A Conquista do Pão: O Livre Acordo III
Quantas vezes não lemos nos escritos dos socialistas estatistas exclamações deste gênero: "E quem se encarregará, na sociedade futura, de regularizar o tráfego nos canais? Se passasse pela cabeça de um de seus companheiros anarquistas pôr a barca atravessada em um canal e barrar a via a milhares de barcos, quem o traria de volta à razão?" Confessemos que a suposição é um pouco fantasiosa. Poderiam acrescentar: "E se, por exemplo, tal comuna ou tal grupo quisesse fazer passar suas barcas antes das outras, entulhariam o canal para carregar, talvez, pedras, enquanto o trigo destinado a outra comuna ficaria em sofrimento. Quem regularizaria a marcha dos barcos, se não o governo?" Pois bem, a vida real mostrou mais uma vez que se pode muito bem dispensar o governo, aqui como em outros lugares. O livre acordo, a livre organização, substituem essa máquina custosa e nociva, e fazem melhor.
Sabe-se o que são os canais para a Holanda. São suas estradas. Sabe-se também que tráfego se faz nesses canais. Aquilo que entre nós se transporta por uma estrada empedrada ou férrea se transporta na Holanda pela via dos canais. Ali é que se poderia brigar para fazer passar os barcos antes dos outros. Ali é que o governo deveria intervir para pôr ordem no tráfego. Pois bem, nada disso. Mais práticos, os holandeses há muito souberam arranjar-se de outro modo, criando espécies de guildas, sindicatos de barqueiros. Eram associações livres, surgidas das próprias necessidades da navegação. A passagem dos barcos fazia-se segundo certa ordem de inscrição. Todos se seguiam por turno. Nenhum devia ultrapassar os outros, sob pena de ser excluído do sindicato. Nenhum estacionava mais que certo número de dias nos portos de embarque, e se durante esse tempo não encontrasse mercadorias a tomar, azar o seu: partia vazio e deixava o lugar aos recém-chegados. O congestionamento era assim evitado, mesmo quando a concorrência dos empresários, consequência da propriedade individual, permanecia intacta. Suprimam essa concorrência, e o acordo seria ainda mais cordial, mais equitativo para todos.
Nem é preciso dizer que o proprietário de cada barco podia aderir ou não ao sindicato. Isso era assunto dele, e a maioria preferia juntar-se. Os sindicatos oferecem, aliás, vantagens tão grandes que se espalharam pelo Reno, pelo Weser, pelo Oder, até Berlim. Os barqueiros não esperaram que o grande Bismarck anexasse a Holanda à Alemanha e nomeasse um Ober-Haupt-General-Staats-Canal-Navigations-Rath com um número de galões correspondente ao comprimento de seu título. Preferiram entender-se internacionalmente. Mais que isso, muitos veleiros que fazem o serviço entre os portos alemães e os da Escandinávia, assim como da Rússia, também aderiram a esses sindicatos, a fim de regularizar o tráfego no Báltico e pôr certa harmonia no cruzamento dos navios. Surgidas livremente, recrutando seus aderentes voluntários, essas associações nada têm a ver com os governos.
Pode ser, e em todo caso é muito provável, que aqui ainda o grande capital oprima o pequeno. Pode ser também que o sindicato tenha tendência a erguer-se em monopólio, sobretudo com o patrocínio precioso do Estado, que certamente procurará meter-se nisso. Apenas não esqueçamos que esses sindicatos representam uma associação cujos membros têm somente interesses pessoais. Se cada armador fosse forçado, pela socialização da produção, do consumo e da troca, a fazer parte ao mesmo tempo de cem outras associações necessárias à satisfação de suas necessidades, as coisas mudariam de aspecto. Poderoso sobre a água, o grupo dos barqueiros sentir-se-ia fraco em terra firme e reduziria suas pretensões para entender-se com as estradas de ferro, as manufaturas e todos os outros agrupamentos. Em todo caso, sem falar do futuro, eis ainda uma associação espontânea que pôde dispensar o governo. Passemos a outros exemplos.
