A Conquista do Pão: Os Alimentos II A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 14 de 55
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A Conquista do Pão: Os Alimentos II

Somos utopistas, isto é conhecido. Tão utopistas, com efeito, que levamos nossa utopia até acreditar que a Revolução deverá e poderá garantir a todos moradia, roupa e pão, o que desagrada enormemente aos burgueses vermelhos e azuis, pois eles sabem perfeitamente que um povo que comesse até saciar-se seria muito difícil de dominar. Pois bem, não saímos disso: é preciso assegurar pão ao povo revoltado, e é preciso que a questão do pão prevaleça sobre todas. Se ela for resolvida no interesse do povo, a revolução estará em boa via, pois para resolver a questão dos alimentos será necessário aceitar um princípio de igualdade que se imporá com exclusão de todas as outras soluções.

É certo que a próxima revolução, semelhante nisso à de 1848, explodirá em meio a uma formidável crise industrial. Há uns doze anos já estamos em plena efervescência, e a situação só pode agravar-se. Tudo contribui para isso: a concorrência das nações jovens que entram em luta pela conquista dos velhos mercados, as guerras, os impostos sempre crescentes, as dívidas dos Estados, a insegurança do amanhã, as grandes empresas distantes. Milhões de trabalhadores na Europa carecem de ocupação neste momento. Será ainda pior quando a revolução tiver explodido e se propagado como fogo em rastilho de pólvora. O número de operários sem trabalho dobrará assim que as barricadas se erguerem na Europa ou nos Estados Unidos. Que se fará para assegurar pão a essas multidões?

Ignoramos se as pessoas que se dizem práticas já colocaram essa pergunta em toda a sua crueza. Sabemos, entretanto, que desejam manter o salariato. Devemos, portanto, esperar que recomendem as oficinas nacionais e os trabalhos públicos para dar pão aos desocupados. Como se abriram oficinas nacionais em 1789 e em 1793, como se recorreu ao mesmo meio em 1848, como Napoleão III conseguiu durante dezoito anos conter o proletariado parisiense dando-lhe trabalhos que hoje valem a Paris sua dívida de dois bilhões e seu imposto municipal de noventa francos por cabeça, como esse excelente meio de domar a fera se aplicava em Roma, e até no Egito, há quatro mil anos, como enfim déspotas, reis e imperadores sempre souberam jogar um pedaço de pão ao povo para ter tempo de apanhar o chicote, é natural que as pessoas práticas recomendem esse método de perpetuar o salariato. Para que quebrar a cabeça quando se dispõe do método experimentado pelos faraós do Egito?

Pois bem, se a Revolução tivesse a infelicidade de entrar nessa via, estaria perdida. Em 1848, quando se abriram as oficinas nacionais, em 27 de fevereiro, os operários sem trabalho eram apenas oito mil em Paris. Quinze dias mais tarde, já eram quarenta e nove mil. Logo seriam cem mil, sem contar os que acorriam das províncias. Naquela época, porém, a indústria e o comércio empregavam na França menos da metade dos braços que empregam hoje. E sabe-se que, em revolução, o que mais sofre são as trocas e a indústria. Basta pensar no número de operários que trabalham, direta ou indiretamente, para a exportação, no número de braços empregados nas indústrias de luxo que têm como clientela a minoria burguesa.

A revolução na Europa significa a parada imediata de ao menos metade das usinas e manufaturas. Significa milhões de trabalhadores, com suas famílias, lançados à rua. E é a essa situação realmente terrível que se procuraria remediar por meio de oficinas nacionais, isto é, de novas indústrias criadas de imediato para ocupar desocupados. É evidente, como Proudhon já dissera, que a menor agressão à propriedade trará a desorganização completa de todo o regime baseado na empresa privada e no salariato. A própria sociedade será forçada a tomar em mãos a produção em seu conjunto e reorganizá-la segundo as necessidades do conjunto da população.

Como essa reorganização não é possível em um dia nem em um mês, como exigirá certo período de adaptação durante o qual milhões de homens estarão privados de meios de existência, que se fará? Nessas condições há uma única solução realmente prática. É reconhecer a imensidão da tarefa que se impõe e, em lugar de procurar remendar uma situação que a própria revolução terá tornado impossível, proceder à reorganização da produção segundo princípios novos.

Será preciso, portanto, segundo pensamos, para agir praticamente, que o povo tome posse imediata de todos os alimentos que se encontram nas comunas insurgidas, que os inventarie e faça com que, sem desperdiçar nada, todos aproveitem os recursos acumulados para passar pelo período de crise. Durante esse tempo, será preciso entender-se com os operários das fábricas, oferecendo-lhes as matérias-primas de que carecem e garantindo-lhes a existência durante alguns meses, a fim de que produzam aquilo de que o cultivador precisa. Não esqueçamos que, se a França faz sedas para os banqueiros alemães e as imperatrizes da Rússia e das Ilhas Sandwich, e se Paris faz maravilhas de quinquilharia para os ricaços do mundo inteiro, dois terços dos camponeses franceses não têm lâmpadas convenientes para se iluminar, nem o instrumental mecânico hoje necessário à agricultura.

Enfim, será preciso valorizar as terras improdutivas, que não faltam, e melhorar aquelas que ainda não produzem nem o quarto, nem mesmo o décimo do que produzirão quando forem submetidas à cultura intensiva, de horta e de jardim. Essa é a única solução prática que somos capazes de entrever, e, queira-se ou não, ela se imporá pela força das coisas.

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