A Conquista do Pão: O Livre Acordo I
Habituados que estamos, por preconceitos hereditários, por uma educação e uma instrução absolutamente falsas, a ver em toda parte governo, legislação e magistratura, chegamos a acreditar que os homens se estraçalhariam como feras no dia em que o policial deixasse de manter os olhos abertos sobre nós, e que tudo seria caos se a autoridade naufragasse em algum cataclismo. Passamos, sem perceber, ao lado de milhares de agrupamentos humanos que se fazem livremente, sem intervenção alguma da lei, e que conseguem realizar coisas infinitamente superiores àquelas que se cumprem sob tutela governamental. Abram um jornal cotidiano. Suas páginas são inteiramente consagradas aos atos dos governos, às maquinações políticas. Ao lê-lo, um chinês acreditaria que na Europa nada se faz sem a ordem de algum senhor. Procurem ali qualquer coisa sobre as instituições que nascem, crescem e se desenvolvem sem prescrições ministeriais. Nada, ou quase nada. Se existe até uma rubrica de "fatos diversos", é porque eles se relacionam com a polícia. Um drama de família, um ato de revolta, só serão mencionados se os guardas aparecerem.
Trezentos e cinquenta milhões de europeus se amam ou se odeiam, trabalham ou vivem de suas rendas, sofrem ou gozam. Sua vida, seus atos, salvo a literatura, o teatro e o esporte, tudo permanece ignorado pelos jornais enquanto os governos não intervêm de uma maneira ou de outra. O mesmo acontece com a história. Conhecemos os menores detalhes da vida de um rei ou de um parlamento. Conservaram-nos todos os discursos, bons e ruins, pronunciados nas casas de tagarelice, discursos que jamais influíram no voto de um único membro, como dizia um velho parlamentar. As visitas dos reis, o bom ou mau humor do político, seus trocadilhos e suas intrigas, tudo isso é cuidadosamente guardado para a posteridade. Temos, porém, todas as dificuldades do mundo para reconstituir a vida de uma cidade da Idade Média, conhecer o mecanismo desse imenso comércio de trocas que se fazia entre as cidades hanseáticas, ou saber como a cidade de Rouen construiu sua catedral. Se algum sábio passou a vida estudando isso, suas obras permanecem desconhecidas, enquanto as histórias parlamentares, isto é, falsas, pois só falam de um lado da vida das sociedades, multiplicam-se, espalham-se e são ensinadas nas escolas.
Nem sequer percebemos o trabalho prodigioso que o agrupamento espontâneo dos homens realiza a cada dia, e que constitui a obra capital de nosso século. É por isso que nos propomos assinalar algumas das manifestações mais impressionantes desse trabalho e mostrar que os homens, desde que seus interesses não sejam absolutamente contraditórios, entendem-se admiravelmente para a ação comum em questões muito complexas. É evidente que, na sociedade atual, baseada na propriedade individual, isto é, na espoliação e no individualismo estreito e estúpido, os fatos desse gênero são necessariamente limitados. O acordo nem sempre é perfeitamente livre e funciona muitas vezes para um objetivo mesquinho, quando não execrável. O que nos importa não é encontrar exemplos a imitar às cegas, e que, de resto, a sociedade atual não poderia fornecer. O que precisamos é mostrar que, apesar do individualismo autoritário que nos sufoca, há sempre no conjunto de nossa vida uma parte vastíssima em que só se age pelo livre acordo, e que é muito mais fácil do que se pensa dispensar o governo.
Em apoio de nossa tese, já citamos as estradas de ferro, e voltaremos a elas. Sabe-se que a Europa possui uma rede ferroviária de duzentos e oitenta mil quilômetros, e que sobre essa rede pode-se circular hoje do norte ao sul, do poente ao levante, de Madri a Petersburgo e de Calais a Constantinopla, sem sofrer paradas, sem sequer trocar de vagão quando se viaja em trem expresso. Melhor ainda: um pacote entregue em uma estação irá encontrar o destinatário em qualquer lugar, na Turquia ou na Ásia Central, sem outra formalidade para o remetente além de escrever o destino em um pedaço de papel.
Esse resultado poderia ser obtido de duas maneiras. Ou um Napoleão, um Bismarck, um potentado qualquer teria conquistado a Europa e, de Paris, Berlim ou Roma, teria traçado em um mapa a direção das vias férreas e regulado a marcha dos trens. O idiota coroado Nicolau I sonhou agir assim. Quando lhe apresentaram projetos de caminhos de ferro entre Moscou e Petersburgo, tomou uma régua e traçou no mapa da Rússia uma linha reta entre suas duas capitais, dizendo: "Eis o traçado". E a estrada se fez em linha reta, aterrando ravinas profundas, erguendo pontes vertiginosas que tiveram de ser abandonadas depois de alguns anos, custando em média dois a três milhões por quilômetro. Esse é um dos meios. Em outros lugares procedeu-se de outra forma. As estradas de ferro foram construídas por trechos. Os trechos foram ligados entre si. Depois, as cem companhias diversas às quais esses trechos pertenciam procuraram entender-se para fazer concordar seus trens na chegada e na partida, para fazer rodar sobre seus trilhos vagões de toda procedência sem descarregar as mercadorias que passavam de uma rede a outra.
Tudo isso se fez pelo livre acordo, pela troca de cartas e propostas, por congressos nos quais os delegados vinham discutir tal questão especial, não para legislar. Depois dos congressos, os delegados voltavam às suas companhias sem uma lei nas mãos, trazendo um projeto de contrato a ratificar ou rejeitar. Certamente houve atritos. Certamente houve obstinados que não queriam deixar-se convencer. O interesse comum acabou, entretanto, por pôr todos de acordo sem que fosse preciso invocar exércitos contra os recalcitrantes.
Essa imensa rede de estradas de ferro ligadas entre si, e esse prodigioso tráfego a que ela dá lugar, constituem certamente o traço mais impressionante de nosso século, e devem-se ao livre acordo. Se alguém o tivesse previsto e anunciado cinquenta anos atrás, nossos avós o teriam julgado louco ou imbecil. Teriam exclamado: "Jamais conseguirão fazer cem companhias de acionistas ouvirem razão! É uma utopia, um conto de fadas que vocês nos contam. Só um governo central, com um diretor de punho firme, poderia impô-lo". Pois bem, o que há de mais interessante nessa organização é que não existe governo central europeu das estradas de ferro. Nada disso. Não há ministro das estradas de ferro, não há ditador, nem mesmo parlamento continental, nem comitê dirigente. Tudo se faz por contrato.
Perguntamos então ao estatista que pretende que "jamais se poderá dispensar o governo central, nem que seja para regular o tráfego": como as ferrovias da Europa conseguem dispensá-lo? Como conseguem fazer viajar milhões de passageiros e montanhas de mercadorias por todo um continente? Se as companhias proprietárias das estradas de ferro puderam entender-se, por que os trabalhadores que tomassem posse das linhas férreas não se acordariam da mesma maneira? E se a companhia de Petersburgo-Varsóvia e a de Paris-Belfort podem agir em conjunto sem conceder-se o luxo de um comandante para uma e para outra, por que, no seio de nossas sociedades, cada uma constituída por um grupo de trabalhadores livres, haveria necessidade de um governo?