A Conquista do Pão: A Descentralização das Indústrias I A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 47 de 55
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A Conquista do Pão: A Descentralização das Indústrias I

Ao fim das guerras napoleônicas, a Inglaterra quase conseguira arruinar a grande indústria que nascia na França no final do século anterior. Senhora dos mares e sem concorrentes sérios, aproveitou a situação para constituir um monopólio industrial. Impunha às nações vizinhas os preços das mercadorias que só ela podia fabricar, acumulava riqueza sobre riqueza e sabia tirar partido daquela posição privilegiada, com todos os proveitos que ela oferecia à burguesia inglesa.

Quando a revolução burguesa do século passado aboliu a servidão e formou na França um proletariado, a grande indústria, detida por um momento em seu impulso, retomou novo vigor. Desde a segunda metade de nosso século, a França deixou de ser tributária da Inglaterra para os produtos manufaturados. Hoje ela também se tornou país de exportação. Vende ao estrangeiro mais de um bilhão e meio em produtos fabricados, e dois terços dessas mercadorias são panos, roupas e artigos do mesmo ramo. Calcula-se que perto de três milhões de franceses trabalhem para a exportação ou vivam do comércio exterior.

A França, portanto, já deixou a dependência inglesa. Por sua vez, procurou monopolizar alguns ramos do comércio externo, como as sedas e as confecções, retirando daí lucros imensos. Está prestes, contudo, a perder para sempre esse monopólio, do mesmo modo que a Inglaterra está prestes a perder para sempre o monopólio dos panos de algodão e até dos fios de algodão. Marchando para o Oriente, a indústria se fixou na Alemanha. Há trinta anos, a Alemanha dependia da Inglaterra e da França para a maioria dos produtos da grande indústria. Isso mudou profundamente.

No curso dos últimos vinte e cinco anos, sobretudo depois da guerra, a Alemanha reformou por completo sua indústria. As novas fábricas foram aparelhadas com as melhores máquinas. As criações mais recentes da arte industrial de Manchester para o algodão, ou de Lyon para a seda, realizam-se agora nas novas fábricas alemãs. Se foram necessárias duas ou três gerações de trabalhadores para encontrar a máquina moderna em Lyon ou em Manchester, a Alemanha a recebe já aperfeiçoada. As escolas técnicas, adaptadas às necessidades da indústria, fornecem às manufaturas um exército de operários inteligentes, de engenheiros práticos, capazes de trabalhar com as mãos e com a cabeça. A indústria alemã começa no ponto exato a que Manchester e Lyon chegaram depois de cinquenta anos de esforços, ensaios e hesitações.

Daí resulta que a Alemanha, fazendo em casa tão bem quanto os outros, diminui ano a ano suas importações da França e da Inglaterra. Ela já é rival desses países na exportação para a Ásia e a África, e o é também nos próprios mercados de Londres e de Paris. Os espíritos curtos podem gritar contra o tratado de Francfort, podem explicar a concorrência alemã por pequenas diferenças nas tarifas ferroviárias, podem dizer que o alemão trabalha por nada, detendo-se nos aspectos miúdos de cada questão e deixando de lado os grandes fatos históricos. O certo é que a grande indústria, outrora privilégio da Inglaterra e da França, deu um passo para o Oriente. Encontrou na Alemanha um país jovem, cheio de forças, com uma burguesia inteligente e ávida de enriquecer, por sua vez, pelo comércio estrangeiro.

Enquanto a Alemanha se emancipava da tutela inglesa e francesa e fabricava ela mesma seus panos de algodão, suas fazendas, suas máquinas e, numa palavra, todos os produtos manufaturados, a grande indústria também se implantava na Rússia, onde o desenvolvimento das manufaturas impressiona ainda mais por ser de ontem. Na época da abolição da servidão, em 1861, a Rússia quase não possuía indústria. Tudo de que precisava em máquinas, trilhos, locomotivas e artigos de luxo vinha do Ocidente. Vinte anos depois, já possuía mais de oitenta e cinco mil manufaturas, e as mercadorias saídas delas haviam quadruplicado de valor.

O velho equipamento foi substituído por inteiro. Quase todo o aço hoje empregado, três quartos do ferro, dois terços do carvão, todas as locomotivas, todos os vagões, todos os trilhos e quase todos os barcos a vapor são feitos na Rússia. De país destinado, segundo diziam os economistas, a permanecer agrícola, a Rússia tornou-se país manufatureiro. Ela quase nada pede à Inglaterra e muito pouco à Alemanha. Os economistas atribuem esses fatos às alfândegas, embora os produtos manufaturados na Rússia se vendam pelo mesmo preço que em Londres.

Como o capital não conhece pátria, capitalistas alemães e ingleses, seguidos por engenheiros e contramestres de suas nações, implantaram na Rússia e na Polônia manufaturas que rivalizam com as melhores manufaturas inglesas pela excelência dos produtos. Se amanhã forem abolidas as alfândegas, as manufaturas só terão a ganhar. Neste exato momento, engenheiros britânicos estão dando o golpe final nas importações de panos e lãs do Ocidente. Montam no sul da Rússia imensas manufaturas de lã, aparelhadas com as máquinas mais aperfeiçoadas de Bradford, e dentro de dez anos a Rússia importará apenas algumas peças de pano inglês e lã francesa, a título de amostra.