Já que estamos falando de navios e barcos, mencionemos uma das mais belas organizações surgidas em nosso século, uma daquelas das quais podemos nos orgulhar com toda justiça: a Associação inglesa de salvamento, Lifeboat Association. Sabe-se que a cada ano mais de mil navios vêm encalhar nas costas da Inglaterra. Em alto-mar, um bom navio raramente teme a tempestade. É perto das costas que o esperam os perigos: mar encapelado que lhe quebra a popa, rajadas que arrancam mastros e velas, correntes que o tornam ingovernável, recifes e baixios onde vem encalhar. Mesmo quando antigamente os habitantes das costas acendiam fogos para atrair navios aos recifes e apoderar-se, segundo o costume, de suas cargas, sempre fizeram o possível para salvar a tripulação. Avistando um navio em perigo, lançavam suas cascas de noz ao mar e acorriam ao socorro dos náufragos, muitas vezes para encontrar eles próprios a morte nas ondas. Cada aldeia à beira-mar tem suas lendas de heroísmo, exercido pela mulher tanto quanto pelo homem, para salvar tripulações perdidas.
O Estado e os sábios fizeram alguma coisa para diminuir o número dos sinistros. Os faróis, os sinais, as cartas e os avisos meteorológicos certamente o reduziram muito. Ainda restam, porém, a cada ano, cerca de mil navios e vários milhares de vidas humanas a salvar. Por isso alguns homens de boa vontade meteram-se à obra. Bons marinheiros eles próprios, imaginaram um barco de salvamento que pudesse enfrentar a tempestade sem virar nem afundar, e fizeram campanha para interessar o público na empresa, encontrar o dinheiro necessário, construir barcos e colocá-los nas costas em todos os lugares onde pudessem prestar serviços. Esses homens, que não eram jacobinos, não se dirigiram ao governo. Tinham compreendido que, para levar adiante sua empresa, precisavam do concurso dos marinheiros, de seu entusiasmo, de seu conhecimento dos lugares e, sobretudo, de sua dedicação. Para encontrar homens que, ao primeiro sinal, se lancem à noite no caos das ondas, sem se deixar deter pelas trevas nem pelos rebentadores, lutando cinco, seis, dez horas contra as vagas antes de abordar o navio em perigo, homens prontos a jogar a própria vida para salvar a dos outros, é preciso o sentimento de solidariedade, o espírito de sacrifício que não se compra com galões.
Foi, portanto, um movimento inteiramente espontâneo, nascido do livre acordo e da iniciativa individual. Centenas de grupos locais surgiram ao longo das costas. Os iniciadores tiveram o bom senso de não se colocarem como mestres: buscaram suas luzes nas aldeias de pescadores. Se um lord enviava vinte e cinco mil francos para construir um barco de salvamento em uma aldeia da costa, a oferta era aceita, e a escolha do lugar ficava aos pescadores e marinheiros da região. Os planos dos novos barcos não foram feitos no Almirantado. "Como importa", lê-se no relatório da Associação, "que os salvadores tenham plena confiança na embarcação que montam, o Comitê impõe a si mesmo, antes de tudo, a tarefa de dar aos barcos a forma e o equipamento que os próprios salvadores possam desejar". Assim, cada ano traz um aperfeiçoamento novo. Tudo pelos voluntários, organizando-se em comitês ou grupos locais. Tudo pelo auxílio mútuo e pelo acordo. Oh, os anarquistas! Também nada pedem aos contribuintes, e no ano passado recebiam um milhão e setenta e seis mil francos de contribuições espontâneas.
Quanto aos resultados, ei-los: a Associação possuía em 1891 duzentos e noventa e três barcos de salvamento. Nesse mesmo ano salvava seiscentos e um náufragos e trinta e três navios. Desde sua fundação, salvou trinta e dois mil seiscentos e setenta e um seres humanos. Em 1886, três barcos de salvamento com todos os seus homens tendo perecido nas ondas, centenas de novos voluntários vieram inscrever-se, constituir-se em grupos locais, e essa agitação teve como resultado a construção de cerca de vinte barcos suplementares. Notemos de passagem que a Associação envia todos os anos aos pescadores e marinheiros excelentes barômetros a preço três vezes menor que seu valor real. Propaga os conhecimentos meteorológicos e mantém os interessados informados das variações súbitas previstas pelos sábios. Repitamos que as centenas de pequenos comitês ou grupos locais não são organizadas hierarquicamente e se compõem unicamente de voluntários salvadores e de pessoas interessadas nessa obra. O Comitê central, que é sobretudo um centro de correspondência, não intervém de modo algum.
