A Conquista do Pão: A Expropriação II
O proprietário do solo enriquece com a miséria dos camponeses. O mesmo acontece com o empreendedor industrial. Eis um burguês que, de uma maneira ou de outra, se vê possuidor de uma soma de quinhentos mil francos. Certamente pode gastar seu dinheiro à razão de cinquenta mil francos por ano, pouca coisa, no fundo, diante do luxo fantasioso e insensato que vemos hoje. Nesse caso, porém, nada lhe restará ao cabo de dez anos. Por isso, como homem prático, prefere conservar intacta sua fortuna e ainda tirar dela uma bela renda anual.
Isso é muito simples em nossa sociedade, precisamente porque nossas cidades e aldeias fervilham de trabalhadores que não têm com que viver um mês, nem sequer uma quinzena. Nosso burguês monta uma fábrica. Os banqueiros se apressam em lhe emprestar outros quinhentos mil francos, sobretudo se ele tem fama de hábil, e com seu milhão poderá fazer trabalhar quinhentos operários. Se nos arredores houvesse apenas homens e mulheres cuja existência estivesse garantida, quem iria trabalhar para nosso burguês? Ninguém consentiria em fabricar para ele, por um salário de três francos ao dia, mercadorias no valor de cinco ou mesmo de dez francos.
Infelizmente, sabemos bem demais, os bairros pobres da cidade e as aldeias vizinhas estão cheios de gente cujos filhos dançam diante do armário vazio. Assim, a fábrica nem está concluída e os trabalhadores já acorrem para se empregar. Bastam cem, e já vieram mil. Desde que a fábrica funcione, o patrão, se não for o último dos imbecis, embolsará líquido, sobre cada par de braços que trabalha para ele, um milhar de francos por ano.
Nosso patrão fará assim uma bela renda. Se escolheu um ramo de indústria lucrativo, se é hábil, aumentará pouco a pouco sua fábrica e suas rendas, dobrando o número de homens que explora. Então se tornará um notável em sua região. Poderá pagar almoços a outros notáveis, aos conselheiros, ao senhor deputado. Poderá casar sua fortuna com outra fortuna e, mais tarde, colocar vantajosamente seus filhos, depois obter alguma concessão do Estado. Pedir-lhe-ão um fornecimento para o exército ou para a prefeitura, e ele arredondará sempre seu pé-de-meia até que uma guerra, mesmo um simples rumor de guerra, ou uma especulação na Bolsa lhe permita dar um grande golpe.
Nove décimos das fortunas colossais dos Estados Unidos, Henry George contou isso muito bem em seus Problemas Sociais, devem-se a alguma grande velhacaria feita com o concurso do Estado. Na Europa, nove décimos das fortunas em nossas monarquias e repúblicas têm a mesma origem. Não há dois modos de se tornar milionário. Toda a ciência das Riquezas está aí: encontrar pés-rapados, pagar-lhes três francos e fazê-los produzir dez. Amassar assim uma fortuna. Depois aumentá-la por algum grande golpe com o auxílio do Estado.
Será preciso ainda falar das pequenas fortunas atribuídas pelos economistas à poupança, quando a poupança, por si mesma, nada rende enquanto os vinténs poupados não são empregados para explorar famintos? Eis um sapateiro. Admitamos que seu trabalho seja bem pago, que tenha boa clientela e que, à força de privações, tenha conseguido pôr de lado dois francos por dia, cinquenta francos por mês. Admitamos que nosso sapateiro nunca fique doente, que coma até saciar-se apesar de sua paixão pela poupança, que não se case, ou que não tenha filhos, que não morra de tísica. Admitamos tudo o que quiserem.
Pois bem, aos cinquenta anos ele não terá posto de lado quinze mil francos, e não terá com que viver durante a velhice, quando estiver incapaz de trabalhar. Certamente, fortunas não se juntam assim. Vejamos outro sapateiro. Assim que tiver posto alguns vinténs de lado, levará cuidadosamente esse dinheiro à caixa de poupança, e esta o emprestará ao burguês que está montando uma exploração de pés-rapados. Depois tomará um aprendiz, filho de um miserável que se considerará feliz se, ao cabo de cinco anos, seu filho aprender o ofício e conseguir ganhar a vida.