A grande indústria não marcha apenas para o Oriente. Ela se estende também pelas penínsulas do Sul. A exposição de Turim já mostrou, em 1884, os progressos da indústria italiana, e convém que ninguém se engane: o ódio entre as duas burguesias, francesa e italiana, não tem outra origem senão sua rivalidade industrial. A Itália se emancipa da tutela francesa e faz concorrência aos comerciantes franceses na bacia do Mediterrâneo e no Oriente. É por isso, e por nenhuma outra razão, que um dia correrá sangue na fronteira italiana, a menos que a Revolução poupe esse sangue precioso.

Poderíamos mencionar também os rápidos progressos da Espanha no caminho da grande indústria. Tomemos antes o Brasil. Os economistas não o haviam condenado a cultivar para sempre o algodão, exportá-lo em estado bruto e receber em troca panos de algodão importados da Europa? De fato, há vinte anos, o Brasil possuía apenas nove pequenas manufaturas de algodão, pobres e mal equipadas, com trezentos e oitenta e cinco fusos. Hoje há quarenta e seis. Cinco delas possuem quarenta mil fusos, e lançam no mercado trinta milhões de metros de panos de algodão todos os anos.

Até o México começa a fabricar panos de algodão, em vez de importá-los da Europa. Quanto aos Estados Unidos, libertaram-se da tutela europeia, e a grande indústria ali se desenvolveu triunfalmente. Ainda assim, era a Índia que devia dar o desmentido mais brilhante aos partidários da especialização das indústrias nacionais. Conhece-se essa teoria: as grandes nações europeias precisam de colônias. Essas colônias enviarão à metrópole produtos brutos, fibra de algodão, lã suja, especiarias e matérias semelhantes. A metrópole devolverá esses produtos manufaturados, panos queimados, ferro velho em forma de máquinas fora de uso, em suma, tudo aquilo de que ela já não precisa, que lhe custa pouco ou nada, e que será vendido a preço exorbitante.

Essa foi a teoria e durante muito tempo essa foi a prática. Faziam-se fortunas em Londres e Manchester enquanto se arruinavam as Índias. Basta ir ao museu Indiano de Londres para ver riquezas inauditas, insensatas, acumuladas em Calcutá e Bombaim pelos negociantes ingleses. Outros negociantes e outros capitalistas, igualmente ingleses, conceberam então a ideia muito natural de que seria mais hábil explorar os habitantes da Índia diretamente e fabricar os panos de algodão nas próprias Índias, em vez de importar da Inglaterra, todos os anos, entre quinhentos e seiscentos milhões de francos desses produtos.

No começo, houve uma série de fracassos. Os fiandeiros indianos, artistas de seu ofício, tinham dificuldade para adaptar-se ao regime da fábrica. As máquinas enviadas de Liverpool eram más. Era preciso ainda levar em conta o clima, adaptar-se a condições novas, hoje todas preenchidas, e a Índia inglesa se torna uma rival cada vez mais ameaçadora das manufaturas da metrópole. Hoje possui oitenta manufaturas de algodão, que já empregam perto de sessenta mil trabalhadores, e em 1885 haviam fabricado mais de um milhão quatrocentas e cinquenta mil toneladas métricas de panos de algodão.

A Índia exporta anualmente para a China, para as Índias holandesas e para a África quase cem milhões de francos desses mesmos algodões brancos que se dizia serem especialidade da Inglaterra. Enquanto os trabalhadores ingleses ficam sem trabalho e caem na miséria, são as mulheres indianas, pagas a sessenta cêntimos por dia, que fazem à máquina os panos de algodão vendidos nos portos do Extremo Oriente. Em resumo, não está longe o dia, e os manufatureiros inteligentes sabem muito bem disso, em que já não se saberá o que fazer dos braços ocupados na Inglaterra em fabricar panos de algodão para exportação.

E isso ainda não é tudo. Relatórios muito sérios mostram que, dentro de dez anos, a Índia já não comprará uma só tonelada de ferro da Inglaterra. As primeiras dificuldades para empregar a hulha e o ferro das Índias foram vencidas, e usinas rivais das fábricas inglesas já se erguem nas costas do Oceano Índico. A colônia fazendo concorrência à metrópole com seus produtos manufaturados, eis o fenômeno decisivo da economia do século dezenove.

E por que a colônia deixaria de fazê-lo? Que lhe falta? Capital? O capital vai a toda parte onde encontra miseráveis a explorar. Saber? O saber não conhece barreiras nacionais. Conhecimentos técnicos do operário? O operário hindu seria inferior aos noventa e dois mil meninos e meninas de menos de quinze anos que trabalham neste momento nas manufaturas têxteis da Inglaterra?

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