É verdade que, quando se trata no cantão de votar sobre uma questão de educação ou imposto local, esses comitês não tomam parte nas deliberações como tais, modéstia que os eleitos de um conselho municipal infelizmente não imitam. Por outro lado, esses bravos homens não admitem que aqueles que nunca enfrentaram a tempestade lhes façam leis sobre o salvamento. Ao primeiro sinal de perigo, acorrem, combinam-se e avançam. Nada de galões, muita boa vontade. Tomemos outra sociedade do mesmo gênero, a Cruz Vermelha. Pouco importa seu nome: vejamos o que ela é. Imaginem alguém vindo dizer há vinte e cinco anos: "O Estado, por mais capaz que seja de mandar massacrar vinte mil homens em um dia e ferir cinquenta mil, é incapaz de socorrer suas próprias vítimas. É preciso, portanto, enquanto a guerra existir, que a iniciativa privada intervenha e que os homens de boa vontade se organizem internacionalmente para essa obra de humanidade!" Que dilúvio de zombarias não teria caído sobre quem ousasse falar assim. Primeiro o teriam tratado de utopista, e se depois consentissem em abrir a boca, responderiam: "Os voluntários faltarão precisamente onde a necessidade for maior. Seus hospitais livres estarão todos centralizados em lugar seguro, enquanto faltará o indispensável às ambulâncias. As rivalidades nacionais farão com que os pobres soldados morram sem socorro." Tantos oradores, tantas reflexões desencorajadoras. Quem de nós não ouviu discorrer nesse tom?
Pois bem, sabemos o que aconteceu. Sociedades da Cruz Vermelha organizaram-se livremente, por toda parte, em cada país, em milhares de localidades, e quando estourou a guerra de 1870 e 1871, os voluntários puseram-se à obra. Homens e mulheres vieram oferecer seus serviços. Hospitais e ambulâncias foram organizados aos milhares. Trens foram lançados levando ambulâncias, víveres, roupa branca e medicamentos para os feridos. Os comitês ingleses enviaram comboios inteiros de alimentos, roupas, ferramentas, sementes para plantio, animais de tração, até arados a vapor com seus condutores para ajudar na lavoura dos departamentos devastados pela guerra. Consultem apenas A Cruz Vermelha, de Gustave Moynier, e ficarão realmente impressionados com a imensidade do trabalho cumprido. Quanto aos profetas sempre prontos a negar aos outros homens a coragem, o bom senso e a inteligência, julgando-se os únicos capazes de conduzir o mundo à vara, nenhuma de suas previsões se realizou.
A dedicação dos voluntários da Cruz Vermelha esteve acima de todo elogio. Eles só pediam ocupar os postos mais perigosos, e enquanto médicos assalariados pelo Estado fugiam com seu estado-maior à aproximação dos prussianos, os voluntários da Cruz Vermelha continuavam sua tarefa sob as balas, suportando as brutalidades dos oficiais bismarckianos e napoleônicos, prodigando os mesmos cuidados aos feridos de toda nacionalidade. Holandeses e italianos, suecos e belgas, até japoneses e chineses, entendiam-se admiravelmente. Repartiam seus hospitais e suas ambulâncias segundo as necessidades do momento. Rivalizavam sobretudo pela higiene de seus hospitais. E quantos franceses ainda falam com profunda gratidão dos cuidados ternos que receberam de tal voluntária holandesa ou alemã nas ambulâncias da Cruz Vermelha! Que importa isso ao autoritário? Seu ideal é o major do regimento, o assalariado do Estado. Ao diabo, portanto, a Cruz Vermelha com seus hospitais higiênicos, se os enfermeiros não forem funcionários!
