A Conquista do Pão: O Salariato Coletivista II A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 41 de 55
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A Conquista do Pão: O Salariato Coletivista II

Examinemos mais de perto esse sistema de retribuição do trabalho, louvado pelos coletivistas franceses, alemães, ingleses e italianos. Ele se reduz mais ou menos a isto: todo mundo trabalha nos campos, nas fábricas, nas escolas, nos hospitais e nos demais lugares. A jornada de trabalho é regulada pelo Estado, ao qual pertencem a terra, as fábricas, as vias de comunicação e o restante. Cada jornada de trabalho é trocada por um bônus de trabalho, que traz, digamos, estas palavras: oito horas de trabalho. Com esse bônus, o operário pode obter, nos depósitos do Estado ou das diversas corporações, toda espécie de mercadorias. O bônus é divisível, de sorte que se pode comprar carne por uma hora de trabalho, fósforos por dez minutos, ou meia hora de tabaco. Em lugar de dizer quatro vinténs de sabão, dir-se-ia, depois da Revolução coletivista, cinco minutos de sabão.

A maior parte dos coletivistas, fiéis à distinção estabelecida pelos economistas burgueses, e por Marx, entre trabalho qualificado e trabalho simples, dizem-nos além disso que o trabalho qualificado, ou profissional, deverá ser pago certo número de vezes mais que o trabalho simples. Assim, uma hora de trabalho do médico deverá ser considerada equivalente a duas ou três horas de trabalho da enfermeira, ou então a três horas do terraplenador. "O trabalho profissional ou qualificado será um múltiplo do trabalho simples", diz-nos o coletivista Groenlund, porque esse gênero de trabalho exige uma aprendizagem mais ou menos longa. Outros coletivistas, tais como os marxistas franceses, não fazem essa distinção. Proclamam a igualdade dos salários. O médico, o professor primário e o professor superior serão pagos em bônus de trabalho pela mesma taxa que o terraplenador. Oito horas passadas a fazer a ronda do hospital valerão tanto quanto oito horas passadas em trabalhos de terraplenagem, na mina ou na fábrica.

Alguns fazem ainda outra concessão. Admitem que o trabalho desagradável ou malsão, tal como o dos esgotos, poderá ser pago a uma taxa mais elevada que o trabalho agradável. Uma hora de serviço nos esgotos contará, dizem eles, como duas horas de trabalho do professor. Acrescentemos que certos coletivistas admitem a retribuição em bloco por corporações. Assim, uma corporação diria: "Eis cem toneladas de aço. Para produzi-las éramos cem trabalhadores, e empregamos dez dias. Como nossa jornada foi de oito horas, isso faz oito mil horas de trabalho por cem toneladas de aço, isto é, oito horas por tonelada." O Estado lhes pagaria então oito mil bônus de trabalho de uma hora cada um, e esses oito mil bônus seriam repartidos entre os membros da fábrica como lhes parecesse bom. De outro lado, cem mineiros tendo empregado vinte dias para extrair oito mil toneladas de carvão, o carvão valeria duas horas por tonelada, e os dezesseis mil bônus de uma hora cada um, recebidos pela corporação dos mineiros, seriam repartidos entre eles segundo suas apreciações.

Se os mineiros protestassem e dissessem que a tonelada de aço deve custar apenas seis horas de trabalho, em vez de oito, se o professor quisesse fazer pagar sua jornada duas vezes mais que a enfermeira, então o Estado interviria e regularia suas diferenças. Tal é, em poucas palavras, a organização que os coletivistas querem fazer surgir da Revolução social. Como se vê, seus princípios são: propriedade coletiva dos instrumentos de trabalho e remuneração de cada um segundo o tempo empregado em produzir, levando em conta a produtividade de seu trabalho. Quanto ao regime político, seria o parlamentarismo, modificado pelo mandato imperativo e pelo referendo, isto é, o plebiscito por sim ou por não.

Digamos desde logo que esse sistema nos parece absolutamente irrealizável. Os coletivistas começam por proclamar um princípio revolucionário, a abolição da propriedade privada, e o negam assim que o proclamam, mantendo uma organização da produção e do consumo nascida da propriedade privada. Proclamam um princípio revolucionário e ignoram as consequências que esse princípio deve inevitavelmente trazer. Esquecem que o próprio fato de abolir a propriedade individual dos instrumentos de trabalho, solo, fábricas, vias de comunicação, capitais, deve lançar a sociedade em caminhos absolutamente novos. Esquecem que deve transformar de alto a baixo a produção, tanto em seu objeto quanto em seus meios, e que todas as relações cotidianas entre indivíduos devem ser modificadas assim que a terra, a máquina e o restante são considerados posse comum.

"Nada de propriedade privada", dizem eles, e imediatamente se apressam em manter a propriedade privada em suas manifestações cotidianas. "Vocês serão uma Comuna quanto à produção. Os campos, as ferramentas, as máquinas, tudo o que foi feito até hoje, manufaturas, estradas de ferro, portos, minas, tudo isso é de vocês. Não se fará a menor distinção quanto à parte de cada um nessa propriedade coletiva. No dia seguinte, entretanto, vocês disputarão minuciosamente a parte que irão tomar na criação de novas máquinas, na abertura de novas minas. Procurarão pesar exatamente a parte que caberá a cada um na nova produção. Contarão seus minutos de trabalho e cuidarão para que um minuto de seu vizinho não possa comprar mais produtos que o seu."

"E já que a hora nada mede, já que em tal manufatura um trabalhador pode vigiar seis teares ao mesmo tempo, enquanto em outra fábrica vigia apenas dois, vocês pesarão a força muscular, a energia cerebral e a energia nervosa que tiverem gasto. Calcularão estritamente os anos de aprendizagem para avaliar a parte de cada um na produção futura. Tudo isso depois de terem declarado que não levam em conta a parte que ele pôde ter tomado na produção passada." Pois bem, para nós é evidente que uma sociedade não pode organizar-se sobre dois princípios absolutamente opostos, dois princípios que se contradizem continuamente. A nação ou a comuna que se desse semelhante organização seria forçada a voltar à propriedade privada ou a transformar-se imediatamente em sociedade comunista.

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