A Conquista do Pão: As Necessidades de Luxo II
Confessamos francamente que, quando pensamos nos abismos de miséria e sofrimento que nos cercam, quando ouvimos os refrões dilacerantes dos operários que percorrem as ruas pedindo trabalho, repugna-nos discutir esta questão: como se fará, em uma sociedade onde todos terão comido conforme sua fome, para satisfazer tal pessoa desejosa de possuir uma porcelana de Sèvres ou uma roupa de veludo? Como resposta, somos tentados a dizer: asseguremos primeiro o pão. Quanto à porcelana e ao veludo, veremos mais tarde. Já que é preciso reconhecer, entretanto, que fora dos alimentos o homem tem outras necessidades, e já que a força da Anarquia está precisamente em compreender todas as faculdades humanas e todas as paixões, sem ignorar nenhuma, diremos em poucas palavras como se poderia organizar a satisfação das necessidades intelectuais e artísticas do homem.
Trabalhando cinco ou quatro horas por dia até a idade de quarenta e cinco ou cinquenta anos, dissemos, o homem poderia facilmente produzir tudo o que é necessário para garantir conforto à sociedade. A jornada do homem habituado ao trabalho e preso a uma máquina não é de cinco horas. É de dez horas, trezentos dias por ano, e durante toda a vida. Assim se mata a saúde e se embota a inteligência. Entretanto, quando se pode variar as ocupações e, sobretudo, alternar o labor manual com o trabalho intelectual, permanece-se ocupado de bom grado, sem cansaço, dez e doze horas. Isso é normal. O homem que tiver feito quatro ou cinco horas de trabalho manual necessário para viver ainda terá diante de si cinco ou seis horas que procurará preencher conforme seus gostos. E essas cinco ou seis horas por dia lhe darão plena possibilidade de obter, associando-se a outros, tudo o que quiser fora do necessário assegurado a todos.
Ele se desobrigará primeiro, nos campos ou nas fábricas, do trabalho que deverá à sociedade como sua parte de contribuição à produção geral. Empregará a outra metade de seu dia, de sua semana ou de seu ano na satisfação de suas necessidades artísticas ou científicas. Mil sociedades nascerão, correspondendo a todos os gostos e a todas as fantasias possíveis. Uns, por exemplo, poderão entregar suas horas de lazer à literatura. Então formarão grupos que compreendam escritores, compositores, impressores, gravadores e desenhistas, todos perseguindo um objetivo comum: a propagação das ideias que lhes são caras.
Hoje, o escritor sabe que há um animal de carga, o operário, ao qual pode confiar, por três ou quatro francos ao dia, a impressão de seus livros, e pouco se preocupa em saber o que é uma tipografia. Se o compositor é envenenado pela poeira de chumbo, e se a criança que serve a máquina morre de anemia, não há outros miseráveis para substituí-los? Quando já não houver famintos prontos a vender os braços por uma ração magra, quando o explorado de ontem tiver recebido instrução e tiver suas ideias a deitar no papel e a comunicar aos outros, os literatos e os sábios serão forçados a associar-se entre si para imprimir sua prosa ou seus versos.
Enquanto o escritor considerar a blusa operária e o trabalho manual como sinal de inferioridade, parecer-lhe-á espantoso ver um autor compor ele próprio seu livro em caracteres de chumbo. Acaso não tem a sala de ginástica ou o dominó para distrair-se? Quando o opróbrio ligado ao trabalho manual tiver desaparecido, quando todos forem forçados a usar os braços, sem ter mais sobre quem descarregar essa parte, então os escritores, assim como seus admiradores e admiradoras, aprenderão depressa a arte de manejar o componedor ou o aparelho de caracteres. Conhecerão a alegria de vir todos juntos, todos apreciadores da obra que se imprime, compô-la e vê-la sair, tirá-la bela em sua pureza virginal de uma máquina rotativa. Essas máquinas soberbas, instrumentos de tortura para a criança que as serve hoje da manhã à noite, se tornarão uma fonte de alegrias para aqueles que as empregarão a fim de dar voz ao pensamento de seu autor favorito.
A literatura perderá algo com isso? O poeta será menos poeta depois de ter trabalhado nos campos ou colaborado com as próprias mãos para multiplicar sua obra? O romancista perderá seu conhecimento do coração humano depois de ter esbarrado no homem dentro da fábrica, na floresta, no traçado de uma estrada e na oficina? Formular essas perguntas é respondê-las. Certos livros talvez sejam menos volumosos, e se imprimirão menos páginas para dizer mais. Talvez se publique menos papelada sem valor, e aquilo que for impresso será mais bem lido, mais bem apreciado. O livro se dirigirá a um círculo mais vasto de leitores mais instruídos e mais aptos a julgá-lo.
Além disso, a arte da impressão, que tão pouco progrediu desde Gutenberg, ainda está na infância. É preciso empregar duas horas para compor em letras móveis aquilo que se escreve em dez minutos, e buscam-se procedimentos mais rápidos para multiplicar o pensamento. Eles serão encontrados. Ah, se cada escritor tivesse de tomar sua parte na impressão dos próprios livros, que progresso a imprensa já teria feito! Já não estaríamos nas letras móveis do século dezessete. É um sonho que fazemos? Certamente não para aqueles que observaram e refletiram. Neste mesmo momento, a vida já nos empurra nessa direção.