Eis, portanto, uma organização nascida ontem e que conta neste momento seus membros às centenas de milhares, que possui ambulâncias, hospitais e trens, que elabora procedimentos novos no tratamento das feridas, e que se deve à iniciativa espontânea de alguns homens de coração. Talvez nos digam que os Estados têm alguma participação nessa organização. Sim, os Estados puseram a mão nela para apoderar-se dela. Os comitês dirigentes são presididos por aqueles que lacaios chamam príncipes do sangue. Imperadores e rainhas prodigalizam seu patrocínio aos comitês nacionais. O sucesso da organização, entretanto, não se deve a esse patrocínio. Deve-se aos mil comitês locais de cada nação, à atividade dos indivíduos, à dedicação de todos aqueles que procuram aliviar as vítimas da guerra. E essa dedicação seria ainda muito maior se os Estados não se metessem de modo algum.
Em todo caso, não foi por ordem de um comitê diretor internacional que ingleses e japoneses, suecos e chineses se apressaram em enviar socorros aos feridos de 1871. Não foi por ordem de um ministério internacional que os hospitais se ergueram no território invadido e que as ambulâncias se dirigiram aos campos de batalha. Foi pela iniciativa dos voluntários de cada país. Uma vez no lugar, não se agarraram pelos cabelos, como previam os jacobinos. Todos se puseram à obra sem distinção de nacionalidades. Podemos lamentar que esforços tão grandes sejam postos a serviço de uma causa tão má e perguntar, como a criança do poeta: "Por que os ferem, se os tratam depois?" Procurando demolir a força do Capital e o poder dos burgueses, trabalhamos para pôr fim às matanças, e preferiríamos ver os voluntários da Cruz Vermelha empregar sua atividade conosco para chegar à supressão da guerra. Devíamos, contudo, mencionar essa imensa organização como mais uma prova dos resultados fecundos produzidos pelo livre acordo e pela assistência livre.
Se quiséssemos multiplicar os exemplos tomados na arte de exterminar os homens, jamais terminaríamos. Basta citar somente as sociedades inumeráveis às quais o exército alemão deve sobretudo sua força, que não depende apenas de sua disciplina, como geralmente se acredita. Essas sociedades pululam na Alemanha e têm por objetivo propagar os conhecimentos militares. Em um dos últimos congressos da Aliança militar alemã, Kriegerbund, viram-se os delegados de duas mil quatrocentas e cinquenta e duas sociedades, compreendendo cento e cinquenta e um mil setecentos e doze membros, todas federadas entre si. Sociedades de tiro, sociedades de jogos militares, de jogos estratégicos, de estudos topográficos, eis as oficinas onde se elaboram os conhecimentos técnicos do exército alemão, e não nas escolas de regimento. É uma rede formidável de sociedades de toda espécie, envolvendo militares e civis, geógrafos e ginastas, caçadores e técnicos, que surgem espontaneamente, organizam-se, federam-se, discutem e vão fazer explorações no campo. São essas associações voluntárias e livres que fazem a verdadeira força do exército alemão.
Seu objetivo é execrável. É a manutenção do império. O que nos importa assinalar é que o Estado, apesar de sua grandíssima missão, a organização militar, compreendeu que o desenvolvimento dela seria tanto mais seguro quanto mais fosse entregue ao livre acordo dos grupos e à livre iniciativa dos indivíduos. Mesmo em matéria de guerra, é ao livre acordo que se recorre hoje. Para confirmar nossa afirmação, basta mencionar os trezentos mil voluntários ingleses, a Associação nacional inglesa de artilharia e a Sociedade em vias de organização para a defesa das costas da Inglaterra, que certamente, se se constituir, será muito mais ativa que o ministério da marinha com seus couraçados que explodem e suas baionetas que se dobram como chumbo. Em toda parte o Estado abdica, abandona suas funções sacrossantas a particulares. Em toda parte, a livre organização avança sobre seu domínio. Todos os fatos que acabamos de citar, entretanto, mal deixam entrever o que o livre acordo nos reserva no futuro, quando já não houver Estado.