A Conquista do Pão: O Vestuário A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 23 de 55
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A Conquista do Pão: O Vestuário

Se as casas forem consideradas patrimônio comum da cidade, e se for feito o racionamento dos víveres, será preciso dar mais um passo. Seremos levados necessariamente a considerar a questão do vestuário, e a única solução possível será ainda tomar, em nome do povo, todos os depósitos de roupas e abrir suas portas a todos, para que cada um possa retirar dali aquilo de que precisa. A posse comum das vestimentas, e o direito de cada um buscar o necessário nos depósitos comunais ou pedi-lo às oficinas de confecção, essa solução se imporá desde que o princípio comunista tiver sido aplicado às casas e aos víveres.

Evidentemente, para isso, não teremos necessidade de despir todos os cidadãos de seus casacos, de pôr todas as roupas em montes para sorteá-las, como pretendem nossos críticos, tão espirituosos quanto engenhosos. Cada um terá apenas de conservar seu casaco, se tiver um, e é até muito provável que, se tiver dez, ninguém pretenda tirá-los dele. Preferirão a roupa nova àquela que o burguês já levou sobre os ombros, e haverá roupas novas em quantidade bastante para dispensar a requisição dos velhos guarda-roupas. Se fizéssemos a estatística das roupas acumuladas nos depósitos das grandes cidades, veríamos provavelmente que em Paris, Lyon, Bordeaux e Marselha há o suficiente para que a Comuna possa oferecer uma vestimenta a cada cidadão e a cada cidadã. Além disso, se todos não encontrassem algo de seu gosto, as oficinas comunais logo preencheriam as lacunas. Sabe-se com que rapidez trabalham hoje nossas oficinas de confecção, providas de máquinas aperfeiçoadas e organizadas para a produção em vasta escala.

"Todos vão querer uma peliça de zibelina, e cada mulher pedirá um vestido de veludo", já exclamam nossos adversários. Francamente, não cremos nisso. Nem todo mundo prefere o veludo, e nem todo mundo sonha com uma peliça de zibelina. Se hoje mesmo fosse proposto às parisienses que cada uma escolhesse seu vestido, haveria aquelas que prefeririam uma roupa simples a todos os adornos fantasiosos de nossas mundanas. Os gostos variam com as épocas, e aquele que prevalecer no momento da revolução será certamente um gosto de simplicidade. A sociedade, como o indivíduo, tem suas horas de covardia, e também tem seus minutos de heroísmo. Por miserável que seja quando se afunda, como agora, na busca dos interesses mesquinhos e toscamente pessoais, ela muda de aspecto nas grandes épocas. Tem seus momentos de nobreza e arrebatamento. Os homens de coração adquirem a ascendência hoje entregue aos fabricantes de negócios. As dedicações aparecem, os grandes exemplos são imitados, e até os egoístas sentem vergonha de ficar para trás, apressando-se, de boa ou má vontade, a fazer coro com os generosos e os valentes.

A grande revolução de 1793 abunda em exemplos desse gênero. É durante essas crises de renovação moral, tão naturais nas sociedades quanto nos indivíduos, que se veem esses impulsos sublimes que permitem à humanidade dar um passo adiante. Não queremos exagerar o papel provável dessas belas paixões, e nosso ideal de sociedade não se apoia nelas. Ainda assim, nada exageramos ao admitir que elas nos ajudarão a passar pelos primeiros momentos, os mais difíceis. Não podemos contar com a continuidade dessas dedicações na vida cotidiana, e podemos esperá-las no começo, o que basta. É precisamente quando for preciso desobstruir o terreno, limpar o esterco acumulado por séculos de opressão e escravidão, que a sociedade anarquista precisará desses impulsos de fraternidade. Mais tarde, ela poderá viver sem apelar ao sacrifício, pois terá eliminado a opressão e criado, por isso mesmo, uma sociedade nova, aberta a todos os sentimentos de solidariedade.

De resto, se a revolução se fizer no espírito de que falamos, a livre iniciativa dos indivíduos encontrará um vasto campo de ação para evitar os atritos vindos dos egoístas. Grupos poderão surgir em cada rua, em cada bairro, e encarregar-se de prover o vestuário. Farão o inventário daquilo que a cidade revoltada possui e saberão, com pequena margem de erro, de que recursos desse gênero ela dispõe. É muito provável que, para o vestuário, os cidadãos da cidade adotem o mesmo princípio aplicado aos víveres: retirada livre do que existe em abundância, racionamento do que existe em quantidade limitada. Como não poderá oferecer a cada cidadão uma peliça de zibelina e a cada cidadã um vestido de veludo, a sociedade distinguirá provavelmente entre o supérfluo e o necessário. Ao menos provisoriamente, colocará o vestido de veludo e a zibelina entre os supérfluos, reservando-se ver mais tarde se aquilo que hoje é objeto supérfluo pode tornar-se comum amanhã. Ao garantir o necessário a cada habitante da cidade anarquista, poderá deixar à atividade privada o cuidado de obter para os fracos e doentes aquilo que for provisoriamente considerado objeto de luxo, e de prover os menos robustos daquilo que não entra na consumação cotidiana de todos.

"Isso é nivelamento! A roupa cinzenta de monge", dirão. "É o desaparecimento de todos os objetos de arte, de tudo o que embeleza a vida!" Certamente não. E, apoiando-nos sempre no que já existe, mostraremos daqui a pouco como uma sociedade anarquista poderia satisfazer aos gostos mais artísticos de seus cidadãos sem lhes atribuir, para isso, fortunas de milionários.

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