A Conquista do Pão: A Moradia II
Se a ideia de expropriação se tornar popular, sua execução de modo algum encontrará os obstáculos insuperáveis com que gostam de nos ameaçar. Certamente, os senhores enfeitados de galões que tiverem ocupado as cadeiras vazias dos ministérios e da Prefeitura não deixarão de acumular dificuldades. Falarão em conceder indenizações aos proprietários, em levantar estatísticas, em elaborar longos relatórios, tão longos que poderiam durar até o momento em que o povo, esmagado pela miséria do desemprego, sem ver nada chegar e perdendo sua fé na Revolução, deixasse o campo livre aos reacionários e acabasse tornando odiosa para todos a expropriação burocrática. Há nisso, de fato, um escolho capaz de fazer tudo naufragar. Se o povo não se entregar aos falsos raciocínios com que procurarão deslumbrá-lo, se compreender que uma vida nova pede procedimentos novos e se tomar ele próprio a tarefa em suas mãos, então a expropriação poderá realizar-se sem grandes dificuldades.
"Como? De que modo ela poderia realizar-se?", perguntarão. Vamos dizê-lo, com uma reserva. Repugna-nos traçar em todos os seus mínimos detalhes planos de expropriação. Sabemos de antemão que tudo aquilo que um homem, ou um grupo, possa sugerir hoje será ultrapassado pela vida humana. Esta, como já dissemos, fará melhor e com mais simplicidade do que tudo o que se poderia ditar antecipadamente. Assim, ao esboçar o método pelo qual a expropriação e a repartição das riquezas expropriadas poderiam ser feitas sem intervenção do governo, queremos apenas responder aos que declaram a coisa impossível. Fazemos questão, porém, de lembrar que de nenhuma maneira pretendemos recomendar esta ou aquela forma de organização. O que nos importa é demonstrar somente que a expropriação pode ser feita pela iniciativa popular e que, fora dela, não se fará.
É de prever que, desde os primeiros atos de expropriação, surjam no bairro, na rua, no quarteirão, grupos de cidadãos de boa vontade que venham oferecer seus serviços para averiguar o número de apartamentos vazios, os apartamentos abarrotados por famílias numerosas, as moradias insalubres e as casas que, espaçosas demais para seus ocupantes, poderiam ser ocupadas por aqueles a quem falta ar em seus casebres. Em poucos dias esses voluntários levantarão, para a rua e para o bairro, listas completas de todos os apartamentos, sadios e insalubres, estreitos e espaçosos, das moradias infectas e das residências suntuosas. Livremente comunicarão suas listas uns aos outros, e em poucos dias terão estatísticas completas. A estatística mentirosa pode ser fabricada nos gabinetes. A estatística verdadeira e exata só pode vir do indivíduo, subindo do simples ao composto.
Então, sem esperar nada de ninguém, esses cidadãos irão provavelmente procurar seus companheiros que habitam pardieiros e lhes dirão com toda simplicidade: "Desta vez, camaradas, é a revolução de verdade. Venham esta noite a tal lugar. Todo o bairro estará lá, e os apartamentos serão repartidos. Se vocês não têm apego ao seu casebre, escolherão um dos apartamentos de cinco peças que estão disponíveis. E, quando tiverem feito a mudança, o caso estará resolvido. O povo armado falará com quem quiser vir desalojá-los". "Todos vão querer um apartamento de vinte peças", dirão. Pois bem, isso não é verdade. O povo jamais pediu que lhe entregassem a lua dentro de um balde. Ao contrário, sempre que vemos iguais chamados a reparar uma injustiça, ficamos impressionados com o bom senso e com o sentimento de justiça que animam a massa. Já se viu o povo reclamar o impossível? Já se viu o povo de Paris brigar quando ia buscar sua ração de pão ou de lenha durante os dois cercos? Fazia-se fila com uma resignação que os correspondentes dos jornais estrangeiros não cessavam de admirar, e todos sabiam muito bem que os últimos passariam o dia sem pão e sem fogo.
Certamente há bastante instinto egoísta nos indivíduos isolados de nossas sociedades. Sabemos disso muito bem. Também sabemos que o melhor meio de despertar e alimentar esses instintos seria confiar a questão das moradias a um gabinete qualquer. Então, de fato, todas as paixões ruins viriam à tona. Cada um procuraria ter uma mão poderosa no gabinete. A menor desigualdade faria nascer altos gritos, a menor vantagem concedida a alguém faria gritar contra subornos, e com razão. Quando o próprio povo, reunido por ruas, bairros e distritos, se encarregar de fazer os habitantes dos pardieiros mudarem para os apartamentos espaçosos demais dos burgueses, os pequenos inconvenientes e as pequenas desigualdades serão tomados com leveza. Raramente se apelou aos bons instintos das massas. Isso aconteceu algumas vezes, entretanto, durante as revoluções, quando se tratava de salvar a barca que afundava, e jamais houve engano: o homem de labuta respondia sempre ao chamado com grandes dedicações.
O mesmo acontecerá na próxima revolução. Apesar de tudo, haverá provavelmente injustiças. Não se poderia evitá-las. Há indivíduos em nossas sociedades que nenhum grande acontecimento conseguirá tirar do sulco egoísta. A questão, contudo, não é saber se haverá injustiças ou se elas desaparecerão por completo. Trata-se de saber como será possível limitar seu número. Pois bem, toda a história, toda a experiência da humanidade, assim como a psicologia das sociedades, estão aí para dizer que o meio mais equitativo é entregar a questão aos interessados. Só eles poderão, aliás, levar em consideração e resolver os mil detalhes que escapam necessariamente a qualquer repartição burocrática.