O aprendiz renderá ao nosso sapateiro, e, se este tiver clientela, apressar-se-á a tomar um segundo e depois um terceiro aluno. Mais tarde terá dois ou três operários, miseráveis felizes em receber três francos por dia por um trabalho que vale seis. E se nosso sapateiro tiver sorte, isto é, se for bastante esperto, seus operários e seus aprendizes lhe renderão uns vinte francos por dia além de seu próprio trabalho. Poderá aumentar sua empresa, enriquecerá pouco a pouco e não precisará privar-se do estritamente necessário. Deixará ao filho um pequeno pé-de-meia. Eis o que se chama fazer poupança, ter hábitos de sobriedade. No fundo, é simplesmente explorar famintos.
O comércio parece fazer exceção à regra. Tal homem, dirão, compra chá na China, importa-o para a França e realiza lucro de trinta por cento sobre seu dinheiro. Ele não explorou ninguém. No entanto, o caso é análogo. Se nosso homem tivesse transportado o chá nas costas, muito bem. Outrora, nas origens da Idade Média, era precisamente dessa maneira que se fazia o comércio. Por isso nunca se chegava às fortunas atordoantes de hoje. Mal o mercador de então punha de lado alguns escudos depois de uma viagem penosa e perigosa. Era menos a sede de ganho que o gosto pelas viagens e aventuras que o levava ao comércio.
Hoje, o método é mais simples. O comerciante que possui capital não precisa mover-se de seu balcão para enriquecer. Telegrafa a um comissário a ordem de comprar cem toneladas de chá, afreta um navio, e em algumas semanas, em três meses se for um veleiro, o navio lhe terá trazido a carga. Ele nem corre os riscos da viagem marítima, pois seu chá e seu navio estão segurados. E se gastou cem mil francos, receberá cento e trinta, a menos que tenha querido especular sobre alguma mercadoria nova, caso em que arrisca duplicar a fortuna ou perdê-la inteiramente.
Mas como pôde encontrar homens decididos a fazer a viagem, ir à China e voltar, trabalhar duro, suportar fadigas, arriscar a vida por um magro salário? Como pôde encontrar nas docas carregadores e descarregadores, pagos apenas com o suficiente para não morrerem de fome enquanto trabalham? Como? Porque são miseráveis. Vá a um porto de mar, visite os cafés da praia, observe esses homens que vêm contratar-se, batendo-se às portas das docas que cercam desde a aurora para serem admitidos ao trabalho nos navios. Veja esses marinheiros, felizes por serem engajados numa viagem distante depois de semanas e meses de espera. Durante toda a vida passaram de navio em navio, e ainda subirão em outros, até que um dia pereçam nas ondas.
Entre em suas choupanas, considere essas mulheres e crianças em farrapos, vivendo não se sabe como enquanto esperam o retorno do pai, e terá também a resposta. Multiplique os exemplos, escolha-os onde quiser. Medite sobre a origem de todas as fortunas, grandes ou pequenas, quer venham do comércio, do banco, da indústria ou do solo. Em toda parte constatará que a riqueza de uns é feita da miséria de outros.
Uma sociedade anarquista nada tem a temer do Rothschild desconhecido que viesse de repente estabelecer-se em seu seio. Se cada membro da comunidade sabe que, depois de algumas horas de trabalho produtivo, terá direito a todos os prazeres que a civilização proporciona, às fruições profundas que a Ciência e a Arte dão a quem as cultiva, ele não irá vender sua força de trabalho por uma magra ração. Ninguém se oferecerá para enriquecer esse Rothschild. Seus escudos serão peças de metal, úteis para diversos usos, incapazes, contudo, de se multiplicar.
Ao responder à objeção precedente, determinamos ao mesmo tempo os limites da expropriação. A expropriação deve incidir sobre tudo o que permite a quem quer que seja, banqueiro, industrial ou cultivador, apropriar-se do trabalho alheio. A fórmula é simples e compreensível. O paletó de cada um não é nosso alvo. Queremos devolver aos trabalhadores tudo o que permite a qualquer pessoa explorá-los, e faremos todos os nossos esforços para que, ninguém faltando de nada, não haja um só homem forçado a vender os braços para existir, ele e seus filhos. É assim que entendemos a expropriação e nosso dever durante a Revolução, cuja chegada esperamos, sem remetê-la a duzentos anos daqui, em futuro próximo.