ao repouso.

Alguém disse que a poeira é matéria fora de seu lugar. A mesma definição se aplica aos nove décimos daqueles que se chamam preguiçosos. São pessoas extraviadas em um caminho que não responde nem a seu temperamento nem às suas capacidades. Lendo as biografias dos grandes homens, ficamos impressionados com o número de preguiçosos entre eles. Preguiçosos enquanto não tinham encontrado seu verdadeiro caminho, laboriosos em excesso mais tarde. Darwin, Stephenson e tantos outros eram desses preguiçosos. Muito frequentemente, o preguiçoso é apenas um homem a quem repugna fazer a vida inteira a décima oitava parte de um alfinete, ou a centésima parte de um relógio, enquanto sente em si uma exuberância de energia que gostaria de gastar em outro lugar. Frequentemente ainda, é um revoltado que não pode admitir a ideia de permanecer a vida inteira pregado a essa bancada, trabalhando para proporcionar mil fruições ao patrão, quando se sabe muito menos tolo que ele e quando seu único erro foi nascer em um pardieiro em vez de vir ao mundo em um castelo.

Enfim, bom número dos preguiçosos não conhece o ofício pelo qual é forçado a ganhar a vida. Vendo a coisa imperfeita que sai de suas mãos, esforçando-se em vão para fazer melhor, percebendo que jamais terá êxito por causa dos maus hábitos de trabalho já adquiridos, toma ódio ao ofício e, não conhecendo outro, ao trabalho em geral. Milhares de operários e artistas malogrados estão nesse caso. Ao contrário, aquele que desde a juventude aprendeu a tocar bem piano, a manejar bem a plaina, o cinzel, o pincel ou a lima, de modo a sentir que aquilo que faz é belo, jamais abandonará o piano, o cinzel ou a lima. Encontrará em seu trabalho um prazer que não o cansará enquanto não for sobrecarregado.

Sob uma única denominação, a preguiça, agrupou-se assim toda uma série de resultados devidos a causas diversas, cada uma das quais poderia tornar-se uma fonte de bem em vez de ser um mal para a sociedade. Aqui, como na criminalidade, como em todas as questões relativas às faculdades humanas, reuniram-se fatos que nada têm em comum entre si. Dizem preguiça ou crime sem sequer dar-se ao trabalho de analisar as causas. Apressam-se em castigá-los sem perguntar se o próprio castigo não contém um prêmio à preguiça ou ao crime. Eis por que uma sociedade livre, vendo crescer em seu seio o número de ociosos, pensaria sem dúvida em procurar as causas de sua preguiça para tentar suprimi-las antes de recorrer aos castigos.

Quando se trata, como dissemos, de um simples caso de anemia, antes de encher de ciência o cérebro da criança, deem-lhe primeiro sangue. Fortaleçam-na e, para que não perca seu tempo, levem-na ao campo ou à beira-mar. Ali ensinem-lhe ao ar livre, e não nos livros, a geometria, medindo com ela as distâncias até os rochedos vizinhos. Ela aprenderá ciências naturais colhendo flores e pescando no mar. Aprenderá física fabricando o barco no qual irá pescar. Por favor, não encham seu cérebro de frases e línguas mortas. Não façam dela uma preguiçosa. Tal criança não tem hábitos de ordem e regularidade. Deixem as crianças inculcá-los umas às outras. Mais tarde, o laboratório e a fábrica, o trabalho em espaço restrito, com muitas ferramentas a manejar, darão o método. Não façam vocês mesmos seres desordenados por meio de sua escola, que só tem ordem na simetria dos bancos e que, verdadeira imagem do caos em seus ensinamentos, jamais inspirará a ninguém o amor da harmonia, da continuidade e do método no trabalho.

Vocês não veem, então, que com seus métodos de ensino, elaborados por um ministério para oito milhões de escolares que representam oito milhões de capacidades diferentes, apenas impõem um sistema bom para mediocridades, imaginado por uma média de mediocridades? Sua escola torna-se uma universidade da preguiça, como sua prisão é uma universidade do crime. Tornem livre a escola, abolam seus graus universitários, chamem os voluntários do ensino. Comecem por aí, em vez de editar contra a preguiça leis que apenas a regimentarão. Deem ao operário que não pode obrigar-se a fabricar uma parte minúscula de um artigo qualquer, que sufoca junto a uma pequena máquina de roscar que acaba odiando, a possibilidade de trabalhar a terra, abater árvores na floresta, correr ao mar contra a tempestade, sulcar o espaço sobre a locomotiva. Não façam dele um preguiçoso forçando-o, a vida inteira, a vigiar uma pequena máquina destinada a furar a cabeça de um parafuso ou abrir o buraco de uma agulha. Suprimam apenas as causas que fabricam os preguiçosos, e creiam que restarão pouquíssimos indivíduos que odeiem realmente o trabalho, sobretudo o trabalho voluntário. Não haverá necessidade de um arsenal de leis para decidir sobre eles.

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